Sirât


Antes de mais nada gostaria de compartilhar com você que meu sentimento ao escrever a Coluna desta semana é o mesmo do ano passado, de quando escrevi sobre Emilia Pérez, ou seja, um misto de ranço e admiração. Isso porque a história parece se repetir, por meio de um episódio polêmico que tomou conta das conversas sobre o Oscar 2026 envolvendo Sirât, a estreia desta semana, e o cinema brasileiro (sobretudo o filme O Agente Secreto).
Em janeiro, durante a divulgação das indicações ao Oscar (nas quais o Brasil vive um dos seus momentos mais emblemáticos com O Agente Secreto conquistando quatro nomeações, incluindo Melhor Filme e Melhor Filme Internacional), o diretor espanhol Oliver Laxe fez declarações que repercutiram amplamente nas redes sociais. Em participação no talk show espanhol La Revuelta, ele ironizou o desempenho brasileiro na corrida pelo Oscar ao afirmar que “há muitos brasileiros na Academia e, se os brasileiros submetessem um sapato ao Oscar, todos votariam nele”, sugerindo que o apoio às obras nacionais seria motivado por um “ultranacionalismo” dos votantes brasileiros, e não por mérito artístico. A fala rapidamente provocou a ira de internautas brasileiros (inclusive a minha), que inundaram os perfis ligados a Sirât com emojis de sapato e críticas, levando Laxe a posteriormente explicar que seu comentário fora “ironia” e que havia sido “tirado de contexto”, dizendo que não tinha intenção de ofender ninguém, inclusive a equipe de O Agente Secreto.
Agora, Sirât, que é uma coprodução Espanha/França, chega ao cinema como esses filmes que parecem te chamar para um passeio e, no meio do caminho, mudam o destino sem pedir permissão e isso não é ruim (eu juro que queria que fosse!) Você aceita o convite achando que vai acompanhar uma busca desesperada no meio do deserto e, quando percebe, está atravessando algo bem menos confortável, no caso, um território de tensão contínua, imagens que arranham o olhar e uma sensação de que o chão sob os pés não é exatamente firme. Bem por isso, o filme tem provocado reações tão diferentes. Não é um ame ou odeie automático; é mais um “entrei achando que sabia onde estava pisando e saí meio desnorteado”.
A premissa, à primeira vista, parece simples. Luis e o filho Esteban percorrem o deserto marroquino em busca da filha mais velha, desaparecida após se juntar a uma rave itinerante. O que poderia render um drama de estrada relativamente convencional vira outra coisa quando o polêmico diretor Oliver Laxe decide que a jornada não é um caminho para a resolução, mas um processo de desgaste. O título já entrega o espírito da proposta, o termo Sirât, de origem muçulmana, está ligado a ideia de caminho, ou melhor de travessia, ou ponte. No filme em questão, esse conceito de travessia é muito mais uma provação e muito menos uma promessa de chegada. O deserto, filmado com uma atenção quase obsessiva à textura da areia, ao vazio do horizonte e ao silêncio que sobra quando a música acaba, não é cenário; é praticamente um personagem, daqueles bem implacáveis.
Há algo hipnótico nas primeiras imagens da rave, uma pilha de caixas de som no meio do nada, luzes piscando como se alguém estivesse tentando animar o fim do mundo. Essa escolha estética já diz muito sobre o filme, que busca promover o encontro entre a ânsia de transcendência e um ambiente que só devolve aridez. É bonito, é estranho, é incômodo. E funciona como porta de entrada para o grupo de nômades modernos que Luis e Esteban passam a seguir. Gente que vive de deslocamento em deslocamento, negociando combustível, trocando metal por batida eletrônica, como se a festa fosse uma fuga ou um jeito de adiar a consciência da aridez da própria vida.
Aos poucos, o filme revela seu pano de fundo distópico. Há rumores de guerra, movimentações militares, um mundo lá fora que parece ter entrado em combustão lenta. Laxe não se interessa em explicar muito, ele não se importa com quem começou o conflito ou, nem mesmo, com quem está ganhando. O que importa é a sensação de que o fim já está em curso há algum tempo. Isso dialoga bem com a postura dos ravers: dançar enquanto tudo desmorona pode soar inconsequente, mas também é um gesto desesperado de afirmação da vida. O filme, portanto, flerta com uma ambiguidade interessante, que para um expectador mais desatento pode passar batida, que é tanto a busca pelo movimento quanto o ônus de uma vida em constante fuga.
Quando a narrativa vira a chave e assume um tom mais brutal, a experiência muda de temperatura. O que era uma viagem estranha, quase contemplativa, passa a ser uma sequência de provas que testam o limite da empatia do espectador. Esse é um ponto que divide a crítica. Há quem veja nisso uma força, que remete ao cinema como experiência física, que não poupa ninguém. Há, outros, que, por sua vez, veem nisso um prazer excessivo em castigar, como se o choque fosse um fim em si mesmo. Bem por isso, é difícil se posicionar a respeito. O filme realmente pesa a mão, mas não me parece um sadismo vazio. Há uma lógica interna nessa escalada. Fica implícita a ideia de que, quando o mundo se desorganiza, o íntimo não fica ileso.
Visualmente, a influência de Mad Max: Estrada da Fúria, de 2015, é perceptível na concepção de estrada como arena de sobrevivência, mas a energia é outra. Onde o filme de George Miller encontra um estranho prazer na coreografia do caos, Sirât opta por um niilismo seco. Já o som é outro elemento central da experiência. A trilha eletrônica não embala; ela pressiona. Em vários momentos, parece menos música e mais um ruído do mundo em colapso, como se a batida viesse de um motor prestes a fundir. Quando o silêncio chega, ele não traz alívio, só um vazio mais audível. Isso cria uma relação curiosa com o espectador, isso porque ou você entra na cadência do filme e aceita o desconforto como parte da proposta, ou começa a se perguntar se a insistência no incômodo não está se tornando uma muleta expressiva. O desfecho, ambíguo sem ser exatamente misterioso, é coerente com a visão de mundo que o filme constrói. É uma conclusão que pode soar frustrante, mas que fecha bem o arco temático, um lembrete de que a travessia não garante chegada, apenas a continuidade do movimento.
Por que ver esse filme? No fim das contas, Sirât é um daqueles filmes que não se esgotam na sessão. Ele fica rondando na cabeça depois, seja pela beleza árida de suas imagens, seja pelo incômodo de suas escolhas. Não é uma obra agradável, nem parece querer ser e esperamos que esse incomodo seja o suficiente para não o tornar memorável no Oscar 2026. Porém, vale a pena ser visto porque é um cinema que aposta na experiência como fricção, não como conforto. Se isso é virtude ou vício, depende muito de quem atravessa a ponte. Um filme que não promete salvação e, bem por isso, acaba sendo estranhamente honesto. Boa sessão!

