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Culpa


Por: Fabiana Margonato
Data: 24/08/2026
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O silêncio falava dentro do carro. Eu e meu pai – como em todas as outras terças – íamos juntos a caminho do clube.

          Lembro até hoje do cheiro daquele caminho. Meu pai, com suas blusas, quase sempre quieto, pensando. Éramos de poucas palavras. Sua presença era, por si só, suficientemente marcante para mim.

          Eu, às vezes, era distraída. E, naquele dia, o silêncio estava diferente. Havia um barulho ritmado que eu não entendia de onde vinha.

          Quase como o tic-tac do relógio. Mas não era. Era uma coisa muito diferente.

          Meu pai não falava, e eu tentava decifrar seus pensamentos. Também não ousei perguntar o que ele achava que aquele barulho era.

          E aquele som estranho só parou quando estacionamos.

          Assim que paramos, sua voz foi direta:

          - Me dá a blusa.

          - Blusa?

          Era uma noite gelada lá fora. Mas, dentro do carro, estava quente demais.

          Ele tirou a blusa e me deu o casaco quando saímos. Eu fechei a porta rápido.

          O que eu não percebi é que segurava a roupa pela manga, enquanto o restante ficou preso para fora da porta antes de sairmos com o carro.

          - Anda, a minha blusa!

          - Blusa?

          Foi aí que entendi o que eu tinha feito.

          Dei a ele o que sobrou: a manga, o zíper – a única parte que não se desfez – e aquele monte de fiapos estatelados.

          Cada nhec-nhec era a roda estilhaçando cada vez mais a blusa preferida do meu pai.

          Meu pai olhou uma vez e resolveu não olhar mais. Apenas o escutei respirando bem fundo.

          Seria muito melhor ter recebido uma bronca. Mas não tive esse privilégio.

          Tentei falar, mas não saiu nada. Apenas o começo:

          - Desculp....

          Sequer consegui terminar.

          E precisei lidar sozinha com aquilo.

          Sem querer – ou talvez sem saber – o silêncio do meu pai me ajudou a suportar.

          Não só aquele episódio, mas esse e tantos outros na vida em que a culpa grita, mesmo quando não existem palavras.

          Até que entendi que, quase sempre, a culpa é de ninguém.

 

Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.

Instagram: @fabiana_margonato

Fabiana Margonato

Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três. Instagram: fabiana_margonato


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