Marcos Rey. “O mistério do cinco estrelas”

Uma das coleções brasileiras mais extraordinárias, e da qual sou devedor, é a Coleção Vagalume, da Editora Ática. Nos dizeres da propaganda, o seu objetivo: “Para despertar e criar o gosto pela leitura. Histórias emocionantes, cheias de ação, uma linguagem simples e direta.” Quanto à sua meta, eu posso garantir: foi plenamente alcançada.
Dentre os livros que figuram nesta coleção estão: “A ilha perdida” e “Éramos seis”, de Maria José Dupré, “O escaravelho do diabo”, de Lúcia Machado de Oliveira, “O feijão e o sonho”, de Orígenes Lessa, e “O mistério do cinco estrelas”, de Marcos Rey. A título de ilustração contarei esta obra, como um tributo a todas as outras.
“O mistério do cinco estrelas” traz como roteiro a história fictícia de um crime que ocorreu no quarto nº 222 de um hotel cinco estrelas em São Paulo, o Emperor Park Hotel, mais conhecido como “Park”. O bellboy, Leonardo Fantini, um garoto de dezesseis anos, um dia viu, no quarto de Oto Barcelos, mais conhecido como Barão, um homem de “cara de índio” (um boliviano, Ramon Vargas), estirado e, no robe do ilustre hóspede, sangue. Mas, como fazer para associar o Barão ao assassinado, sendo o rapaz um pobre mensageiro. Eis uma questão que será o mote da história e que, vez por outra, levará os personagens a questionar as classes sociais. Segundo o pai de Ângela, que era uma “quase namorada” de Leo, era mais fácil que o garoto fosse preso do que ele conseguir colocar um figurão atrás das grades.
Porém, Leo, que vivia no bairro Bexiga, em São Paulo, era obstinado e, com a ajuda da sua família e de alguns amigos, faria de tudo para provar a culpa do Barão. Dentre os personagens estão: Rafael (Rafa), seu pai, Dona Iolanda, mãe, Guima (o porteiro do Park e amigo da família) e Gino, o primo cadeirante inteligentíssimo e jogador de xadrez.
O interessante, também, é que o Barão, que recebeu essa alcunha por ser um grã-fino obeso, era dado a obras de caridade e era tido como uma grande pessoa, quase um santo. Quando Leo vai acusa-lo ao gerente, este diz ao garoto: “Você está caluniando um homem que pratica a caridade, que dá muito dinheiro aos pobres, aos velhos, às crianças e aos doentes. Tem um grande coração. Todos o admiram nesta cidade. A calúnia é ainda pior que o roubo. Mas não serei benevolente como seu Oto pediu: vou despedi-lo agora mesmo e não espere que lhe dê carta de recomendação.” (Rey, 1981, p. 30). Outro que duvidava seriamente de Leo era o delegado Arruda, que achava inclusive que o garoto estava doido. A sorte do rapaz é que ele era obstinado e que a sua família o apoiou.

Eu admito que reler essa obra, após tantos anos desde a primeira vez, quase trinta, foi uma satisfação, e o fiz com tanto entusiasmo que a li em um único dia. E por que dessa facilidade? Porque, como dizia a propaganda da Coleção, a linguagem deveria ser “simples e direta”. Abaixo deixo um exemplo extraído de “O mistério do cinco estrelas”, um diálogo entre o delegado e Leo:
- Mas quem é esse homem? – perguntou o delegado. – O tal Oto.
- É um homem muito conhecido.
- Não vai me dizer que é Oto Barcelos?
- Parece que sim.
- Mas esse homem é um santo! Não há uma criança, um doente ou velho nesta cidade que não lhe deva alguma coisa.
- Eu também gostava dele. Me dava muita gorjeta.
- Mesmo assim vem aqui acusá-lo?
- Ele matou um homem, doutor. (Rey, 1981, p. 41)
Como sou um visitante assíduo da cidade de São Paulo, tendo ido à capital mais de vinte vezes, é legal ver uma história ambientada em locais que eu conheço. A “quase namorada”, por exemplo, mora no Jardim Bela Vista, um local de classe média alta que tem, dentre seus pontos de interesse, o Museu de Arte de São Paulo (MASP) e o Parque Trianon. Assim, eu posso não só acompanhar a aventura, mas a ver em detalhes.
Mas, qual o desfecho da história? eu não poderia jamais contá-lo, mas apenas dizer que conhecer “O mistério do cinco estrelas”, assim como outras obras da Coleção Vagalume, são essenciais para quem queira se encantar pela leitura, assim como um dia fui encantado. E esse encanto pode não ter fim.
Marcos Rey. O mistério do cinco estrelas. São Paulo: Ática, 1981.

