Dia D


Essa época do ano é sempre um período ótimo para ir ao cinema, pois, semanalmente, quanto mais nos aproximamos das férias estadunidenses de verão, melhores vão se tornando as opções nos cinemas locais. Bem por isso, a bola da vez é Dia D, o mais novo filme do aclamado diretor Steven Spielberg. Sobre esse filme, você fica muito bem informado nesta edição da Coluna Sétima Arte.
Dia D vem envolto em ares de retorno, isso porque ele marca a volta de Steven Spielberg tanto ao cinema, quanto à ficção científica. Porém, a sensação final que o filme transmite não é a de um cineasta revisitando suas antigas obras de ficção científica, aquelas que fizeram tanto sucesso e que marcaram o cinema. Pelo contrário! O diretor parece interessado em usar toda a sua experiência na área para discutir inquietações da atualidade, como a desinformação, a desconfiança nas instituições e a necessidade quase desesperada de acreditar que ainda existem descobertas capazes de unir a humanidade. Dito isso, já adianto que Dia D não é um retorno ao passado, mas um olhar muito apurado sobre o presente, mesmo que disfarçado de ficção científica.
A história começa em ritmo acelerado. Daniel Kellner, especialista em segurança cibernética interpretado por Josh O’Connor, foge de uma organização secreta depois de decidir tornar públicos documentos que comprovariam décadas de contatos entre governos e seres extraterrestres. Paralelamente, conhecemos Margaret Fairchild, uma meteorologista vivida por Emily Blunt, cuja rotina muda completamente após um encontro aparentemente banal, mas cercado de mistério. Quando esses dois caminhos finalmente se cruzam, Spielberg constrói uma aventura que alterna perseguições e suspense sem perder de vista aquilo que realmente lhe interessa, que, no caso é, observar como pessoas comuns reagem quando toda a lógica do mundo parece desmoronar.
Sobre o elenco, vale a pena destacar que Emily Blunt sustenta boa parte do envolvimento emocional do filme sozinha. Sua Margaret poderia facilmente ser apenas mais uma personagem destinada a cumprir uma missão grandiosa, mas a atriz evita qualquer heroísmo artificial. Sua atuação é construída sobre pequenas reações, olhares demorados e uma crescente mistura de medo e fascínio que torna bastante convincente a transformação da personagem. Mesmo quando o roteiro insiste em explicações desnecessárias ou flerta com um sentimentalismo mais evidente, Blunt encontra equilíbrio suficiente para manter tudo crível. Já Josh O’Connor entrega um protagonista eficiente, embora menos carismático. Daniel passa grande parte da narrativa fugindo, escondendo informações e conduzindo o espectador pelos aspectos conspiratórios da trama. Ainda assim, o ator consegue transmitir fragilidade em vez de invencibilidade, característica que aproxima o personagem do público e impede que ele se torne apenas mais um herói de ação. Colin Firth também merece destaque. O personagem interpretado por ele, Noah Scanlon, representa uma figura de autoridade que nunca precisa levantar a voz para impor ameaça. O antagonista funciona justamente porque parece acreditar sinceramente que esconder a verdade é uma forma de proteger o mundo. É uma interpretação contida que combina perfeitamente com o tom adotado pelo filme.
Como diretor de ação, Spielberg continua praticamente inigualável. As perseguições são construídas com clareza visual, domínio absoluto do espaço e uma fluidez rara nos grandes blockbusters da atualidade. Exemplo disso é a sequência envolvendo um trem, essa é uma cena eletrizante, tecnicamente impecável e conduzida sem recorrer à edição caótica que muitas vezes substitui criatividade por excesso de cortes.
Visualmente, Dia D também impressiona. A fotografia de Janusz Kami?ski, parceiro de Spielberg de longa data, recupera uma textura quase artesanal, valorizando contrastes entre luz e sombra para criar uma atmosfera permanente de expectativa. Spielberg sabe exatamente quando revelar e quando esconder. Em diversos momentos, basta um reflexo, uma iluminação inesperada ou um enquadramento cuidadosamente composto para despertar aquela sensação de fascínio que é tão característica de sua filmografia. John Williams acompanha essa proposta com uma trilha mais discreta do que seus trabalhos mais conhecidos. Em vez de conduzir todas as emoções, a música aparece de forma sutil, permitindo que o silêncio e as imagens ocupem o centro da experiência.
O maior problema de Dia D está no roteiro. David Koepp reúne temas suficientes para alimentar vários filmes diferentes. Fé, guerra, paranoia coletiva, teorias conspiratórias, tecnologia, memória, relações familiares e o impacto cultural de uma revelação extraterrestre surgem ao longo da narrativa, mas poucos recebem desenvolvimento realmente satisfatório. Há momentos em que o filme parece levantar questões fascinantes apenas para abandoná-las rapidamente em favor da próxima sequência de perseguição. Isso também afeta alguns personagens secundários, que acabam funcionando mais como instrumentos para mover a história do que como indivíduos plenamente desenvolvidos. O último ato, embora visualmente eficiente e emocionalmente honesto, depende de algumas conveniências narrativas que certamente dividirão opiniões.
Ainda assim, seria injusto reduzir Dia D às suas limitações. Spielberg continua demonstrando uma capacidade rara de provocar encantamento sem depender exclusivamente dos efeitos especiais. Seu interesse nunca esteve apenas na existência de alienígenas, mas na maneira como reagimos diante daquilo que desafia nossas convicções mais profundas. É justamente essa dimensão humana que impede o filme de se transformar em apenas mais uma produção sobre conspirações governamentais. Talvez o maior mérito de Dia D seja lembrar que o cinema ainda pode despertar surpresa genuína. Em tempos nos quais praticamente tudo parece disponível na tela de um celular antes mesmo da estreia, Spielberg reafirma a importância da experiência coletiva da sala escura. Há imagens que simplesmente ganham outra força quando compartilhadas com dezenas de desconhecidos diante de uma tela gigantesca.
Essa afirmação já responde antecipadamente a tradicional pergunta que, em geral, marca o desfecho da coluna. Vale a pena assistir a Dia D no cinema exatamente por isso. Pois, mesmo com um roteiro irregular, Spielberg continua dominando como poucos a arte de transformar espetáculo em emoção. Seus enquadramentos, sua condução das cenas de ação e, principalmente, sua confiança na capacidade do público de se maravilhar fazem deste um filme uma obra que merece ser vista da forma para a qual foi concebida. Não é o trabalho mais perfeito de sua carreira, mas é mais uma demonstração de que alguns cineastas continuam sabendo olhar para o desconhecido sem perder de vista aquilo que existe de mais interessante em qualquer história: as pessoas. Boa sessão!

