Deus Justo e Justificador (Rm 3.22b-26)

Romanos 3.22(b)-26: “[...] porque não há distinção, 23 pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, 24 sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, 25 a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; 26 tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus.”
Nos versos anteriores, de 21 a 22(a), aprendemos com Paulo que a justificação do pecador se dá apenas pela fé, independente das obras da lei. Todos – disse Paulo – podem ser salvos apenas por este meio: a fé em Cristo. Porém, poderíamos perguntar: por que há apenas esse meio de salvação para todas as pessoas? E a resposta de Paulo está no fim do verso 22 e início do verso 23: “[...] 22 porque não há distinção, 23 pois todos pecaram”.
Em outras palavras, Paulo está dizendo que é errada a ideia de que alguns podem ser justificados por meio da fé, enquanto outros de outra maneira. Pelo contrário, pelo fato de todos – judeus e gentios – estarem na mesma condição de sujeição natural ao pecado, todos só podem ser salvos e justificados pela fé somente. Como declara Calvino: “[...] todos devem igualmente ser justificados pela fé, porque todos são pecadores e, portanto, não têm nada pelo qual possam se gloriar diante de Deus.”
Não há nada no pecador que o torne capaz de ser aprovado por Deus com base em suas obras, pois em si mesmo ele carece da glória divina. É isso que Paulo argumenta na continuação do verso 23: “23 [...] e carecem da glória de Deus,”. O sentido de carecer ou necessitar da glória de Deus deve ser tomado, como argumenta Calvino, como a aprovação de Deus. Ou seja, os homens, por serem pecadores, necessitam da aprovação que vem apenas de Deus, de Sua justiça. Eles carecem de aceitação e perdão divino, mas não podem fazer isso com base nas obras da lei. Mas então, como serão salvos? Paulo volta a dizer que os homens são aprovados por Deus por pura graça. Diz o v. 24: “24 [...] sendo justificados gratuitamente, por sua graça”. A justificação é um ato forense de Deus pelo qual ele declara o pecador justo diante d’Ele e aprovado por Ele para comungar com Ele. Essa justificação – que a Bíblia também chama de salvação – não é produzida pelo próprio pecador, mas é uma graça concedida por Deus, um favor imerecido ao homem pecador, mudando seu estado legal diante de Deus. É graça, e se é graça, já não é obras!
Essa graça divina chega ao pecador em virtude da obra de um Mediador, que é Jesus Cristo. É disso que Paulo fala ainda no v. 24: “24 [...] mediante a redenção que há em Cristo
Jesus,”. A justificação é intrínseca à redenção; não podemos falar apropriadamente de uma sem a outra! Por um lado, Cristo nos redime, nos liberta da nossa condição e condenação, mediante sua vida, morte e ressurreição, e como nosso Mediador, todas as suas virtudes e obras de justiça são imputadas a nós, de modo que agora, unidos a Cristo, somos considerados justos (justificados) diante de Deus. Por meio de Cristo, Deus se torna propício aos pecadores. É o que Paulo diz no verso 25: “25 [...] a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação”.
Há duas coisas a se observar aqui: primeiro, que a proposta de redenção e justificação não vem do homem pecador. Não é o pecador que deve inventar ou estabelecer a forma de ser salvo. A única forma legítima e verdadeira de salvação é aquela proposta pelo próprio Deus na pessoa de Cristo. Segundo, que em Cristo há propiciação. O que isso significa? No Antigo Testamento, o pecador era justificado e aceito por Deus apenas quando o sangue de um animal substituto era derramado e recebia a ira de Deus no lugar do pecador, expiando o pecado e tornando Deus propício (favorável).
No entanto, aqueles animais eram apenas sombras e tipos proféticos que apontavam para a realidade de Cristo Jesus. É o Senhor quem sofreu na cruz a ira de Deus. Deus Pai esmagou seu Filho no derramamento de seu sangue, a fim de se tornar propício a nós pecadores, pois em Cristo, nossos débitos foram totalmente quitados e a justiça de Cristo foi imputada a nós.
Mas como essa obra objetiva de Cristo é apropriada por nós? Como aquilo que aconteceu na Judeia era (e é) apropriado pelos eleitos como único meio de salvação proposto pelo próprio Deus? Como recebemos isso? Paulo diz (novamente) no verso 25: “25 [...] mediante a fé,”. É apenas pela instrumentalidade da fé, pela confiança e convicção na veracidade da promessa de salvação em Cristo que o pecador é verdadeiramente justificado e redimido e Deus se torna real e verdadeiramente propício a ele. Simplesmente pela fé!
E, então, desta forma, Deus ao mesmo tempo manifesta sua justiça (pois em Cristo, todos os pecados dos eleitos antes tolerados e deixados impunes são finalmente penalizados) e também perdoa e justifica o pecador. É o que Paulo diz no final do verso 25 e início do 26: “25 [...] para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; 26 tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente”. O sentido de “deixados impunes os pecados anteriormente cometidos”, é de ter punido verdadeira e definitivamente todos os pecados da Antiga dispensação do Pacto da Graça (Antigo Testamento) na pessoa de Cristo, no “tempo presente”, em sua encarnação. É claro que isso não significa que os pecados cometidos posteriormente à manifestação em carne de
Cristo recebem um tratamento diferente. Essa mesma verdade se aplica aos nosso pecados passados, presentes e futuros!
Agora, para que Deus fez isso? A resposta é que, em Cristo, Deus pode ser tanto justo – ao punir o pecado em um substituto – como justificador – em aceitar o pecador que crê em Cristo como seu substituto pessoal. Veja como Paulo conclui o verso 26: “26 [...] para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus.”. Isso nos ensina uma importante verdade: que Deus não poderia verdadeiramente ser justo se simplesmente perdoasse os pecados do pecador, jogando tais pecados “debaixo do tapete” como se não importasse. Não consideraríamos um juíz que não leva o crime a sério e nem o pune como um juiz justo. Deus precisava vindicar sua justiça, punindo o pecador com a penalidade do pecado que é a morte.
Ao mesmo tempo, Deus não poderia justificar um pecador que não pode, pelo cumprimento da lei, satisfazer às exigências de Sua justiça. Em Cristo, no entanto, Deus é justo, pois nele o Senhor derrama toda a sua justa ira e castiga os pecados dos pecadores. Ao mesmo tempo, os pecadores, ao crerem em Cristo, têm os seus débitos pagos, são justificados, aprovados e recebidos por Deus, de modo que Deus é justificador daquele que tem fé em Jesus!
Por fim, querido(a) leitor (a), meu chamado à você a luz dessas palavras de vida é: pare de tentar se justificar diante de Deus por aquilo que você faz. Seus esforços, suas obras e seus méritos jamais poderão apagar a culpa diante de Deus. Mas olhe para Cristo! Ele fez por você aquilo que você jamais poderia fazer por si mesmo. Viveu em perfeita obediência, cumpriu a Lei em seu lugar e, na cruz, tomou sobre si o castigo que os seus pecados mereciam. Nele, a justiça de Deus foi satisfeita e, pela fé, o pecador é declarado justo diante de Deus. Por isso, não viva mais tentando conquistar aquilo que Deus oferece gratuitamente em Cristo. Abandone a confiança em si mesmo e descanse na obra de Jesus. Se você reconhece a sua culpa, não fuja de Deus: corra para Cristo pela fé. Creia nele e serás declarado justo diante de Deus! Amém.
Fernando Razente
Diácono ordenado da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Paranavaí, Congregação de Nova Esperança, e seminarista do Seminário Presbiteriano do Sul – Extensão de Curitiba. Professor de Ciências Humanas, Filosofia e Ciência da Religião. Marido de Renata Minel
