A generic square placeholder image with rounded corners in a figure.


Crônica: A menina que ainda mora em mim


Por: Especial para JN
Data: 06/04/2026
  • Compartilhar:

Por Fabiana Margonato

        Fevereiro é o mês do aniversário da minha mãe. Todo ano, umas duas semanas antes, começo a pensar no presente que vou comprar. Ela é uma pessoa fácil de agradar, mas, mesmo assim, sempre fico da dúvida querendo acertar. O dia do nascimento dela, na certidão, é o dia 28. Mas, há rumores de que o dia em que nasceu mesmo foi o dia 29, e que foi registrada como se tivesse nascido um dia antes para não complicar a contagem dos anos. Quando criança, por conta dos anos bissextos, eu gostava de dizer que logo alcançaria a sua idade. Afinal, quem nasceu no dia 29 de fevereiro só faz aniversário de verdade a cada quatro anos.

Deixando o dia de lado e voltando ao presente, depois de pensar bastante, esse ano resolvi, ao invés de comprar alguma coisa, escrever sobre ela. Dessa vez, resolvi dar um presente bem genuíno. Minhas palavras são uma tentativa de colocar em um potinho e embrulhar tudo o que sinto e muitas vezes não consigo dizer. Nunca escrevi sobre minha mãe. E a primeira vez sempre me deixado nervosa.

Então vou começar do começo. Quando nasci, ela tinha 25 - o que, nos tempos atuais, seria uma menina para a maternidade. Naquela época, era uma idade considerada madura para tamanha responsabilidade.

Eu, enquanto criança, fui dócil e amável, mas, na adolescência, não tão dócil e amável como poderia ter sido. Ela, com seu temperamento fleumático, deve ter penado um bom tanto pra criar uma filha altamente sanguínea com uma pitada colérica, como essa que aqui escreve. Na minha infância, sem jamais imaginar essas coisas de temperamento, às vezes me perguntava o porquê de minha mãe não ser aquela pessoa empolgada, falante, como algumas outras pessoas que eu conhecia.

E eu gostava de ser solta e de me divertir lendo e descobrindo lugares e pessoas novas por onde passava. Me lembro que fazia isso desde os meus seis ou sete anos. Minha irmã e as outras meninas da nossa idade gostavam de brincar de bonecas e de trocar papéis de carta. Eu, fugindo disso, gostava de me esconder na despensa de casa para ler, ir à biblioteca pesquisar em livros e sair para conhecer o mundo e novas pessoas. Essa era a minha diversão.

Difícil para ela ter uma filha não convencional e cheia de energia. Muitas vezes não nos entendíamos por conta dos diferentes temperamentos e modos de pensar sobre a vida. Mas o que eu não percebia e que apenas hoje percebo é a sua presença constante zelando por mim. Às vezes, eu não a interpretava bem e não conseguia entender suas motivações. Só hoje, assim como ela, mãe de três, percebo que, mesmo de modos inesperados, era o seu jeito de cuidar de mim.

Um exemplo disso foi na semana que antecedeu o meu casamento. Ela, entre uma coisa e outra, parou por um instante e me disse:

- Tem certeza de que é isso mesmo?

- Como? Não sei se estou compreendendo. – Foi a minha resposta para o momento e, até hoje, não respondi ao que ela me perguntava.

        Não entendi na hora o que minha mãe quis me dizer com aquela pergunta. Naqueles dias eu, preocupada com o vestido de noiva, a festa e todos os outros detalhes do grande dia, pensei em como ela poderia me fazer uma pergunta dessas em um momento desses. Mas hoje eu entendo que, nesse momento, ela fez uma coisa que somente uma mãe tem a coragem e o dever de fazer: dizer o que não é gostoso e nem fácil de ouvir, mas que precisa de fato ser dito. E eu a agradeço por isso.

A fala de minha mãe é um excelente exemplo do exercício do direito – e do dever – que toda mãe tem de dizer as coisas necessárias – agradáveis ou não –independentemente do momento. Passados vários anos, me lembro desse dia como uma das numerosas vezes em que ela fez o que precisava para fazer o certo. Afinal, nas vésperas do meu casamento, estar consciente do que eu realmente queria era infinitamente mais importante do que o vestido, a festa, os convidados e todos os outros detalhes. E essa é uma aptidão exclusiva das mães, que hoje eu entendo. Enxergar as coisas muito antes que os filhos possam perceber. E ela era mestra em fazer isso.

         Hoje em dia, anos depois, olho para meus filhos e me vejo a criança que um dia fui. Volto à infância e revivo em pensamentos que brotam de algumas das memórias mais vivas que me devolvem àquela época. E esses pensamentos e sentimentos, quase sempre estão atrelados a ela. Um exemplo que lateja em minhas veias até hoje são as lembranças do que acontecia no colégio em que eu e meus irmãos estudávamos.

Minha mãe era professora de Ciências. Ela estava perto, mas ao mesmo tempo não podíamos nos falar o tempo todo. A memória mais recorrente que tenho desses anos é a de quando, entre as aulas, ou indo para a Educação Física, eu gostava de andar pelos corredores dos blocos procurando por minha mãe. Andava de sala em sala tentando escutar a sua voz. Eu caminhava bem devagar nos corredores dos blocos e torcia para que as portas estivessem fechadas e que eu pudesse escutar sua voz sem que ela percebesse. Quem sabe assim, conseguiria escutar também um pouco das batidas do seu coração.

Eu, embora sempre tenha sido uma criança autônoma, vivendo dentro do meu mundo particular, no fundo mesmo, procurava por ela até mesmo nos momentos em que podia sair correndo fazendo as artes de criança pela escola. São memórias que nunca vou esquecer, por mais que o tempo passe.

Hoje, anos depois de ter se aposentado como professora, é ela quem me inspira quando tento lutar com o meu maior medo: morrer antes da hora e deixar os meus filhos sem mãe. Acho que esse é o maior medo que toda mãe tem. Mas, quando o coração aperta pelas adversidades da vida, vou até a casa dela e apenas a observo. Por um momento, volto a ser aquela menininha procurando pela mãe sala a sala no grande colégio. E, quando encontro, olho para ela e vejo uma mulher forte, que superou muitas dificuldades na vida.

Esse é o meu maior incentivo para seguir em frente com coragem. Seu exemplo me possibilita encarar os desafios, acreditando que, de um jeito ou de outro, as coisas ficarão bem. Sua vida e sua história são o que me deixa segura.   

Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.

Instagram: fabiana_margonato

·       


Anuncie com Jornal Noroeste
A caption for the above image.


Veja Também


smartphone

Acesse o melhor conteúdo jornalístico da região através do seu dispositivos, tablets, celulares e televisores.