George Orwell. “1984”

Ao escrever este comentário, em setembro de 2024, o Brasil encontra-se em período eleitoral para prefeitos e vereadores, e o cenário descrito por Orwell não poderia ser mais profético. É como se eu estivesse vendo a Oceânia, a Eurásia e a Lestásia ao meu lado.
À parte o amargo parágrafo anterior, a obra de Orwell é poderosa, envolvente e profética. Da primeira vez que a li, após inúmeras recomendações, admiro que as primeiras cinquenta páginas foram difíceis de fluir, mas, depois, as outras trezentas voaram. Por causa disso, quando um aluno me diz que está com dificuldades em “1984”, eu digo: “Resista às cinquenta primeiras páginas”. Porém, ao reler a obra, tudo fluiu, de modo que em um dia li mais de cem páginas sem nenhum cansaço.
Mas, do que trata “1984”? Qual o seu teor?
A obra trata da Oceânia, que é um conglomerado de nações, após a revolução que levou o Grande Irmão, em suma, o Partido, ao poder. O Grande Irmão, que, ao mesmo tempo que é um indivíduo é a representação da coletividade, está em todos os lugares, em cartazes e em teletelas, estas, onipresentes. No final das contas, o Grande Irmão, por mais que não se admita a existência de Deus e das religiões, é um deus.
Eis os quatro Ministérios do Partido: 1º Ministério da Verdade (onde Winston Smith, o protagonista, trabalha): ocupa-se de notícias, entretenimento, educação e belas-artes; 2º Ministério da Paz: ocupa-se da guerra; 3º Ministério do Amor: manter a lei e a ordem; 4º Ministério da Pujança: questões econômicas. E eis os seus princípios: 1º Duplipensamento; 2º Mutabilidade do passado; 3º Recusa da realidade objetiva (principal característica, cuja ideia era um duplipensamento); e 4º Palavras em Novafala.
Quanto ao seu teor, o livro trata desde questões políticas, seu grande cerne, até a construção de uma nova linguagem, a Novafala, e relações amorosas. Contudo, a Novafala foi feita não para ampliar o vocabulário, mas para reduzi-lo e controlá-lo em tudo. No que tange aos relacionamentos amorosos, o desejo é que desaparecessem e o sexo fosse só para reproduzir membros para o Partido.
No meio desse cenário distópico, em Londres, cidade da Oceânia, há o protagonista, um homem de 39 anos, que era um funcionário do Partido, um dos responsáveis por corrigir o passado; Julia, uma moça cuja fachada era pura ortodoxia e lealdade ao Partido, mas que tinha como essência a perversão e a liberdade; e O’Brien, um intelectual ambíguo e manipulador. Acerca de Julia, um detalhe que perturba: ela também trabalhava no Ministério da Verdade, no Departamento da Ficção, e neste local as pessoas ficavam com as mãos sujas de óleo devido às “máquinas romanceadoras” (Orwell, 2014, p. 20).
Ao longo do enredo, mais e mais Winston se desespera e se revolta contra o Partido em sua ânsia por tudo controlar. O que predominava na Oceânia era o Socing, que era o Socialismo Inglês, e a sua tirania a tudo controlava. Esse controle total faz lembrar “O Processo”, de Kafka, e “Escuta, Zé Ninguém!”, de Reich. As advertências iniciais do livro de Reich não poderiam ser mais precisas para “1984”: “Amor, trabalho e sabedoria são as fontes da nossa vida. deviam também governá-la.”; “QUALQUER SEMELHANÇA COM QUAISQUER INDIVÍDUOS É ACIDENTAL E NÃO INTENCIONAL.”
Eis os três slogans do Partido (Orwell, 2014, p. 14):
GUERRA É PAZ
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO
IGNORÂNCIA É FORÇA
O capítulo 9 da Segunda Parte é especialmente dramático, pois é quando Winston tem contato com o livro escrito por Goldstein, um membro destacado do Partido, mas que dele rompeu. Quem deu este livro a Winston foi O’Brien. Nesse capítulo, detalhes da obra considerada herética são narradas, sendo que uma vale a pena reproduzir em sua integralidade.
Os objetivos desses três grupos são inconciliáveis. O objetivo dos Altos é continuar onde estão. O objetivo dos Médios é trocar de lugar com os Altos. O objetivo dos Baixos, isso quando têm um objetivo – pois uma das características marcantes dos Baixos é o fato de estarem tão oprimidos pela trabalheira que só a intervalos mantêm alguma consciência de toda e qualquer coisa externa a seu cotidiano -, é abolir todas as diferenças e criar uma sociedade na qual todos os homens sejam iguais. Assim, ao longo da história, um conflito cujas características básicas permanecem inalteradas se repete uma ou outra vez. Durante longos períodos os Altos parecem ocupar o poder de forma absolutamente inabalável, porém mais cedo ou mais tarde sempre chega o dia em que eles perdem ou a confiança em si mesmos ou a capacidade de governar com eficiência – ou as duas coisas. São derrubados pelos Médios, que angariam o apoio dos Baixos fingindo lutar por liberdade e justiça. Nem bem atingem seu objetivo, os Médios empurram os Baixos de volta para sua posição subalterna, a fim de se tornarem eles próprios os Altos. Nesse momento um novo grupo de Médios se desprende de um dos dois outros grupos, ou de ambos, e o conflito recomeça. Dos três grupos, apenas os Baixos jamais conseguem, nem temporariamente, sucesso na conquista de seus objetivos. Seria exagero dizer que ao longo da história nunca houve progresso material. Mesmo hoje, num período de declínio, o ser humano médio está fisicamente em melhor condição do que há alguns séculos. Mas nenhum progresso na área da riqueza, nenhum refinamento da educação, nenhuma reforma ou revolução jamais serviram para que a igualdade entre os homens avançasse um milímetro que fosse. do ponto de vista dos Baixos, nenhuma mudança histórica chegou a significar muito mais que uma alteração no nome de seus senhores. (Orwell, 2014, p. 238-239).
O que se sente é que, por mais que Winston e Julia quisessem se revoltar, por mais que quisessem mudar o status quo, eles sabiam que toda tentativa seria em vão. É isso que constata a citação anterior. Mas, nem por isso deixarão de tentar, tendo, ambos, inclusive um quarto onde poderiam se encontrar.
No entanto, se ilude quem, em um estado totalitário (sobram ironias ao nazismo e ao comunismo russo) acreditar que está livre do controle. Este controle é representado pelas teletelas, que são literalmente telas que estão em todos os locais, até naqueles considerados inacessíveis. E se não estão as telas, estão os microfones. Encontrar isso em um livro escrito na primeira metade do século XX é assustador, pois hoje, um cenário em que todos têm facilmente à mão uma teletela (celular), o que Orwell descreveu deixou de ser ficção científica e passou a ser drama. Com frequência o que estou pensando se manifesta na tela do meu celular. Às vezes, estou longe do celular, mas ele está me lendo, quiçá sabe até mais de mim do que eu mesmo. Em matéria quantitativa, não duvido que saiba mais.
Winston, como era de esperar, e ele próprio tinha noção disso desde as primeiras páginas, é detido e torturado. Mas, além disso não contarei, pois seria tirar parte da estranha beleza da obra. Deixo que o leitor, assim como eu, se perturbe por essa obra atemporal.
O livro de Orwell, futurista e presentista ao mesmo tempo, me despertou uma série de pensamentos que antes eu achava coisa de um passado ou de um futuro distantes, mas que se mostraram presentes, demasiado presentes. Se “1984” revela uma sociedade do controle total, se ele revela como que a liberdade pode ser diminuída ou mesmo anulada, talvez alguns exemplos possam ajudar a sustentar a linha de raciocínio do escritor.
1º Eu não entendia como que um líder como Hitler ou Stálin tinham chegado ao poder em pleno século XX, contando com o apoio de diversas instituições sociais. Então, em pleno século XXI, seja no cenário internacional, seja no cenário brasileiro, eu vi líderes com posturas semelhantes se manifestando e recebendo apoio de diversas instituições. Eu vi pessoas comuns sendo chamadas de “mito” em um autêntico culto ao líder.
2º Quando eu tinha doze anos, ou mesmo quando eu tinha dezoito, já na graduação, eu não entendia como que a Ditadura Militar tinha chegado ao poder, apoiada por diversos setores civis e religiosos. Então, em pleno século XXI, eu vi faixas de apoio à Ditadura, políticos a promovendo e cultuando os líderes do passado, e fui chamado a escrever contra isso.
3º Aquecimento global. Lembro-me das aulas de Geografia a respeito, que nos alertavam para o problema do desmatamento e da emissão de gases, como o gás carbônico. Nas aulas também era dito que a água poderia se tornar um problema. Eu nunca duvidei dos alertas dos meus professores, mas tudo era uma abstração. Eu pensava: “isso deve afetar apenas os pobres, ou o nordeste, ou a África”. Então, eis que em pleno século XXI vejo a Amazônia e o Pantanal em chamas e o Paraná, cuja umidade depende da harmonia amazônica, com problemas com água e com chamas, além de um calor cada vez maior. Certa vez, indo de Maringá a Paranavaí, registrei cinco queimadas na beira da rodovia, e outras duas a uns cem metros da estrada. As profecias bíblicas de que o mundo vai terminar em chamas estão se realizando.
4º Criminosos sendo exaltados. “Não roubar”, “Não matar”, etc., sempre me pareceram mandamentos óbvios, porém, a obviedade é uma abstração. Assim, é possível ver pessoas que praticam a necropolítica sendo exaltadas e pessoas que lavam dinheiro sendo postas no pedestal. “O mistério do cinco estrelas”, de Marcos Rey, trata justamente disso: Oto Barcelos, mais conhecido como Barão, fazia caridades públicas e era tido como um santo, porém, a sua fortuna vinha do tráfico de drogas. Mesmo depois de sua sujeira ter sido posta no telhado ainda havia quem duvidava, afinal, era um “santo” que dava dinheiro.
5º Com um simples e pequeno aparelho as pessoas foram controladas. A “teletela”, de Orwell, tinha o poder de tudo ver, de tudo ouvir e de tudo controlar. O que no passado parecia ficção científica, hoje, facilmente se vê, por meio dos celulares. De repente os gostos são direcionados, de repente a vida está entre os dedos, de repente o que há de mais interessante é a ficção. Um dia, em seu “Tratado da Pintura”, Leonardo da Vinci disse que a visão era o principal sentido, e, por causa disso, a pintura era uma grande arte, mas, não conseguiria imaginar que as pessoas, mesmo diante da “Monalisa”, preferem “fotografá-la” (entre aspas, pois se trata mais de um clique do que a “grafia da luz”) do que apreciá-la.
E o que esses exemplos têm a ver com “1984”? Para mim, são exemplos de que o controle e o acinzentar da vida andam a passos largos, de modo que quem pensar diferente (“pensamento-crime”, nos termos de Orwell) pode receber uma punição severa, demasiado severa. Ou se concorda com a “Novafala” ou se emudece.
George Orwell. 1984. Trad. de Alexandre Hubner e Heloísa Jahn. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

