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Mestres do Universo


Por: Odailson Volpe de Abreu
Data: 15/06/2026
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Já não é de hoje que o bloqueio criativo de Hollywood assombra a vida dos aficionados por cinema. Cada vez mais vemos grandes estúdios revisitando obras icônicas do passado, repaginando muita coisa que faz parte da memória e da história de muita gente. Algumas vezes, o resultado disso é um estrondante fracasso. Porém, outras vezes, o empenho de quem produz e a paixão de quem assiste entregam grandes sucessos. O filme desta semana tem um pouco dos dois e tem levado muita gente saudosista ao cinema. Hoje você vai conhecer um pouco melhor Mestres do Universo, o longa que promete fazer justiça à animação He-Man, que foi bem judiada em sua versão cinematográfica anterior, no ano de 1987.

Vamos começar falando sobre o risco que adaptações correm por parecerem constrangidas diante do próprio passado. Esse medo de soar datadas, pode esconder justamente aquilo que tornou seus personagens populares. Felizmente, Mestres do Universo não se deixou levar por esse medo. Em vez de tentar transformar He-Man em um herói sisudo ou encaixar Eternia em um universo excessivamente realista, o diretor Travis Knight entende que esse sempre foi um mundo de excessos. Espadas mágicas convivem com tecnologia futurista, guerreiros musculosos enfrentam criaturas improváveis e um vilão com rosto de caveira pode, sim, ser levado a sério sem abrir mão do bom humor.

O resultado é um filme que sabe exatamente de onde veio. Há um carinho evidente pela animação clássica e pelos brinquedos que marcaram toda uma geração, mas a produção evita depender apenas desse fator emocional. A nostalgia funciona como ponto de partida, nunca como muleta. Mesmo quem nunca assistiu a um episódio da série consegue acompanhar a história sem dificuldades.

A base do roteiro você, provavelmente, já conhece! Isso porque a narrativa é bem fiel e acompanha Adam, vivido por Nicholas Galitzine, enquanto ele descobre seu verdadeiro papel na luta pelo destino de Eternia. A estrutura também é bastante conhecida, seguindo a tradicional jornada do herói, mas isso não chega a ser um problema. O roteiro prefere apostar na simplicidade e concentra seus esforços em apresentar esse universo ao público. Em alguns momentos, a quantidade de informações torna o desenvolvimento apressado, especialmente nas relações entre alguns personagens. Ainda assim, a aventura mantém um ritmo agradável durante a maior parte do filme.

Nicholas Galitzine surpreende positivamente. Quando sua escalação foi anunciada, muitos torceram o nariz (inclusive eu), imaginando um protagonista incapaz de sustentar um personagem tão emblemático. O ator, porém, demonstra segurança ao interpretar um Adam inseguro, curioso e até um pouco deslocado diante das responsabilidades que passam a recair sobre seus ombros. Sua atuação funciona justamente porque evita transformar o protagonista em um herói pronto desde o início. Existe espaço para dúvidas, hesitações e crescimento. Quando finalmente assume a identidade de He-Man, Galitzine entrega a presença física que o papel exige, embora a transformação emocional pudesse ser mais marcante. Em alguns momentos, Adam e He-Man parecem versões muito parecidas da mesma pessoa. Não compromete o filme, mas reduz o impacto do que seria uma das passagens mais icônicas do projeto.

A atriz filha de brasileiros, Camila Mendes, também merece destaque como Teela. Sua personagem ganha personalidade suficiente para não existir apenas como interesse romântico do protagonista. Existe firmeza em suas decisões e uma energia que ajuda a equilibrar a ingenuidade de Adam. Sempre que ambos dividem a cena, o filme encontra alguns de seus melhores momentos.Idris Elba, confirma mais uma vez por que dificilmente decepciona. Seu Mentor transmite autoridade sem recorrer aos exageros comuns desse tipo de personagem. Há humanidade em sua interpretação, especialmente nas cenas que exigem um olhar mais paternal. Mesmo com espaço relativamente limitado, Elba constrói uma figura importante para o desenvolvimento do protagonista.

Agora vem um dos pontos de maior tensão do filme, o vilão vivido por Jared Leto. Muito se fala sobre sua maldição de “mão de Midas às avessas”, isso porque todo projeto com o qual ele se envolveu recentemente tem se tornado um grande fracasso. Entretanto, nesta obra mais especificamente, Jared Leto praticamente rouba o filme quando aparece em cena. Seu Esqueleto abraça completamente a extravagância do personagem. Em vez de buscar um vilão sombrio e excessivamente complexo, o ator entende que o grande charme do antagonista está justamente em sua teatralidade. Ele se diverte interpretando um inimigo vaidoso e cruel, tudo isso sem perder o carisma. É impossível não perceber que muitas das cenas mais divertidas do longa contam com ele.

Visualmente, Mestres do Universo acerta ao preservar a identidade de Eternia. Os cenários são coloridos, as armaduras mantêm referências claras aos personagens clássicos e as criaturas parecem saídas diretamente das ilustrações dos antigos brinquedos. Travis Knight demonstra respeito pelo material original sem ficar preso a uma reprodução literal. Há atualização suficiente para convencer o público contemporâneo, mas sem descaracterizar aquilo que sempre diferenciou esse universo de outras fantasias.

É claro que nem tudo funciona com a mesma eficiência. Algumas sequências de ação impressionam pela criatividade e pelo uso do espaço, enquanto outras acabam se tornando excessivamente dependentes dos efeitos digitais. No clímax, a quantidade de explosões, criaturas e elementos visuais faz com que parte da clareza da ação se perca. Ainda assim, são problemas relativamente comuns nas grandes produções atuais e que não chegam a comprometer a experiência.

Outro mérito do filme está no humor. As piadas surgem de maneira natural porque o roteiro entende o quanto aquele universo pode parecer exagerado. Em vez de esconder isso, faz dessa característica um elemento narrativo. O longa brinca com seus próprios personagens sem ridicularizá-los. Existe uma diferença importante entre rir deles e rir com eles, e Travis Knight parece compreender perfeitamente esse equilíbrio. Também chama atenção a forma como o diretor evita transformar a fantasia em motivo de vergonha. Durante anos, muitas adaptações apostaram em versões mais sombrias de personagens conhecidos, como se o público só pudesse aceitar mundos fantásticos revestidos por uma aparência séria. Mestres do Universo segue outra direção. Assume suas cores, seus exageros e sua estética inspirada nos anos 1980 com uma sinceridade que acaba sendo bastante simpática.

Talvez alguns fãs sintam falta de um desenvolvimento maior para determinados personagens do universo de He-Man. Figuras bastante conhecidas aparecem menos do que poderiam, deixando a impressão de que futuras continuações deverão explorar melhor esse elenco. É uma escolha compreensível, considerando que o foco permanece quase todo o tempo sobre Adam e sua transformação.

No fim das contas, Mestres do Universo entrega exatamente aquilo que prometia. É uma aventura divertida, visualmente chamativa e respeitosa com uma franquia que poderia facilmente ter sido descaracterizada em busca de uma falsa modernização. Não reinventa o gênero, tampouco apresenta uma narrativa surpreendente, mas entende que entretenimento também pode nascer da simplicidade quando existe convicção naquilo que está sendo contado.

Por que ver esse filme? Vale a pena assistir ao filme no cinema porque sua proposta depende da experiência da tela grande. A grandiosidade de Eternia, o trabalho de direção de arte, a trilha sonora e as cenas de ação ganham outra dimensão diante de uma projeção de qualidade. Mais do que uma homenagem aos fãs antigos, Mestres do Universo consegue apresentar He-Man a uma nova geração sem pedir desculpas por sua origem. E, em tempos de adaptações que frequentemente parecem envergonhadas de seus próprios personagens, isso já representa uma qualidade considerável. Boa sessão!

Odailson Volpe de Abreu


Anuncie com Jornal Noroeste
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