O Segundo Sexo e o pensamento de Simone de Beauvoir: impactos na construção da identidade feminina

Educanda: Emilly Villela
Série: 3.2
“Não se nasce mulher, torna-se mulher”. A célebre frase de Simone de Beauvoir, publicada em 1949 na obra O Segundo Sexo, dividida em dois volumes, tornou-se um marco nas reflexões sobre a naturalização do papel feminino na sociedade e sobre o significado de ser mulher. No campo das discussões intelectuais acerca da condição feminina, Beauvoir é considerada leitura obrigatória. Em 2019, em comemoração aos 70 anos da obra, importantes intelectuais brasileiras, como Mirian Goldenberg, Mary Del Priore, Djamila Ribeiro e Marcia Tiburi, destacaram a relevância do livro em suas trajetórias acadêmicas.
O primeiro volume, Fatos e Mitos, examina a condição feminina sob diferentes perspectivas: biológica, psicológica e histórica. Já o segundo, A Experiência Vivida, analisa as diversas fases da vida de uma mulher, da infância à velhice, discutindo temas como a iniciação sexual, o casamento e a maternidade.
Mirian Goldenberg, antropóloga e escritora brasileira dedicada aos estudos de gênero e envelhecimento, afirma que o texto que mais influenciou sua trajetória foi “A caminho da libertação”. Neste capítulo, Beauvoir apresenta a ideia de que a “mulher independente” é aquela que escolhe a luta em vez da resignação. No entanto, a autora ressalta que “a mulher que se liberta economicamente do homem nem por isso alcança uma situação moral, social e psicológica idêntica à dele”.
Beauvoir também expõe como a construção social da feminilidade pode levar muitas mulheres a desenvolverem um complexo de inferioridade, reforçado por instituições primárias como a família e a escola. Isso pode ser observado, por exemplo, no fato de que homens tendem a apresentar maiores aspirações profissionais quando comparados às mulheres.
A historiadora Mary Del Priore contextualiza a trajetória de Simone de Beauvoir, nascida em 1908, em uma família burguesa de Paris. Após a Primeira Guerra Mundial, a família enfrentou dificuldades financeiras que contribuíram para a ruptura do casamento de seus pais. Beauvoir estudou letras, matemática e posteriormente filosofia. Em 1929, tornou-se professora e passou a desenvolver reflexões sobre liberdade e autonomia do indivíduo, dedicando especial atenção à condição feminina.
Segundo Del Priore, a ideia de escrever O Segundo Sexo teria surgido a partir de uma conversa com Jean-Paul Sartre, filósofo existencialista e companheiro intelectual de Beauvoir. Ele teria perguntado: “O que é ser mulher?”. A partir dessa questão, a autora passou a investigar a condição feminina de forma ampla, denunciando as desigualdades presentes na sociedade.
A filósofa Djamila Ribeiro, por sua vez, destaca o conceito de “O Outro” desenvolvido por Beauvoir. Esse conceito se baseia na forma como a sociedade interpreta as diferenças biológicas. Beauvoir explica que “os judeus são ‘outros’ para o antissemita, os negros para os racistas norte-americanos [...]”. Dessa forma, o sujeito afirma sua própria identidade ao transformar o outro em algo secundário. Nesse sentido, a mulher passa a ser considerada “O Outro” em relação ao homem, que se coloca socialmente como o primeiro sexo.
Por fim, a filósofa, artista plástica e professora universitária Marcia Tiburi afirma que, mesmo após décadas de sua publicação, o livro permanece atual. Para Tiburi, Beauvoir inovou o feminismo ao transformá-lo em uma consciência crítica sobre a desigualdade de gênero. A filósofa também aponta que, no Brasil, ainda existe um atraso em relação ao desenvolvimento dessa consciência feminista, e que a ideia de “fragilidade feminina” foi historicamente construída pelo patriarcado.
Além disso, Tiburi destaca que a imagem da mulher frágil pode despertar o desejo de fragilizá-la ainda mais, reforçando estruturas de dominação. Por isso, ressalta a importância de valorizar a obra O Segundo Sexo. Contrariando a ideia de que o livro estaria ultrapassado, a filósofa afirma que ainda é necessário estimular um olhar crítico nas mulheres sobre o papel e as pressões sociais que lhes são impostas desde cedo.
Desde sua publicação, em 1949, é inegável que ocorreram mudanças significativas na vida das mulheres em diversos países, especialmente no que diz respeito aos direitos no trabalho, na convivência conjugal e na vida familiar. Entretanto, O Segundo Sexo permanece um clássico da literatura feminista, não apenas por sua importância histórica, mas pela maneira como desperta reflexões essenciais sobre como a sociedade construiu estereótipos femininos a partir da interpretação das diferenças biológicas entre homens e mulheres. Nesse sentido, o pensamento de Beauvoir continua fundamental para compreender o processo de construção da desigualdade de gênero.

