A linguagem da humanidade sem Cristo

Por Sem. Fernando Razente
Romanos 3.13-14: “A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, 14 a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura;”
No texto da semana passada, analisamos o estado apóstata da humanidade sem Cristo, a partir do v. 12 de Romanos 3. Hoje, iremos meditar sobre a natureza da linguagem da humanidade sem Cristo, nos versos de 13 a 14. Diferente do que muitos acreditam, Deus trata a linguagem (o conteúdo propriamente da fala) como algo profundamente espiritual. A linguagem, nas Escrituras, não é um instrumento neutro, mas é a expressão do coração humano e é o meio pelo qual glorificamos ou desonramos a Deus e o nosso próximo.
Por isso, Paulo – em seu argumento sobre a Depravação Total da humanidade aqui em Romanos 3 – nos leva agora a meditar sobre como a linguagem da humanidade sem Cristo está totalmente corrompida. Paulo quer nos ensinar que, com a queda, a corrupção total da linguagem é uma das características da humanidade e a linguagem corrompida da humanidade, na mentira, no perjúrio, nas blasfêmias e palavrões, na violência ou na maliciosidade, revelam a total corrupção interior.
Paulo demonstra isso usando as seguintes figuras de linguagem: (1) garganta; (2) língua; (3) lábios; e (4) boca. Acompanhemos o apóstolo. (1) Garganta: “A garganta deles é sepulcro aberto”: A garganta aponta para o veículo do coração; é aquilo que expressa o que há de mais profundo em nosso ser, pois isso Jesus disse que a boca fala daquilo que o coração está cheio (cf. Mt 12.34). Mas a garganta do homem natural é, ou melhor, tem sido (cf. o grego) um sepulcro aberto, de onde toda imundícia e podridão se revelam! (2) Língua: “com a língua, urdem engano”: Os ímpios sem Cristo usam a língua como um veículo sagaz de engano e fraude. São filhos de Satanás, que também usou a língua da serpente para conduzir os primeiros pais à morte (cf. Gênesis 3). Para os ímpios, a língua é instrumento ativo de fraude. (3) Lábios: “veneno de víboras está sob os seus lábios”: Paulo aqui compara a linguagem corrompida da humanidade ao veneno mortífero de uma serpente. Ainda que não percebamos de imediato todo o potencial destrutivo da linguagem, o veneno está ali, latente, pronto para sair. (4) Boca: “a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura;”: Depois de tratar da garganta, língua e lábios, agora Paulo fecha o quadro da corrupção geral e total da linguagem ao falar também da boca. E o que há nessa boca? Do que ela está cheia? Que tipo de veneno? Maldição e amargura. A linguagem da humanidade sem Cristo está saturada de palavras de maldição contra Deus ou contra o próximo, e de amargura, uma disposição interior de ingratidão, reclamação e murmuração contínuas, revelando um coração dominado pela hostilidade e ressentimento.
Eis o estado da linguagem da humanidade sem Cristo. Mas isso sempre foi assim? A resposta é não. A origem da linguagem está em Deus, que entre os seus atributos – como comunicação – nos transmitiu no ato da criação do homem e mulher à Sua imagem e semelhança.
Deus, com sua palavra, cria os céus e a terra, e julga – com a mesma Palavra – que tudo é “muito bom”, revelando que a linguagem, em sua origem, está vinculada ao Ser de Deus, seu poder, sua ordem e verdade no mundo.
Em Gênesis 2:19-20, o homem exercita o poder da linguagem ao nomear os animais, exercendo domínio sobre a criação e ao elogiar sua esposa. Nesse estado original, a linguagem era plenamente adequada à realidade: não há falsidade, ambiguidade ou distorção. Entretanto, é precisamente por meio da distorção da linguagem que o pecado entra no mundo.
Em Gênesis 3, Satanás se apropria da serpente e inicia o processo de tentação com distorção verbal sobre a ordem de Deus (cf. Gn 3:1). A tentação consiste em, pela linguagem, manipular o sentido e veracidade da palavra divina, introduzindo dúvida no coração humano.
Após a queda, a corrupção da linguagem se manifesta imediatamente no homem. Quando confrontado por Deus, Adão responde com uma transferência de culpa, acusação indireta contra Deus e evasão de responsabilidade. Eva, por sua vez, repete o mesmo padrão de deslocamento da culpa. A linguagem, que antes expressava verdade, passa agora a ser instrumento de autodefesa pecaminosa, ocultação e distorção moral.
Ao longo da narrativa bíblica, essa corrupção se intensifica. A linguagem é usada para exaltar a violência, o orgulho e a perversão, para organizar uma rebelião coletiva contra Deus (o que leva ao juízo divino por meio da confusão das línguas), para destilar fofocas, contendas, palavras perversas e enganosas.
No Novo Testamento, Cristo ensina que a linguagem é expressão da condição interior do homem. Palavras corruptas revelam um coração corrompido (cf. Mt 12.34). E o mesmo Jesus advertiu sobre a responsabilidade moral da linguagem: “De toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no dia do juízo” (Mt 12:36).
Contudo, também foi para restaurar a linguagem que o Verbo Santo de Deus se manifestou. A obra redentora de Cristo também alcança a nossa linguagem depravada, e a redenção da linguagem em Cristo envolve tanto um aspecto negativo (passivo) quanto positivo (ativo).
Negativamente, o crente é chamado a – crendo na justificação em Cristo e se arrependendo dos seus pecados – se santificar nesta área por meio do abandono do uso pecaminoso da fala: “Deixai a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo” (Ef 4:25); “Nenhuma palavra torpe saia da vossa boca” (Ef 4:29).
Positivamente, porém, a linguagem deve ser agora usada (o silêncio não é o remédio) para o seu propósito original: a edificação e a verdade! O mesmo texto de Efésios 4:29 continua: “mas unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e assim transmita graça aos que ouvem”. Em Colossenses 4:6, Paulo escreve: “A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal”.
A linguagem é de tal maneira importante, que ela é o veículo de Deus para levar a obra de Cristo ao mundo. Se em Babel a linguagem foi usada para uma rebelião contra Deus, por outro lado, em Jerusalém, no Dia de Pentecostes, o próprio Deus é quem distribui línguas do céu, para capacitar a sua igreja a proclamar o evangelho, de modo que homens de diversas nações ouviram “as grandezas de Deus” em suas próprias línguas ou idiomas nativos (cf. At 2:11).
Portanto, a linguagem, outrora instrumento de engano e expressão da corrupção do coração humano, é redimida em Cristo, e isso se evidencia primeiramente no modo como o próprio Senhor Jesus a utilizou.
Nos Evangelhos, Ele faz da palavra o meio pelo qual comunica a graça, proclama o Reino de Deus e chama os pecadores ao arrependimento (cf. Mc 1:14-15). Sua linguagem declarava o seu juízo sobre os hipócritas e o seu perdão aos humildes. Com sua linguagem, ele expulsou demônios (cf. Mc 1:25), curou enfermos (cf. Mt 8:13) e ressuscitou Lázaro (cf. Jo 11:43). Com sua linguagem, Cristo ensinou com autoridade, revelando a verdadeira interpretação da Lei (cf. Mt 5:21-48), refutando os falsos ensinos (cf. Mt 23). Hoje, com sua linguagem, ele intercede por nós ao Pai na glória; e aqui sua linguagem, preservada nas Escrituras, permanece como fundamento da fé (cf. Rm 10:17).
À luz dessa obra redentora, a linguagem do crente deve ser transformada. Se antes a língua servia à mentira e à corrupção como vimos (cf. Rm 3:13-14), agora ela deve ser consagrada a Deus. Por meio dela, o cristão deve confessar a Cristo como Senhor (cf. Rm 10:9), louvar o seu nome (cf. Hb 13:15), reconhecer sua própria indignidade (cf. Lc 18:13) e proclamar o evangelho (cf. Mt 28:19-20). A linguagem cristã é aquela que deve sempre falar a verdade, rejeitar o erro e usar palavras que edificam (cf. Ef 4:25,29; Cl 4:6). Que Deus nos conceda graça para usarmos nossa garganta, língua, lábios e boca sempre para a glória dele!
Fernando Razente
Diácono ordenado da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Paranavaí, Congregação de Nova Esperança, e seminarista do Seminário Presbiteriano do Sul – Extensão de Curitiba. Professor de Ciências Humanas, Filosofia e Ciência da Religião. Marido de Renata Minel
