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O Convite


Por: Odailson Volpe de Abreu
Data: 16/07/2026
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Não há dúvidas de que todos os holofotes da Sétima Arte, neste momento, estão voltados para o novo filme de Christopher Nolan, A Odisseia. Porém, é muito injusto que um blockbuster, por mais artístico e surpreendente que seja, ofusque filmes que possuem qualidade principalmente pela simplicidade. Algo que me faz recordar os idos de 1997, quando a incrível dramédiaMelhor é Impossível estrou justo ao mesmo tempo que o estrondoso Titanic e não recebeu do público a devida atenção que merecia. Bem por isso, e com o intuito de fazer um pouco de justiça, comentarei sobre A Odisseia somente na próxima semana e dedicarei o texto desta edição para interessante O Convite.

Como dito acima, há filmes que preferem as grandes cenas para prender a atenção do público, porém, outros conseguem fazer isso apenas reunindo quatro bons atores em um mesmo ambiente e entregando a eles um roteiro afiado. O Convite pertence a este segundo grupo. A direção de Olivia Wilde aposta em uma história aparentemente simples, mas encontra nas relações humanas matéria suficiente para construir uma das “dramédias” mais interessantes do ano. A proposta poderia facilmente se perder em piadas fáceis ou em discussões superficiais sobre sexo e casamento. Felizmente, o filme escolhe um caminho muito mais inteligente. O jantar entre dois casais serve apenas como ponto de partida para uma história sobre desgaste, frustrações e a dificuldade que muitas pessoas encontram para dizer aquilo que realmente sentem.

Joe e Angela vivem juntos há muitos anos. A rotina tomou conta da relação e o diálogo parece acontecer apenas quando surge algum problema. Tudo muda quando Angela convida para jantar os vizinhos Hawk e Pina, justamente o casal responsável pelas frequentes noites barulhentas no apartamento de cima. A partir desse encontro, conversas desconfortáveis vão surgindo naturalmente até que a intimidade de todos os presentes passa a ocupar o centro da mesa.

O grande mérito do roteiro é entender que o sexo nunca é o verdadeiro assunto da história. Ele funciona como uma porta de entrada para revelar inseguranças, medos e expectativas que estavam escondidos muito antes daquele jantar acontecer. Em nenhum momento o filme tenta dar respostas prontas ou defender um modelo ideal de relacionamento. O interesse está justamente em observar como cada personagem reage quando suas certezas começam a ser colocadas em dúvida.

Olivia Wilde demonstra segurança ao dirigir uma narrativa praticamente confinada a um único cenário. O apartamento deixa de ser apenas um espaço físico e acompanha o estado emocional dos personagens. Conforme as conversas avançam, a sensação de conforto desaparece e cada ambiente parece diminuir de tamanho. Sem recorrer a grandes movimentos de câmera ou exageros visuais, a diretora faz com que o espectador se sinta quase um convidado indiscreto daquele jantar. Mas vale a pena ressaltar que essa proposta só funciona porque o elenco responde à altura.

Seth Rogen entrega uma atuação que merece destaque. Seu talento para a comédia continua presente, mas agora aparece acompanhado por uma vulnerabilidade pouco explorada em sua carreira. Sua interpretação de Joe traz piadas o tempo inteiro, embora fique evidente que o humor seja apenas uma maneira de esconder suas frustrações. Rogen encontra um equilíbrio interessante entre sarcasmo e fragilidade, construindo um personagem bastante humano. Olivia Wilde, a diretora, também convence diante das câmeras, como atriz. Sua Angela passa boa parte do filme tentando administrar conflitos que já não consegue controlar, sempre dividida entre manter as aparências e enfrentar aquilo que realmente incomoda. A atriz transmite bem essa sensação de alguém que ainda deseja salvar o relacionamento, mas já não sabe exatamente por onde começar.

Entretanto, quem rouba várias cenas é Penélope Cruz. Sua Pina chega cheia de confiança, espontaneidade e bom humor, mas nunca se transforma em uma caricatura. A atriz conduz praticamente todas as conversas mais importantes do filme com enorme naturalidade, alternando momentos divertidos e outros bastante sensíveis. É uma atuação segura e extremamente carismática. Edward Norton completa o quarteto em alto nível. Ele interpreta Hawk, um personagem que poderia ser apenas o provocador da história, mas Norton acrescenta pequenas nuances que tornam Hawk muito mais interessante. Existe sempre a dúvida sobre até que ponto ele está sendo sincero ou apenas conduzindo o jogo conforme lhe convém. Essa ambiguidade faz diferença ao longo da narrativa.

Outro acerto está no humor. As situações são constrangedoras, mas o filme nunca ri de seus personagens. As melhores piadas surgem justamente porque todos ali se comportam como pessoas comuns, tentando lidar com circunstâncias que fogem completamente do controle. O público fica no meio de um sobe e desce de emoções de tal forma que, em vários momentos, é possível que expectador ria e, poucos segundos depois, perceba que aquela conversa diz muito mais sobre solidão e desgaste do que parecia inicialmente.

É possível que alguns espectadores esperem um desfecho mais explosivo. O roteiro parece preparar uma grande ruptura emocional, mas prefere uma conclusão mais discreta. Isso pode causar certa estranheza, embora também preserve a proposta do filme de tratar seus personagens como pessoas reais, e não como peças de um grande espetáculo dramático. Também chama atenção a maturidade com que a história distribui responsabilidades. Não existem culpados absolutos nem vítimas perfeitas. Todos erram, escondem sentimentos e deixam de ouvir quem está ao lado. Essa honestidade torna o filme muito mais interessante do que seria se escolhesse um lado para defender.

Por que ver esse filme? Em tempos nos quais tantas produções apostam em histórias grandiosas, efeitos especiais e reviravoltas constantes, O Convite lembra que um bom filme também pode nascer de um excelente texto e de grandes interpretações. Olivia Wilde conduz um elenco inspirado e transforma um simples jantar em uma experiência divertida, desconfortável e surpreendentemente envolvente. Vale a pena assistir nos cinemas porque é um daqueles filmes que conquista pela qualidade dos diálogos, pela força de seus atores e pela facilidade com que faz o público reconhecer, em algum momento, um pouco de si em cada personagem que está à mesa. Boa sessão!

Odailson Volpe de Abreu


Anuncie com Jornal Noroeste
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