André Kondo. Cantigas de ninar pedras

O ano de 2025 foi especial para o escritor André Kondo, que realizou o sonho de muitos escritores brasileiros: ganhar o Prêmio Jabuti. André foi galardoado com o livro “O Silêncio de Kazuki”, um dos livros mais bonitos que já li sobre memórias a respeito das relações entre pais e filhos. A premiação foi em outubro e qualquer pessoa poderia descansar e dar o ano como finalizado, mas não foi o caso do meu amigo, editor e escritor da mais alta estima. André lançou, no final de dezembro, o livro de poemas “Cantigas de ninar pedras”.

André Kondo, que é autor de mais de vinte livros premiados, é também alguém que já peregrinou o mundo atrás de inspiração, conhecendo mais de 60 países, o que é, me permita a obviedade, um feito espantoso. Eu, que já estive em 27 países, tenho lutado para alcançar 30, e tem sido difícil, agora que se imagine 60. As experiências do André viajante podem ser lidas na obra “No meio do mundo: as viagens de Teru e Kazu”. O fato é que no caso de André a peregrinação não é esnobismo ou mero turismo, mas motivo de humildade e criação.
Entretanto, uma heterodoxa peregrinação de André não se deu na Europa, na Ásia, na Oceania ou nas Américas, mas no estado de São Paulo e adjacências, na condição extrema, ainda que temporária, de pessoa em condição de rua. No livro “Cantigas de ninar pedras”, que recebeu o Prêmio Marcus Vinicius Quiroga, da UBE-RJ, não aparece o motivo pelo qual André foi para as ruas, pois nessa obra há apenas poemas sobre a condição de homem-viaduto, homem-calçada, homem-marquise; é possível encontrar as razões desse momento extremo no livro “O Silêncio de Kazuki”.

Ao eu receber o novo livro de André Kondo, eu parei tudo o que fazia e me dediquei à obra, que, desde o sumário, me impactou, remetendo-me aos livros “Quarto de despejo”, de Carolina de Jesus”, e “Zoobreviver”, de Eugênio Ramos Gianetti. Para que o leitor tenha noção do teor dos poemas, eis o sumário:
I – HOMEM
conheci homens tristes
quando o horizonte não é uma linha horizontal
a arquitetura da exclusão
a fome não tem memória
conheci nas ruas
a comida está sobre a mesa
um homem de rua
saí para caminhar
nomes existem
penteava o cabelo
chutar um homem de rua
nas fibras do homem de rua
a compaixão despenca
o menino de rua sabe
a água que escorre na sarjeta
mil nascimentos ocorrem nas ruas
as cantigas de ninar pedras
o crepitar da fogueira
as ruas tremem
o homem-marquise
no pelourinho
a mulher de rua deitava em lápis
na química das coisas
escreveu o poeta sobre o homem de rua
o homem-calçada
o homem de rua e o cão de rua na sombra
o homem de casaca de largos bolsos
as bocas de lobo
um homem sem banho
II – RUA
o fedor sob a minha manta
o bairro da liberdade
a catedral de ossos
disfarcei-me de ulisses
o frio afago da chuva
o verbo pedra
minha mãe é uma esquina
ninguém quer ler sobre um homem de rua
dizem do postimeiro homem
III – O HOMEM DE RUA
caminha sobre o derradeiro homem
perdão, não posso partir assim
O fino trato com as palavras e a repetição de “rua”, “calçada”, “fome”, “homem” e “nome” fazem com que o leitor entre camada por camada na obra, e a repetição, recurso estilístico de difícil execução, é tratado com reverência. A repetição não é banal, mas serve para fixar o leitor; a repetição não é banal, mas serve para levar o leitor à angústia que é acordar, dormir, andar, acordar, dormir, andar, e não ter lugar certo para onde ir; a repetição não é banal, ela faz com que o leitor saia da vida normal que transcorre os dias e se coloque ao lado de alguém que muitas vezes é tratado como uma pedra, ou menos do que isso.
A minha vontade é a de transcrever todos os poemas, mas isso não teria razão de ser. Porém, transcreverei alguns versos para que o leitor saboreie a escrita desse renomado escritor:
“(...)
o pai cego tateia o asfalto
em busca das pegadas do filho” (p. 19).
“o homem-marquise
suspende o celho
debaixo dos cílios
abriga sonhos
que dormem
a realidade pontapeia
o sonho
e o expulsa do olhar
sonho-cisco
que incomoda os olhos
das gentes que não sabem mais sonhar” (p. 34).
“(...)
uma luz que se acende por fora
uma vida que se apaga por dentro” (p. 39).
“(...)
agora o que resta
nesta busca pelo homem de rua
que deixou para a humanidade a herança:
três botões no bolso esquerdo do casado em farrapos
(no qual faltavam quatro)
cinco furos no bolso direito do casaco
pelos quais deslizaram suas cinco oportunidades:
1) quando nasceu
2) quando se apaixonou
3) quando se decepcionou
4) quando se esqueceu
5) quando foi esquecido
seguem pelas ruas essa herança maldita
quem há de ser feliz
quando os bolsos estão cheios de coisas inúteis?
onde há de caber o vazio
e o frevo das perdas?” (p. 66-67).
O sabor dos versos anteriores tem um misto de prazer e de angústia, afinal, ao mesmo tempo em que se há a satisfação de acompanhar um mestre da escrita, se enxerga e se sente a angústia que ele expressa. Sem lições de moral, pois elas são uma forma barata de ressentimento, o que André Kondo faz em “Cantigas de ninar pedras” é retratar, por meio de versos e de vivências, a dura realidade de quem, no dia a dia de milhares de pessoas, não existe. Conforme expressa o escritor, a rua é um “deserto imenso” (p. 73).
André Kondo. Cantigas de ninar pedras. Taubaté, SP: Telucazu Edições; Porto Alegre, RS: Editora Bestiário, 2025.
___________. No meio do mundo: as viagens de Teru e Kazu. Jundiaí: Telucazu Edições, 2023.
____________. O Silêncio de Kazuki. Jundiaí: Telucazu Edições, 2024.

