A generic square placeholder image with rounded corners in a figure.


A Odisseia


Por: Odailson Volpe de Abreu
Data: 23/07/2026
  • Compartilhar:

Nem os comentários maldosos de Elon Musk foram capazes de ofuscar o sucesso do novo filme de Christopher Nolan nos cinemas. Caso você não tenha se inteirado sobre o assunto, Musk usou sua rede social (o X, vulgo antigo twitter) para criticar a escalação da atriz Lupita Nyong’o para o papel de Helena de Tróia, acusando Nolan de abraçar a chamada “agenda woke” na busca por um novo Oscar. No melhor estilo “falem mal, mas falem de mim”, é possível afirmar que isso mais agregou do que prejudicou o filme, já que em sua estreia as salas de cinema estiveram repletas de expectadores ávidos para conferir essa obra. Tanto que o filme liderou com folga as bilheterias ao redor do mundo. Sobre A Odisseia a Coluna Sétima Arte desta semana traz tudo o que você precisa saber.

Vamos começar falando sobre o diretor. Já faz tempo que Christopher Nolan se apresenta como um dos diretores mais complexos e lucrativos da indústria do cinema. À primeira vista, sua filmografia parece um mosaico formado por um thriller policial, histórias de super-heróis, ficção científica, guerra, suspense e uma cinebiografia. Mas, basta olhar um pouco mais de perto para perceber que todos esses filmes conversam entre si. Desde Amnésia, de 2000, Nolan demonstra fascínio por personagens que tentam controlar aquilo que já escapou de suas mãos. Leonard Shelby tentava reconstruir o passado. Cobb, de A Origem, em 2010, invadia sonhos para alterar decisões. Cooper, em Interestelar, de 2014, desafiava o tempo em busca da família. Já Batman acreditava que podia salvar Gotham sozinho. Oppenheimer acabou por descobrir, tarde demais, que certas invenções jamais pertencem aos seus criadores.

Bem por isso, fica fácil imaginar que adaptar um poema escrito há quase três mil anos, povoado por deuses, sereias, ciclopes e monstros marinhos, não seria exatamente o próximo passo lógico para um cineasta conhecido por homens de terno discutindo física, memória e dilemas morais. Porém, talvez, nunca tenha existido um projeto tão adequado para Christopher Nolan. Isso porque A Odisseia poderia facilmente se apoiar apenas na grandiosidade da obra de Homero. Afinal, poucos textos influenciaram tanto a literatura ocidental. Qualquer diretor encontraria ali material suficiente para construir um espetáculo de batalhas, criaturas fantásticas e efeitos especiais. Nolan, felizmente, parece interessado em outra viagem. Os monstros continuam presentes, mas o verdadeiro inimigo de Odisseu é aquele que embarca com ele desde a queda de Troia.

Quem entra na sala esperando ver um novo Gladiador, só que agora lutando com criaturas mitológicas, talvez leve alguns minutos para entender a proposta. O diretor utiliza o poema como ponto de partida para discutir algo que atravessa praticamente toda a sua filmografia. O que acontece quando um homem percebe que sua maior vitória também foi responsável por desencadear uma tragédia? Essa escolha muda completamente a maneira como o público olha para Odisseu. Neste sentido, Matt Damon constrói um protagonista distante da imagem clássica do herói invencível. Seu rei de Ítaca continua brilhante, estrategista e capaz de encontrar soluções improváveis, mas carrega um cansaço permanente. É como se cada nova ilha representasse menos um obstáculo físico e mais uma lembrança daquilo que ficou para trás, e não duvide, a narrativa do filme contribui para isso. Damon entende essa proposta e entrega uma interpretação madura, marcada muito mais pelos silêncios do que pelos discursos. Há uma humanidade rara em seu olhar, especialmente quando o personagem percebe que nem toda inteligência é suficiente para corrigir os próprios erros.

Essa leitura também pode ser percebida em Anne Hathaway. Sua Penélope talvez seja uma das maiores surpresas do filme. Durante décadas, o imaginário popular resumiu a personagem à mulher que esperava pacientemente o retorno do marido, tecendo de dia e desfazendo o próprio trabalho à noite. Nolan faz questão de ampliar esse papel. Enquanto Odisseu enfrenta tempestades, monstros e deuses, Penélope trava uma batalha política diária para manter Ítaca de pé. Hathaway interpreta essa rainha com uma dignidade admirável, evitando qualquer exagero. Sua força nasce da resistência, não dos discursos. Aliás, vale destacar um aspecto que merece elogios. Em tempos nos quais parte de Hollywood parece acreditar que representatividade se resume a transformar personagens em porta-vozes de causas contemporâneas, A Odisseia escolhe um caminho muito mais inteligente. Penélope cresce porque o roteiro lhe oferece função dramática, responsabilidade e protagonismo dentro da história. Ela não ocupa espaço porque o filme precisa cumprir uma agenda. Ocupa porque faz toda a diferença para que a narrativa funcione. Quando o cinema entende essa diferença, todo mundo ganha.

O      elenco ainda conta com muitos outros nomes de peso, mas quero dar destaque pra mais dois. Um deles é Tom Holland, que também apresenta um de seus trabalhos mais consistentes dos últimos anos. Seu Telêmaco amadurece diante dos olhos do expectador, tentando compreender quem é esse pai que conhece apenas pelas histórias contadas nos salões de Ítaca. O outro é Robert Pattinson, que, neste caso, parece se divertir interpretando Antínoo. O ator confirma novamente seu talento para construir personagens desagradáveis, daqueles que o público passa o filme inteiro esperando ver derrotados.

Assim, Nolan demonstra compreender algo essencial sobre Homero, que as grandes jornadas nunca foram apenas sobre chegar ao destino. O caminho sempre foi o verdadeiro protagonista. Para além disso, a força de A Odisseia também está na maneira como Nolan filma esse universo. Desde que passou a defender o uso de efeitos práticos e grandes locações, o diretor se tornou uma espécie de guardião de um cinema cada vez mais raro em Hollywood. Em uma época em que muitos blockbusters parecem disputas para descobrir qual estúdio consegue colocar mais computadores na tela, Nolan insiste em colocar pessoas diante de paisagens reais. O resultado faz diferença. Muita diferença. Também seu esforço em gravar tudo nas gigantescas câmeras IMAX é louvável, mesmo que isso não faça nenhum sentido para nós, brasileiros, já que não temos acesso a esse tipo de tecnologia, pois os cinemas aqui não possuem os projetores IMAX 70mm necessários para a exibição do filme no formato correto.

A fotografia de Hoyte van Hoytema talvez seja uma das mais bonitas da parceria dele com Nolan. Por exemplo, o mar, para Nolan e Hoytema ele nunca é apenas cenário. Em determinados momentos, ele transmite liberdade; em outros, parece uma prisão sem muros. As embarcações parecem minúsculas diante da natureza, reforçando que, por mais brilhante que seja Odisseu, existem forças que escapam completamente ao seu controle. Essa opção estética fica ainda mais evidente nas sequências envolvendo os elementos fantásticos.

Confesso que uma das minhas maiores curiosidades antes da sessão era descobrir como Nolan trataria criaturas que sempre foram associadas ao imaginário mais fantasioso da mitologia grega. A resposta surpreendeu. O encontro com Polifemo, possivelmente a parte mais conhecida dessa história clássica, está facilmente entre os melhores momentos do filme. Em vez de apresentar o ciclope como um enorme espetáculo digital, Nolan preferiu construir tensão. O gigante aparece aos poucos, quase sempre escondido pela escuridão da caverna, lembrando uma velha lição ensinada por Steven Spielberg em Tubarão, de 1975. Às vezes, aquilo que a câmera não mostra provoca muito mais medo do que qualquer efeito especial. O resultado se aproxima muito mais do cinema de terror do que do tradicional filme de aventura.

A mesma lógica aparece na passagem por Circe. Samantha Morton entrega uma interpretação inquietante, sem recorrer aos clichês normalmente associados às feiticeiras do cinema. Sua presença basta para alterar completamente a atmosfera da narrativa. A sequência ainda reserva momentos de horror corporal bastante impactantes, daqueles que provocam desconforto sem perder de vista a função dramática. Já a descida ao submundo talvez represente o ápice visual do longa. Não apenas pela fotografia impecável, mas porque Nolan transforma esse momento em algo muito maior do que um desfile de imagens impressionantes. É ali que Odisseu finalmente deixa de enfrentar monstros para enfrentar a si mesmo. Os fantasmas que encontra carregam muito mais peso do que qualquer criatura mitológica vista até então.

Outro mérito do roteiro está na maneira como aborda a guerra. Seria muito fácil transformar a queda de Troia em uma grande celebração da inteligência militar de Odisseu. Felizmente, o filme segue pelo caminho oposto. A conquista da cidade não representa o encerramento da história, mas o início de todas as tragédias que virão depois. Em tempos de guerra, essa é uma leitura bastante atual para um poema escrito há quase três mil anos.

Esse talvez seja um dos aspectos mais interessantes da adaptação. Nolan nunca interrompe a narrativa para fazer discursos. Não há personagens olhando para a câmera tentando ensinar alguma lição ao espectador. As questões sociais surgem naturalmente da própria história. A guerra deixa cicatrizes em quem vence e em quem perde. O poder cobra seu preço. A liderança exige renúncias. Enquanto isso, Penélope administra praticamente sozinha um reino ameaçado por interesses políticos e pela violência daqueles que acreditam que a ausência de um homem significa a ausência de autoridade. Tudo isso está presente sem jamais transformar o filme em panfleto.

Também chama atenção a maneira como o diretor trabalha o tempo. Em praticamente todos os seus filmes, Nolan transforma o tempo em personagem. Aqui não é diferente. Os anos de ausência pesam sobre Odisseu, sobre Penélope e, principalmente, sobre Telêmaco. Não se trata apenas de contar quantos anos se passaram desde Troia. Trata-se de mostrar que o tempo modifica pessoas, relações e até mesmo a ideia que fazemos daqueles que amamos. Quando pai e filho finalmente dividem a mesma cena, não estamos diante apenas de um reencontro. Estamos diante de dois homens que precisam aprender a conviver pela primeira vez.

Mas, nem tudo funciona com perfeição. Alguns episódios da viagem recebem menos desenvolvimento do que mereciam, consequência inevitável de adaptar uma obra tão extensa. Alguns coadjuvantes aparecem apenas o suficiente para demonstrar o talento do elenco reunido por Nolan, deixando aquela sensação de que poderiam ter contribuído ainda mais para a narrativa. Dentre esses coadjuvantes está Lupita Nyong’o que mesmo diante de toda a polêmica contou com pouquíssimo tempo em cena. Porém, não há dúvidas, são pequenas observações diante da dimensão do projeto.

Ao final da sessão, o que fica claro é que A Odisseia não pretende substituir o poema de Homero nem o reproduzir literalmente, o objetivo é outro. Nolan constrói uma leitura pessoal do clássico, respeitando sua essência enquanto imprime nela as marcas que fizeram de sua filmografia uma das mais influentes deste século. O resultado é um épico que impressiona pelo tamanho, emociona pelos personagens e encontra espaço para refletir sobre guerra, família, liderança e responsabilidade sem abrir mão do entretenimento.

Por que ver esse filme? Com toda a sinceridade, vale a pena assistir ao filme no cinema. Não apenas pela fotografia em IMAX, pela edição de som ou pela excelente trilha de Ludwig Göransson, mas porque algumas obras simplesmente foram concebidas para dividir o mesmo espaço com o público. Há cenas que pedem uma tela gigante, silêncio ao redor e aquele instante em que a sala inteira prende a respiração ao mesmo tempo. A Odisseia é uma delas. Christopher Nolan prova mais uma vez que continua disposto a desafiar expectativas. E convenhamos, depois de transformar um físico teórico em protagonista de um fenômeno de bilheteria, talvez adaptar Homero realmente fosse o passo mais natural de sua carreira. Boa sessão!

Odailson Volpe de Abreu


Anuncie com Jornal Noroeste
A caption for the above image.


Veja Também


smartphone

Acesse o melhor conteúdo jornalístico da região através do seu dispositivos, tablets, celulares e televisores.