Sinal dos tempos

Acordou e olhou para o teto escuro. Não precisa consultar o relógio ou o celular para saber que estava longe a hora de levantar-se. Da mesma forma, mais do que saber, sentia que a insônia, tal qual nos outros dias, estava ali para lhe fazer companhia.
Entre ficar rolando de um lado para o outro na cama ou acessar alguma rede social até o sono reaparecer, optou por alimentar pensamentos e planos. Ideias sobre retomar e continuar de forma constante os exercícios físicos, ler livros, dedicar-se mais ao trabalho, buscar conhecimento, aproximar-se de Deus e das pessoas, criar hábitos saudáveis, hobbies. Enfim, transformar a sua vida simples e medíocre em algo extraordinário, ainda que na sua concepção somente.
Contudo, dentro de si tinha um enorme vazio, um buraco negro que drenava todas as energias, impedindo de dar início a qualquer mudança ou colocar em prática os projetos planejados de forma tão detalhada nas madrugadas.
Permanecia, assim, no automático. Acordava com o despertador, muitas vezes antes mesmo dele tocar, fazia e tomava café, passeava com seu pet, via as redes sociais, vídeo e fotos de pessoas e lugares que não conhecia, banho, trabalho, almoço, trabalho, casa, televisão, rede sociais e cama.
E, diariamente, sentia a frustração e a decepção presentes, chamando a plenos pulmões a depressão e a ansiedade para que se instalassem em definitivo na sua vida.
Olha-se no espelho e vê que a pele já não possui a firmeza de outrora, a massa muscular diminuiu, as marcas de expressão no rosto, os cabelos cada vez mais sem pigmento. Mas principalmente, vê os seus olhos, olhos vazios que expressam todo o peso que carrega.
O peso de morar em um lugar que não gosta. De estar insatisfeito, intelectual e financeiramente, com a profissão que exerce. Das expectativas não atendidas pelas pessoas e por si. Da dependência tecnológica e de medicamentos. Da decepção por não conseguir alterar a rotina que traz tanto desgaste, da terapia que não apresenta mais respostas.
E sente o cansaço. A fadiga de não conseguir se apaixonar pelo seu trabalho e com isso se dedicar cada vez mais. Cansaço por ter que representar um personagem perante a sociedade, colegas de trabalho, amigos e familiares, demonstrando força, alegria e bem-estar consigo mesmo, quando na realidade se sente sem forças, triste e solitário e que nem a sua própria companhia é suficiente.
Olha em volta e não vê sentido no que faz, no que sente, no que pensa e quer. Vê o tempo passar, trazendo em si os limites físicos e mentais, mas sente-se preso e afundando em areia movediça.
Tenta pedir socorro, mas a voz não sai. Então sufoca, não só a voz, mas todos os sentimentos dentro de si. E para não explodir, busca prazeres imediatos: a bebida, jogos, pornografia, redes sociais e remédios. Torna-se dependentes deles, aumentando o vazio.
E dia após dia, com pequenas variações, o roteiro se repete, e num looping eterno.
Milhares de homens e mulheres passam por momentos assim. Doentes por dentro enquanto tentam mostrar que estão felizes por fora, sem saber o que fazer ou para onde ir, buscando um sentido para tudo isso.
Buscam e não acham. Tentam sentir e se frustram. Criam expectativas e se decepcionam. Então se conformam e concluem que a vida é assim mesmo e que todos vivem dessa forma
Talvez a vida seja isso mesmo. Só seguir em frente, aceitando as coisas como são nos dias de hoje. Como diz aquela música: “Apenas pare de chorar. É o sinal dos tempos.”

