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O Fim da Rua


Por: Odailson Volpe de Abreu
Data: 20/08/2026
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Já faz algum tempo que Hollywood descobriu uma fórmula bastante confortável para conquistar o público. Basta voltar algumas décadas, buscar uma referência conhecida e colocar um bom dinheiro na produção. O resultado quase sempre vem acompanhado daquela palavra que se tornou onipresente no cinema atual, nostalgia. Pois bem, o filme da vez na Coluna Sétima Arte tem muito disso! A principal estreia dessa semana olha para os anos 1980, mas felizmente não depende apenas deles para funcionar. Sobre O Fim da Rua, essa edição traz tudo o que vale a pena conhecer!

Dirigido por David Robert Mitchell, o mesmo de Corrente do Mal, de 2015, o filme acompanha a família Platt, formada por Denise, Greg e os filhos Audrey e Brian. O filme é ambientado em 1982 e a rotina da família principal é aquela que o cinema norte-americano nos ensinou a reconhecer tão bem. Casa confortável, vizinhos por perto, festas no bairro e pequenos problemas familiares que parecem enormes até que alguma coisa muito maior aparece para colocar tudo em perspectiva. E é exatamente isso que acontece quando um estranho fenômeno cósmico transporta toda a vizinhança para um lugar desconhecido, onde os dinossauros passam a fazer parte da rotina.

Confesso que gosto bastante da maneira como Mitchell conduz essa ideia. Ele poderia gastar boa parte do filme tentando explicar cientificamente o que aconteceu, mas prefere seguir outro caminho. O bairro está lá, os dinossauros também e ninguém sabe exatamente por quê. É preciso aceitar a premissa e seguir em frente. Para uma produção de apenas 100 minutos, acho uma decisão bastante acertada.

O interessante é que o diretor não apresenta os monstros imediatamente. Antes de transformar a Rua Oak em um parque jurássico, dedica um tempo para mostrar aquela família e suas dificuldades. Denise e Greg atravessam uma crise no casamento, cada um carregando seus próprios segredos, enquanto os filhos também vivem os conflitos típicos da adolescência. Quando os dinossauros aparecem, portanto, eles não encontram uma família perfeita tentando sobreviver. Encontram pessoas que já estavam tentando resolver seus próprios problemas.

E aqui Anne Hathaway faz uma diferença enorme. Sua Denise poderia ser apenas a mãe corajosa que protege os filhos durante uma situação extraordinária, mas a atriz consegue construir uma personagem muito mais interessante. Existe nela uma insatisfação com a vida que levava antes daquele acontecimento, e Hathaway deixa isso aparecer sem exageros. É uma atuação que ganha força justamente nos momentos menores, quando Denise precisa tomar decisões ou simplesmente observar o marido e os filhos. Ewan McGregor acompanha muito bem esse trabalho. Greg é mais contido e, em alguns momentos, até parece deslocado dentro daquela situação absurda. Mas é justamente essa característica que funciona. McGregor não tenta transformar o personagem em um herói de ação. Ele continua sendo um sujeito comum, tentando proteger a família enquanto percebe que as coisas que estavam erradas em sua vida não desapareceram só porque surgiram dinossauros na vizinhança. A química entre Hathaway e McGregor é um dos pontos altos do filme. Eles convencem como um casal que tem uma história anterior àquela aventura. E isso é importante, porque O Fim da Rua não está interessado apenas em colocar pessoas correndo de criaturas pré-históricas. O relacionamento dos dois é uma das bases da história.

Além da dupla central de atores, Maisy Stella e Christian Convery também merecem destaque, principalmente porque seus personagens não ficam restritos ao papel de filhos que precisam ser salvos pelos pais. Audrey, interpretada por Maisy Stella, em especial, ganha importância conforme a situação se agrava ao longo da trama.

Tecnicamente, o filme chama atenção por uma característica que já estava presente em Corrente do Mal. Mitchell gosta de deixar o perigo escondido. Muitas vezes ouvimos alguma coisa antes de vê-la. Um barulho atrás da casa, uma movimentação entre as árvores ou um objeto que parece estar fora do lugar são suficientes para criar tensão. A fotografia de Mike Gioulakis ajuda muito nesse processo, especialmente nos planos mais longos, que permitem ao espectador procurar o perigo dentro do próprio enquadramento. Também existe uma clara homenagem ao cinema de aventura dos anos 1980. A trilha de Michael Giacchino, com suas composições grandiosas, remete ao trabalho de John Williams e ao cinema de Steven Spielberg. Não é uma referência escondida, mas também não chega a incomodar. Afinal, O Fim da Rua sabe exatamente o tipo de filme que quer ser.

O que surpreende é que, apesar dessa aparência de aventura familiar, Mitchell não suaviza tanto assim a presença dos dinossauros. Algumas cenas são bastante violentas e há mortes que não passam despercebidas. O filme recebeu classificação de 14 anos e isso ajuda a entender que não estamos diante de uma simples aventura infantil com bichos gigantes correndo atrás de crianças.

Mas é claro, nem tudo funciona perfeitamente. O primeiro ato demora um pouco para engrenar e algumas decisões do roteiro exigem aquela boa vontade que costumamos oferecer aos filmes que assumidamente querem apenas divertir. Também existem criaturas digitais que funcionam melhor do que outras. Mas, quando a fotografia, o som e a reação dos atores trabalham juntos, o resultado é bastante convincente. E talvez essa seja a melhor maneira de definir O Fim da Rua. É um filme que sabe o que quer entregar e não tem vergonha disso. Em uma época em que quase todo grande lançamento parece precisar preparar uma continuação, recuperar uma franquia ou explicar seu próprio universo, é agradável encontrar uma história que começa com uma família em uma rua suburbana e termina com dinossauros andando por ela.

Por que ver esse filme no cinema? Vale a pena assistir O Fim da Rua na tela grande porque ela faz toda a diferença, especialmente nas cenas em que os animais surgem entre as casas, quando a trilha de Giacchino toma conta da sala de exibição. Não é preciso esperar uma revolução cinematográfica. Basta entrar na sessão disposto a se divertir. E, convenhamos, nem todo filme precisa ser mais do que isso para justificar o preço do ingresso. Boa sessão!

Odailson Volpe de Abreu


Anuncie com Jornal Noroeste
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