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Anora


Por: Odailson Volpe de Abreu
Data: 06/02/2025
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A proximidade da cerimônia do Oscar faz com que o público tenha muitas opções de bons filmes no cinema. Bem por isso, fica difícil comentar sobre todos eles, pois chegam quase que simultaneamente ao cinema. Nas últimas edições tenho me dedicado a comentar sobre os filmes indicados na categoria de Melhor Filme e dentre eles, estou em débito com um que já estreou faz alguns dias e ficou para trás. Por isso, a edição dessa semana será dedicada ao romance com pitadas de comédia Anora.

O cinema de Sean Baker é, há tempos, um exercício de observação da vida à margem do sonho americano. Em Anora, filme vencedor da Palma de Ouro em 2024, o diretor volta seu olhar afiado para um conto de fadas contemporâneo que, ao invés de prometer um final feliz, escancara a desigualdade de classes e o caráter efêmero das relações no capitalismo. Se Uma Linda Mulher, de 1990, vendeu uma fantasia açucarada sobre ascensão social por meio do amor, Anora faz o caminho contrário: desmonta esse mito com humor ácido, tensão crescente e um jogo de contrastes que prende o espectador até o último minuto. 

O enredo acompanha Ani, interpretada de forma brilhante por Mikey Madison, uma dançarina exótica e prostituta que trabalha em Brighton Beach, Nova York. Sua vida muda drasticamente ao conhecer Ivan, papel de Mark Eidelshtein, filho de um oligarca russo que vive como um playboy despreocupado. O que começa como uma relação comercial rapidamente se transforma em algo maior: Ivan se apaixona perdidamente, e em um impulso de luxo e devaneio, decide se casar com Ani. Mas esse matrimônio, que poderia parecer um conto de fadas improvável, logo se revela um jogo de poder, dinheiro e interesses – especialmente quando a família de Ivan descobre o ocorrido e mobiliza todos os esforços para anulá-lo. 

Baker divide seu filme em dois atos bem distintos. O primeiro nos apresenta ao mundo de Ivan e Ani: festas, luzes vibrantes, sexo e desperdício. Aqui, a câmera do diretor parece uma observadora passiva, quase documental, registrando o estilo de vida do casal sem julgamentos. A imaturidade de Ivan salta aos olhos, enquanto Ani, embora fascinada pela vida luxuosa, parece ter consciência de que tudo aquilo é uma bolha prestes a estourar. A transição para o segundo ato acontece quando o casamento é descoberto, e o filme assume um tom mais acelerado e caótico. Se antes víamos uma atmosfera quase lúdica, agora acompanhamos perseguições, ameaças veladas e uma batalha silenciosa pelo controle da narrativa. 

A genialidade de Anora está na forma como Baker brinca com gêneros e expectativas. O filme poderia facilmente ser uma comédia romântica tradicional, mas ele se desvia desse caminho com ironia e tensão crescente. A fuga desesperada de Ani e Ivan pela cidade de Nova York é filmada com energia e um toque de comédia física, remetendo um tom clássico ao filme. No entanto, por trás das risadas, há um comentário social cortante: enquanto Ani luta para preservar um vislumbre de segurança, Ivan simplesmente aceita a inevitabilidade de sua condição. Para ele, tudo pode ser substituído. Para ela, essa talvez fosse sua única chance de sair da instabilidade. 

A relação entre os protagonistas também é construída com precisão cirúrgica. Ivan, criado no conforto absoluto da riqueza, não compreende verdadeiramente o peso das decisões que toma. Ele deseja Ani, mas sem entender o que significa escolhê-la. Quando confrontado pela mãe e pelos capangas da família, sua submissão é instantânea. Já Ani, por outro lado, exibe uma resistência feroz. Ela sabe que, no fim das contas, não é apenas sobre amor, mas sobre sobrevivência. E essa é a grande tragédia do filme: enquanto Ivan pode seguir sua vida sem grandes consequências, Ani é quem paga o preço emocional e físico dessa aventura. 

Além da protagonista e seu marido efêmero, Anora apresenta outro personagem fascinante: Igor, interpretado por Yura Borisov, um dos funcionários da família russa. Inicialmente visto como uma presença ameaçadora, ele se revela uma figura inesperadamente sensível e fundamental para o desfecho da história.  

Visualmente, o diretor utiliza a estética para reforçar as mudanças narrativas. Nos momentos de glamour e excesso, a iluminação neon e os ângulos suaves criam uma ilusão de calor e conforto. Já nas cenas de perseguição e desilusão, a fotografia se torna mais crua, as cores mais frias, refletindo a dura realidade que se impõe. Essa transição estética contribui para a sensação de que Ani está sendo arrancada de um sonho e jogada de volta à realidade sem aviso. 

Por que ver esse filme? Anora deve ser visto porque equilibra humor e crítica social. O diretor compreende que, para quem vive à margem, rir é muitas vezes o único alívio diante da precariedade. O filme é engraçado, sim, mas seu riso é carregado de melancolia. Ele faz com que o público simpatize com a protagonista e torça por sua vitória, mesmo sabendo que o mundo ao seu redor está contra ela. Ao final, a pergunta que fica é: Ani realmente acreditava que poderia ter um final feliz ao lado de Ivan? Ou ela sempre soube que estava vivendo um devaneio passageiro? Quando a realidade se impõe e tudo se desfaz, resta apenas o vazio do que poderia ter sido. E, nesse instante, a verdadeira essência da personagem se revela: Anora não é sobre um conto de fadas, mas sobre a força de uma mulher que, apesar de tudo, segue em frente. Boa sessão! 

 

Odailson Volpe de Abreu


Anuncie com Jornal Noroeste
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