Comecinho de Vida: quando uma escola se torna parte da memória de uma cidade
Há lugares que existem muito além de suas paredes. Eles vivem na lembrança das pessoas, nos reencontros, nas fotografias amareladas pelo tempo e nas histórias contadas entre amigos. O CMEI Comecinho de Vida é um desses lugares.
Neste sábado, a instituição completa 50 anos. Um marco para Nova Esperança. Mas, para mim, a data tem um significado ainda mais profundo. Ela me leva de volta ao menino que frequentou a antiga Pré-Escola Comecinho de Vida entre 1978 e 1980, quando aprender começava muito antes das letras e dos números. Aprendia-se a dividir, a respeitar, a esperar a vez, a fazer amigos e, principalmente, a descobrir o mundo.
Algumas lembranças permanecem surpreendentemente vivas. Recordo com carinho da professora Edméia Perru, da inesquecível Tia Leninha — filha do conhecido "Português da Padaria", cuja família foi marcada pela tragédia do acidente aéreo de 18 de junho de 1977, em Nova Esperança — e da Tia Rute, professora do Pré III. Foi com ela que registramos uma fotografia que, décadas depois, deixou de ser apenas uma imagem escolar para se transformar em documento afetivo de uma geração inteira.
Mas a história do Comecinho de Vida nunca foi feita apenas dentro das salas de aula.
Ela também passava pelo ônibus escolar.
E, ao volante, estava uma figura que praticamente toda Nova Esperança aprendeu a chamar de Tio Pedrão.
Não era apenas um motorista. Era um guardião de crianças.
Com ele não havia bagunça. Os bancos permaneciam inteiros, o ônibus sempre limpo, organizado e bem cuidado. Muito antes de qualquer discussão sobre educação cidadã, ele já ensinava, pelo exemplo, que o patrimônio público merecia respeito.
Quando criança, talvez não percebêssemos isso. Hoje entendemos que havia muito mais acontecendo durante aqueles trajetos diários.
Pedro Fernandes, o eterno Tio Pedrão, carregava consigo uma história de vida digna dos grandes romances brasileiros. Baiano de Euclides da Cunha, enfrentou a dura realidade dos retirantes nordestinos, trabalhou em usinas de cana-de-açúcar entre Bahia e Sergipe, seguiu para São Paulo em busca de oportunidades, enfrentou condições de trabalho extremamente difíceis e, finalmente, encontrou em Nova Esperança, em 1960, o lugar onde construiria sua vida.
Primeiro vieram as lavouras de café, quando o chamado "ouro verde" movia a economia paranaense. Depois o trabalho com famílias pioneiras do município. Até que, em 1973, durante o primeiro mandato do prefeito José Ercílio Kreling, surgiu a oportunidade que mudaria sua história e, de certa forma, a de milhares de crianças.
Seu Ercílio lhe fez apenas um pedido: cuidar bem dos alunos.
E ele levou essa missão ao pé da letra.
Durante décadas, transportou gerações inteiras. Muitos daqueles pequenos passageiros se tornaram médicos, professores, comerciantes, agricultores, empresários, servidores públicos e profissionais das mais diversas áreas. Alguns, como eu, guardam até hoje a lembrança do sorriso fácil daquele homem simples que transformou uma profissão em verdadeira vocação.
Sua trajetória ajuda a explicar por que o Comecinho de Vida nunca foi apenas uma escola.
Ela sempre foi uma comunidade.
Era formada pelas professoras, pelas cozinheiras, pelas equipes de limpeza, pelas diretoras, pelos funcionários administrativos, pelos pais, pelos avós e também por personagens como o Tio Pedrão, que faziam parte da rotina de centenas de famílias.
Talvez seja justamente esse o maior legado desses cinquenta anos.
A educação infantil não se resume ao conteúdo ensinado. Ela é feita de vínculos.
É ali que surgem as primeiras amizades.
Os primeiros desenhos.
As primeiras apresentações.
As primeiras saudades.
Ao celebrar seu Jubileu de Ouro, o Comecinho de Vida presta homenagem não apenas à própria história, mas à história de Nova Esperança.
Poucas instituições podem afirmar que participaram tão diretamente da formação de praticamente toda uma cidade.
Cada geração deixou suas marcas.
Cada profissional escreveu um capítulo.
Cada criança levou consigo um pedaço daquele lugar.
E é por isso que os 50 anos do Comecinho de Vida não pertencem apenas à comunidade escolar.
Pertencem à memória coletiva dos novaesperancenses.
Neste sábado, muitos irão assistir às apresentações preparadas pelas crianças. Outros encontrarão antigos colegas. Alguns procurarão seus professores no meio da multidão. Haverá quem tente identificar o próprio rosto em fotografias antigas.
Mais do que uma comemoração, será um reencontro com a infância.
E poucos reencontros são tão sinceros quanto esse.
Porque todos nós crescemos.
Mas uma parte de nós sempre continuará morando naquele "Comecinho de Vida" que, para milhares de crianças, foi exatamente isso: o lugar onde tudo começou.
· Alex Fernandes França é Administrador de Empresas, Teólogo, Historiador e Mestre em Ensino

