O que é a vida se não o dia a dia?

Aproximadamente dois anos atrás, recebi um convite para escrever textos para uma coluna do Jornal Noroeste. A proposta era tentadora. Temática livre, sem cronograma fixo, sem necessidade de identificação ou outras exigências. A proposta era desafiadora. Não sou escritor. Ainda que redija todos os dias, são textos técnicos, destinados exclusivamente para a minha área de atuação profissional. Além disso, havia a necessidade de submeter o crivo as pessoas de José Antonio e Alex Fernandes, pessoas de grande cultura, sensibilidade e sabedoria (Mesmo podendo questionar a quantidade de sabedoria tendo em vista o time que escolheram para torcer, inegável que essa qualidade é notória em ambos).
Na época, gostava de assistir os cortes do programa Provocações, apresentado por Antonio Abumjara, no qual o apresentador entrevistava diversas personalidades, sempre finalizando o programa com a pergunta “O QUE É A VIDA?”, repetida várias vezes, sempre com respostas diferentes do mesmo entrevistado.
Um dos entrevistados respondeu: “A vida é tudo o que acontece entre o nascimento e a morte.” Afirmação simples, óbvia, que não explica nada, mas diz tudo. A frase chamou a atenção e, pensando sobre ela, cheguei a conclusão de que a vida é o que acontece a cada um de nós de acordo com o que vemos, ouvimos, sentimos e pensamos, pois o que não sabemos ou queremos ignorar, particularmente não faz parte de nossa vida, ainda que aconteça na rotina de outras.
Além disso, percebi que o que acontece entre o nascimento e a morte é uma sequência de anos, meses, dias, horas, minutos e segundos, sequência esta que se desenvolve de forma personalizada para cada um de nós.
A vida é acordar cedo para ir trabalhar, ir treinar, correr, meditar, orar, cuidar de alguém, fazer amor. Mas também é vida acordar cedo para reiniciar a luta pela cura de doenças, a busca por emprego, por alimentos, por paz, por encontrar o amor.
A vida está na felicidade de uma relação e na tristeza da rejeição; na música que ouvimos, na palavra escrita ou falado mas, também, na ausência de som e visão e na comunicação por sinais.
A vida está nas viagens, na aquisição de bens materiais, roupas, mas também nas reuniões em família, com amigos, nos esportes, churrascos. E, ainda, na busca por um teto para dormir e por um prato de comida.
A vida é o ir e vir das ondas, das pessoas, dos recursos, da saúde. Uma gama enorme de acontecimentos, simultâneos ou em sequência.
E essa gama de acontecimentos, pensamentos e sentimentos ocorrem a cada dia, não sendo totalmente falsa a afirmação de que a vida é o dia a dia de cada um de nós, o que levou à definição do nome da coluna.
E com esse título, a coluna, nesses dois anos, discorreu sobre fatos, sentimentos, experiências, vividas, presenciadas ou compartilhadas por conhecidos e estranhos. Situações que muitas pessoas passam em algum momento da vida e que, ao ler algum dos textos, pudesse se identificar e obter um apoio, uma ajuda ou um caminho.
Se o início de uma jornada não merece alarde, para não criar falsas expectativas, o fim não deve ocorrer em silêncio. E nesse último texto, gostaria de externar gratidão ao José Antonio e ao Alex, não somente pela oportunidade, mas por tudo que foi consequência dela. A amizade que se consolidou, a descoberta de uma capacidade, ainda que não tão desenvolta quanto dos demais colunistas, mas que possibilitou criar um texto como A Onça e Nós, um dos mais impactantes para mim.
Tudo isso, junto com a necessidade de se auto analisar e auto conhecer ao reler cada um dos textos, tentando adequar o comportamento com o pensamento, possui um valor inestimável, que engrandece meu dia a dia e, consequentemente, a minha vida.
Esse último texto vai assinado como todos os demais, R. S. Borja, seja pela homenagem que o pseudônimo presta, seja por ser ele o que melhor representa o conteúdo de cada coluna. Com muita gratidão e carinho

