Fernando Pessoa. “Tabacaria”

“Tabacaria” é um longo poema do poeta português Fernando Pessoa (no caso, do heterônimo Álvaro de Campos) que me faz ser tragado pelo nada. Alguém poderia objetar: “Isso é um absurdo, já que o poema reflete a vida em sua máxima potência.” No entanto, quem disse que a vida não nos coloca face a face com o nada, face a face com a falta de sentido? O que eu sinto é que o espírito de “Tabacaria” é semelhante ao de Nietzsche, em “Sobre verdade e mentira”, que assim se inicia:
Em algum remoto recanto do universo, que se deságua fulgurantemente em inumeráveis sistemas solares, havia uma vez um astro, no qual animais astuciosos inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais audacioso e hipócrita da “história universal”: mas, no fim das contas, foi apenas um minuto. Após alguns respiros da natureza, o astro congelou-se, e os astuciosos animais tiveram de morrer. (NIETZSCHE, 2008, p. 25).
Eu sinto, junto ao poeta português, que: “Na?o sou nada./ Nunca serei nada.” No entanto, ainda em conformidade com o poeta, “A? parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” (PESSOA, 2013, p. 287). Realmente, eu não sou nada e não sei nada. Tudo o que já li e escrevi, e imagino que não sejam de pouca monta para alguém de trinta e poucos anos, tratam-se de uma poeirinha da poeira. Olho para as minhas estantes de livros e penso: “Só se eu parar de trabalhar e me dedicar ao que já comprei que eu conseguirei ler tudo.” Eis uma meta impossível. Eu preciso seguir com a minha profissão, que é ensinar, sabendo o tempo todo que eu não sei nada. À parte essas constatações, eu sonho que, por meio das minhas ações, mundos podem ser criados e sonhos podem ser executados. Utopia? Que assim seja. Mas uma utopia não moralista, pois eu, que não sou nada, não sou modelo para ninguém.
Uma boa parte do que eu escrevo sai do meu quarto de estudos, um quarto pequeno, mas que abriga muitas fantasias. A quem importa minhas fantasias? A pouquíssimas pessoas. A quem importa a minha casa e, em especial, o meu quarto de estudos? A pouquíssimas pessoas. Meu quarto é só mais um lugar no mundo, que apronta das suas, mas que pouco ou nada mudará os destinos do mundo. “Janelas do meu quarto,/ Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem e?/ (E se soubessem quem e?, o que saberiam?)” (PESSOA, 2013, p. 287).
Às vezes, medito a respeito de tudo que já me ensinaram. Meus pais, minha esposa, meus familiares, meus amigos, meus professores, meus alunos... Preciso estender a lista? Por certo que não. Porém, o que é que eu sei, logo eu, que disse que não sei nada? Acaso sou uma vergonha para todos os que me querem bem? Por certo que não. O ser humano precisa ter ciência que ensinará a muitos, mas que o não saber é a base do saber. “A aprendizagem que me deram, / Desci dela pela janela das traseiras da casa.” (PESSOA, 2013, p. 288).
O que eu aprecio em poemas, como o de Fernando Pessoa, é a capacidade de imaginar múltiplas ideias para além do texto em si. Um poema tem um conteúdo, mas este tem o poder de se extrapolar. Nunca gostei de poemas com tom professoral, com palavras e mais palavras “difíceis”: eu sempre gostei daquelas poesias banais, mas que, como num passe de mágica, ajudam a mente a sair do aqui agora. Porém, bem entendido, as poesias banais que me refiro nada têm a ver com textos com palavras vulgares, que chegam a repugnar. “Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? / Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!” (PESSOA, 2013, p. 288).
Um dia eu pensei que meus textos abraçariam mundos; um dia eu pensei que ensinaria em lugares de prestígio. Um dia eu percebi que meus textos abraçam mundos, mas não aqueles que eu imaginava; um dia eu vi que o prestígio é estar onde se é prestigiado: simples assim. Eu já sonhei e deixei a metafísica me dizer: “Os homens podem ser deuses”, então, eu acordei e vi que os deuses são criações humanas, demasiado humanas, que desaparecerão mais cedo ou mais tarde. Um dia, enfim, eu acordei e não mais estranhei por saber que mesmo Homero um dia será esquecido...
Mas o Dono da Tabacaria chegou a? porta e ficou a? porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrera? e eu morrerei.
Ele deixara? a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrera? a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrera? a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrera? depois o planeta girante em que tudo isto se deu. (PESSOA, 2013, p. 291).
Fernando Pessoa. Poesia completa de Álvaro de Campos. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
Friedrich Nietzsche. Sobre verdade e mentira. Trad. de Fernando de Moraes Barros. São Paulo: Hedra, 2008.

