Mais da metade dos usuários de IA fala sobre sentimentos; psiquiatra alerta para limites da tecnologia
No Setembro Amarelo, Danillo Bastos explica por que respostas imediatas e aparentemente neutras não substituem a psicoterapia nem as relações humanas
(Foto: Divulgação) Psiquiatra Danillo Bastos alerta que a inteligência artificial pode oferecer respostas imediatas, mas não substitui a psicoterapia nem as relações humanas
Mais da metade dos usuários de ferramentas de inteligência artificial no Brasil já recorre à tecnologia para tratar de sentimentos e emoções. Segundo a terceira edição da Pesquisa Privacidade e Proteção de Dados Pessoais, divulgada pelo Cetic.br, 54% dos entrevistados afirmaram compartilhar esse tipo de informação com as plataformas. O levantamento ouviu 2.500 usuários de internet com mais de 16 anos, em todas as regiões do país.
Os dados mostram que o uso profissional ou acadêmico ainda é o mais frequente, mencionado por 73% dos participantes. No entanto, 58% compartilham preferências e gostos pessoais, 52% fornecem dados de saúde, como sintomas e exames, e 50% enviam fotos próprias ou de pessoas conhecidas. Para o psiquiatra Danillo Bastos, os números chamam atenção para uma relação que se torna cada vez mais íntima entre usuários e ferramentas digitais.
“A IA está sempre disponível, responde imediatamente e transmite uma impressão de neutralidade. Isso combina com uma sociedade que tem cada vez menos paciência para esperar uma resposta. Mas essa neutralidade não deve ser vista necessariamente como algo benéfico, porque a ferramenta tende a evitar o confronto e a contrariar pouco o usuário”, explica.
Na avaliação do médico, esse aparente conforto pode levar a pessoa a buscar validação para aquilo que já pensa, sem refletir profundamente sobre as causas do próprio sofrimento. “A inteligência artificial responde com base em treinamentos e tende a trabalhar com características gerais. Já a psicoterapia exige individualização, vínculo, confiança e uma conexão empática e ativa”, afirma.
Danillo esclarece que é importante diferenciar desabafo de tratamento. “Psicoterapia não é apenas desabafar. É um processo no qual a pessoa, guiada por um profissional, consegue identificar padrões de comportamento relacionados ao sofrimento, muitas vezes ainda não percebidos por ela.”
Vínculo humano
O médico destaca a importância do vínculo humano. “O ambiente virtual pode trazer proximidade, mas não substitui a conversa pessoal, o abraço, o toque ou o aperto de mão. Existe o risco de as pessoas se sentirem cada vez mais solitárias, apesar de desabafarem cada vez mais com uma máquina”, observa.
Isso não significa que a tecnologia não possa ser útil. O psiquiatra explica que a IA pode ajudar a organizar o raciocínio, operacionalizar tarefas, estruturar roteiros, estimular a criatividade e reunir informações objetivas. O cuidado está em utilizá-la de maneira complementar, com comandos específicos e checagem das respostas.
“A IA pode complementar determinadas atividades e decisões, mas não foi desenvolvida para substituir o julgamento humano, o atendimento profissional ou os vínculos afetivos”, ressalta.
Autodiagnóstico e exposição de dados
Entre os riscos do uso da IA estão a possibilidade de respostas imprecisas, o reforço de interpretações equivocadas, o autodiagnóstico e a exposição de informações sensíveis. Como as plataformas são treinadas a produzir respostas mesmo quando não dispõem de informações suficientes, o conteúdo pode parecer convincente sem estar correto.
“Se a pessoa não conhece o assunto, pode aceitar uma aproximação como verdade. Isso pode reforçar uma opinião equivocada e levar a autodiagnósticos. É necessário procurar outro profissional, capaz de fazer uma avaliação individualizada”, alerta Danillo.
O envio de relatos íntimos, exames, sintomas e fotografias também exige cautela. “O usuário pode ter uma sensação de privacidade e proteção, mas não sabe exatamente onde aquelas informações serão armazenadas, quem poderá acessá-las ou como serão utilizadas. Dados sensíveis não devem ser compartilhados com essas ferramentas”, orienta.
Sinal de alerta
Segundo o psiquiatra, o limite pode ter sido ultrapassado quando a pessoa prefere conversar exclusivamente ou durante a maior parte do tempo com a IA, começa a se afastar de familiares e amigos ou passa a tomar decisões importantes apenas com base nas respostas da plataforma.
“O isolamento tende a ampliar sofrimentos emocionais e transtornos psiquiátricos. Quando a IA substitui conversas reais, afetos mútuos e a procura por profissionais, seu uso deixa de ser complementar e passa a representar um risco”, afirma.
Em uma crise emocional, a tecnologia também não consegue avaliar integralmente o contexto, acompanhar a pessoa ou intervir como fariam um profissional e uma rede de apoio. No contexto do Setembro Amarelo, Danillo reforça que a principal orientação é não enfrentar o sofrimento de forma isolada.
“Uma conversa com a inteligência artificial jamais substitui uma conversa real. A tecnologia pode indicar informações, mas o cuidado em saúde mental depende de vínculo, avaliação individualizada e apoio humano”, conclui.

