A generic square placeholder image with rounded corners in a figure.


Homem-Aranha: Um Novo Dia


Por: Odailson Volpe de Abreu
Data: 30/07/2026
  • Compartilhar:

Existe um elefante na sala da indústria cinematográfica já faz um tempo. O gênero super-herói não é novidade na Sétima Arte, há décadas ele conquistou seu espaço, porém, nunca ele foi tão popular quanto nos últimos vinte anos. O movimento iniciado por X-Men, em 1999, gerou um interesse direto do público nessas histórias que despertavam a busca por sequencias. A Fox, estúdio responsável pela saga dos mutantes na tela grande, não foi pioneira, isso porque a DC/Warner já fazia isso desde os anos 1970 e emplacou vários sucessos advindos das HQs ao longo dos 1980 e 1990, tais como Superman e Batman. Porém, o grupo de mutantes interagia diretamente com um novo tipo de público e que desejava algo que a Marvel, até então fora da disputa, percebeu rapidamente e se apropriou, o fan service. Desde então esse se tornou o gênero mais lucrativo do cinema atual, recheado de blockbusters. Mas, desde o capítulo final da “novela” de Vingadores, com Ultimato, em 2019, o gênero está em crise e o elefante se instalou na sala! O contexto atual é de um grande esforço por parte de todos os estúdios, inclusive da própria Marvel, para fazer o público voltar a se interessar e aclamar seus longas inspirados em heróis. Nesse afã, o mais novo capítulo cinematográfico de um dos personagens mais queridos dos quadrinhos chega ao cinema. Essa semana, a Coluna Sétima Arte traz para você um pouco mais sobre Homem-Aranha: Um Novo Dia.

O primeiro passo para vencer esse impasse e conquistar tanto público quanto crítica é mudar os parâmetros do estava sendo feito até então. Nesse sentido, é preciso considerar que existe uma diferença importante entre colocar o Homem-Aranha em grandes acontecimentos e fazer um filme sobre Peter Parker. Durante boa parte da passagem de Tom Holland pelo Universo Cinematográfico Marvel, o personagem viveu cercado por figuras maiores do que ele próprio. Dividia espaço com Vingadores, enfrentava ameaças cada vez mais grandiosas e, muitas vezes, parecia um convidado dentro da própria franquia. Homem-Aranha: Um Novo Dia muda essa lógica. Pela primeira vez, a impressão é que o estúdio realmente decidiu contar uma história cujo protagonista é Peter Parker. A escolha fez toda a diferença.

O roteiro parte das consequências de Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa. Ninguém mais conhece Peter, ninguém se lembra de sua existência e ele precisa seguir em frente carregando sozinho o peso da decisão que tomou. O interessante é que o filme não trata essa condição apenas como um recurso narrativo. Ela influencia cada escolha do personagem e dá um peso dramático que as aventuras anteriores raramente alcançaram.

Tom Holland encontra aqui seu melhor trabalho desde que vestiu o uniforme. Lembre-se que na última semana eu já havia destacado isso sobre Tom Holland quando comentava sobre A Odisseia, ele amadureceu muito profissionalmente falando. Não há dúvidas, ele sempre foi um ator carismático, mas agora recebe das mãos da Marvel um material muito mais consistente para desenvolver. Seu Peter Parker está mais cansado, mais inseguro e também mais maduro. Há momentos em que a atuação depende apenas da expressão do rosto, sem piadas interrompendo a tensão ou diálogos explicando aquilo que o espectador já compreendeu. É uma interpretação segura e bastante convincente.

Outro acerto é Jon Bernthal (outro que estava em A Odisseia). O Justiceiro entra na história sem roubar o protagonismo, mas transforma todas as cenas em que aparece. A relação entre Frank Castle e Peter Parker funciona justamente porque os dois enxergam o heroísmo de maneiras completamente diferentes. Enquanto um acredita que ainda existe espaço para esperança, o outro entende que alguns problemas só se resolvem pela força. O filme aproveita esse conflito para construir bons diálogos e algumas das sequências mais divertidas da produção. Sadie Sink também merece destaque. Sua personagem tem importância para os rumos da narrativa e, felizmente, não está ali apenas para preparar futuros filmes da Marvel. A atriz encontra espaço para mostrar personalidade e deixa uma impressão bastante positiva.

Na direção, Destin Daniel Cretton confirma que entende muito bem quem é o Homem-Aranha. As cenas de ação impressionam, mas não apenas pelo tamanho. Elas têm ritmo, criatividade e fazem bom uso das habilidades do personagem. Depois de alguns filmes em que os efeitos digitais pareciam ocupar espaço demais, é bom voltar a ver perseguições e combates que passam sensação de velocidade e impacto.

Existe outro detalhe que chama atenção. Nova York voltou a ser importante. Parece um comentário simples, mas faz diferença. O Homem-Aranha sempre pertenceu à cidade, e Cretton compreende isso desde os primeiros minutos. Os balanços entre os prédios, as ruas movimentadas e até a maneira como a população reage ao herói ajudam a construir uma ambientação que havia perdido força nos últimos filmes. Visualmente, talvez seja um dos trabalhos mais interessantes da Marvel nos últimos anos. A fotografia aproveita bem os cenários reais, evita esconder tudo atrás de telas verdes e entrega imagens bonitas sem chamar atenção para si. É um filme agradável de assistir porque existe uma preocupação evidente em tornar cada sequência clara, algo que infelizmente deixou de ser regra em muitas produções do gênero.

Isso não significa que tudo funcione perfeitamente. O ritmo é mais lento do que muita gente espera de um filme da Marvel. Algumas conversas se prolongam além do necessário e determinados vilões acabam aparecendo menos do que poderiam. Em certos momentos fica a sensação de que o roteiro estava mais interessado em preparar histórias futuras do que explorar personagens que já estavam ali. Não chega a comprometer a experiência, mas impede que o filme alcance um resultado ainda melhor. Mesmo assim, Um Novo Dia acerta onde mais importa. Ele entende que o Homem-Aranha nunca conquistou tantas gerações apenas pelas cenas de ação ou pelos poderes extraordinários. Peter Parker sempre foi interessante porque seus maiores conflitos acontecem quando a máscara sai de cena. É essa humanidade que sustenta o filme do começo ao fim.

Também chama atenção o fato de a Marvel resistir à tentação de transformar tudo em mais um grande evento. Existem conexões com o futuro do estúdio, naturalmente, mas elas não sufocam a história principal. O foco permanece onde deveria estar, e isso faz diferença.

Por que ver esse filme no cinema? Vale sim ir ao cinema para ver Homem-Aranha: Um Novo Dia, não apenas pela qualidade técnica das sequências de ação, que realmente ganham outra dimensão na tela grande, mas porque existe um cuidado visual difícil de reproduzir fora dela. Os voos entre os arranha-céus, a edição de som e a fotografia ajudam a transformar essa aventura em uma experiência bastante envolvente. Depois de tantos filmes tentando ampliar o universo da Marvel, talvez a melhor decisão tenha sido justamente diminuir a escala e voltar a olhar para um único personagem. No fim das contas, era disso que Peter Parker precisava. E, pelo que se vê em Homem-Aranha: Um Novo Dia, possivelmente também era isso que o público também esperava. Quem sabe esta não seja a fórmula capaz de, enfim, colocar um ponto final no grande elefante na sala em que se transformaram os sucessivos fracassos de público e de crítica dos filmes de super-herói nos cinemas nos últimos anos. Boa sessão!

 

Odailson Volpe de Abreu


Anuncie com Jornal Noroeste
A caption for the above image.


Veja Também


smartphone

Acesse o melhor conteúdo jornalístico da região através do seu dispositivos, tablets, celulares e televisores.