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Entre memórias e perdas: os desafios do envelhecimento em “A Máquina de Fazer Espanhóis”


Por: Especial para JN
Data: 02/07/2026
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 Por Beatriz de Castro Luz e Manuella Gibin Ribeiro

 

“O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada.”

Cora Coralina

 

O envelhecimento da população é uma realidade cada vez mais presente no Brasil, especialmente na Região Sul, que possui uma das maiores proporções de idosos do país. Segundo dados do Censo de 2022, 17,6% da população sulista tem 60 anos ou mais, percentual superior à média nacional. Nesse contexto, a obra “A Máquina de Fazer Espanhóis”, de Valter Hugo Mãe, apresenta uma narrativa envolvente que conduz o leitor pelos sentimentos e conflitos vividos na velhice.

O envelhecimento é um processo natural e contínuo, que acarreta transformações físicas, emocionais e sociais ao longo da vida. Mais do que uma questão biológica, essa etapa está relacionada à experiência acumulada, às mudanças na visão de mundo e à forma como cada indivíduo se percebe diante da sociedade. Contudo, apesar do aumento da expectativa de vida, muitos idosos ainda enfrentam situações de exclusão, carência e invisibilidade. Desse modo, discutir essa temática torna?se fundamental para promover respeito, inclusão e valorização daqueles que contribuíram para a construção da sociedade.

Escrita em Portugal, após o fim do regime salazarista, a obra surge num momento de renovação da literatura portuguesa. Nesse cenário, o livro dá voz a quem normalmente não aparece, de forma comovente, representando a vida e as transformações pelas quais todos passam.

A história acompanha Antônio Jorge da Silva, que tem na morte da esposa o ponto de virada de sua existência. É perceptível que o protagonista se fecha na solidão, perdendo a capacidade de compreender e sentir a vida, visto que seus gostos e interesses são abalados pela ausência. Esse quadro revela como o isolamento reflete diretamente na própria essência humana.

O autor aborda temas como identidade, perda afetiva e solidão, como se vê no fragmento: “a minha vida estava no lar, talvez o reconfortar?se com a mulher pela decisão oficial de deixá?la ali e partir.” Desse modo, a narrativa evidencia como o isolamento social e a perda de vínculos afetivos interferem profundamente no sofrimento do personagem.

Com uma linguagem poética, sensível e reflexiva, a obra valoriza a escuta do idoso, explorando memórias e sentimentos de forma lúcida. Sua mensagem principal convida a refletir sobre a beleza e a dignidade humana, e sobre o sentido da existência ao longo do tempo.

Valter Hugo Mãe trata também da exclusão social ligada à idade. Após a morte da esposa, o protagonista passa a refletir sobre a perda de autonomia e o surgimento da invisibilidade. Essa situação pode ser relacionada às ideias do sociólogo Zygmunt Bauman sobre a modernidade líquida, na qual os indivíduos que não correspondem aos padrões de produtividade tendem a ser marginalizados.

Outro ponto central é a desconstrução da identidade diante das transformações da vida. Mesmo sofrendo, Antônio consegue se erguer e ressignificar sua trajetória, mostrando que a velhice é um processo contínuo de mudança. O trecho “não fala daquilo que lembra” destaca o papel da memória na formação da identidade, moldada pela experiência e pelas relações vividas.

Além disso, a narrativa demonstra que a velhice pode significar também uma forma de resistência diante das dificuldades. Mesmo cercado de perdas e incertezas, Antônio encontra motivos para seguir em frente. Outro trecho reforça essa ideia: “com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que os vivos e o mundo não se tornem desumanos”. Ele reflete sobre a dor da ausência e a necessidade de reconstruir laços que dão sentido à vida.

Em síntese, “A Máquina de Fazer Espanhóis” traz uma reflexão profunda sobre o envelhecimento e a busca por sentido diante das perdas inevitáveis. Ao abordar questões que ainda afligem milhões de pessoas, o romance revela a necessidade de valorizar a dignidade humana, o respeito às diferenças e a preservação da memória.

 

Referências

 

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

CORALINA, Cora. Poemas e histórias. 8. ed. São Paulo: Global, 2012.

IBGE. Censo Demográfico 2022: perfil da população idosa no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2023. Disponível em: <https://www.ibge.gov.br>. Acesso em: 18 jun. 2026.

MÃE, Valter Hugo. A máquina de fazer espanhóis. Porto: Porto Editora, 2016. 320 p.

 


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