A ampulheta partida: o abismo dos 15 minutos

Por: Jan Carlos Berto dos Santos – Mestre em Educação para a Ciência e a Matemática.
No exercício da docência, sou testemunha de inúmeras histórias que revelam as prioridades dos alunos. Recordo-me de um que conseguiu mudar de colégio sob o argumento de que, na nova instituição, o intervalo era mais longo. Notoriamente, existem inúmeros motivos, muitos deles assegurados por lei, que levam o ser humano a integrar uma comunidade escolar por tantos anos e um dos momentos cruciais dessa jornada é, sem dúvida, a hora do recreio. Diante disso, me pego a pensar: seria nesse momento que a vida comunitária e o pertencimento dos alunos realmente se consolidam?
O sinal toca e, subitamente, as engrenagens da escola mudam de ritmo. O intervalo, esse hiato que em muitas instituições é de apenas quinze minutos, pontua o cotidiano das escolas brasileiras, o qual considero um fenômeno curioso de relatividade temporal. Para quem observa de fora, é apenas um quarto de hora, para quem o vive por dentro, é um universo que se expande ou se contrai com uma intensidade avassaladora, dividindo o pátio e a sala dos professores em duas realidades temporais opostas.
De um lado desse abismo cronológico, para o professor, o recreio não é descanso, mas uma aceleração violenta, uma corrida de obstáculos contra o relógio. Os segundos escorrem entre os dedos enquanto ele tenta equilibrar o essencial: engolir um café morno, trocar as pastas no armário, responder a uma urgência familiar no celular e processar as orientações pedagógicas que chegam em meio ao corredor. É um tempo que “voa” e se contrai, exigindo uma fragmentação da mente que já precisa estar conectada à próxima turma antes mesmo de a anterior ter saído da memória. Segundo Silva (2002), esse tempo de recolhimento foi arrancado do professor, de quem se cobra mais qualidade, imaginação, sobriedade e maior capacidade de reflexão, mas se nega o direito à pausa.
Do outro lado, já para os alunos, esses mesmos quinze minutos dilatam-se na teia complexa da sociabilidade, onde o tempo não é medido pelo relógio, mas pela intensidade dos afetos. Para o jovem popular, o intervalo é o palco da existência, para o focado na merenda, é estritamente “a hora do lanche” e para o agitado, é o momento de gastar energia e retornar à sala com o suor escorrendo pelo rosto. Contudo, ao olharmos para o canto do pátio, encontramos o reverso: o aluno solitário. Para quem está só, sob o olhar atento dos colegas, esses quinze minutos podem equivaler a uma eternidade, pois o abismo do julgamento alheio faz parecer que a falta de companhia é um atestado de fracasso social. Afinal, somos condicionados a enxergar o jovem sozinho com preocupação, como se a ausência de um grupo fosse o sintoma de algo “quebrado”.
No exercício da docência, já me deparei diversas vezes com o incômodo ao avistar alunos nessa condição. Nesses momentos, entendo ser fundamental a sondagem: estaríamos diante de uma solidão imposta ou de uma solitude escolhida? No entanto, ao me dirigir a eles, nem sempre encontrei a angústia previamente esperada. Pelo contrário, ouvi frases como: “Professor, estou bem, só quero ficar sozinho agora” ou “Estou aproveitando o intervalo para terminar meu livro”. Foi assim que percebi que muitos estavam em paz com a própria companhia, exercendo uma autonomia que o sistema, muitas vezes, ignora até mesmo na vida adulta.
A preocupação pedagógica com o aluno dito solitário já foi pauta de reuniões, no entanto, faz-se necessário refletir sobre a linha tênue que separa a solidão da solitude. Paul Tillich (1886-1965), filósofo e teólogo americano, esclareceu essa distinção: “A linguagem criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho”.
A urgência em pertencer é hoje agravada por um mundo digital hiperconectado, mas frequentemente vazio. Em meio ao bombardeio de informações superficiais, as gerações atuais e futuras estão perdendo a capacidade de se desconectar do ruído para se conectar consigo mesmas. Nesse sentido, considero urgente o resgate da imaginação e da criatividade que floresce justamente no ócio: naquilo que, aos olhos apressados, parece vazio, mas que, para quem aprecia a própria companhia, revela-se um verdadeiro tempo de ouro. Precisamos recuperar a memória de um tempo em que a escassez de recursos era o solo fértil da criação: onde um sabugo de milho virava boneca, retalhos de pano e meias velhas tornavam-se a bola do campeonato, a areia erguia castelos e as nuvens desenhavam animais no céu.
Hoje, o excesso de telas anestesia esse olhar no pátio e fora dele, transformando o tédio em angústia, quando ele deveria ser o convite para a invenção. Essa necessidade de preencher cada segundo com estímulos externos, que começa na infância escolar e se estende até a vida adulta, acaba por demonizar a solitude. Dessa maneira, cria-se a ideia de que estar sozinho é algo triste ou inaceitável. No entanto, é urgente questionarmos esse estigma. A solidão imposta é dolorosa, mas a solitude, o ato de escolher e suportar a própria companhia, é uma conquista de liberdade. Diferente da carência de quem mendiga atenção por não suportar o silêncio interno, a solitude é uma conexão profunda. É o sabor de se conhecer e se amar sem depender do reflexo no outro. Já passou da hora de normalizarmos o fato de que pessoas sozinhas podem viver bem e ser plenamente felizes. Estar sozinho em um restaurante, no cinema ou no pátio de uma escola não deveria ser motivo de pena, mas uma possibilidade legítima.
Se o recreio para alguns é correria e performance, e para outros é espera, leitura ou reflexão, que ele possa ser, acima de tudo, um espaço onde o silêncio individual seja tão respeitado quanto a algazarra coletiva. Se escolhermos estar sós, está tudo bem. Afinal, a melhor companhia que podemos cultivar é, e sempre será, a nossa própria.
Referências Bibliográficas
SILVA, Jessé, Pereira. Conceito de Solidão em Paul Tillich. Revista Eletrônica Correlation, n. 2, 2002.
SOUZA, Felipe. Diferença Entre Solitude e Solidão – Você Conhece a Diferença? (Tillich) 2014. Disponível em <https://www.psicologiamsn.com/2014/08/diferenca-entre-solitude-e-solidao-voce-conhece-diferenca.html>. Acesso em 23 de maio de 2026

