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Todos debaixo do pecado


Por: Fernando Razente
Data: 13/01/2026
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Por Seminarista Fernando Razente[1]

 

Romanos 3.9 (ARA): “9 Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado”

 

No último texto desta coluna, meditamos nos versículos 7 e 8 de Romanos 3. Neles, Paulo lida com as falsas conclusões a respeito da doutrina da graça. A preocupação paulina era solapar toda artimanha religiosa que procura inferir práticas pecaminosas a partir de doutrinas verdadeiras (v. 7; cf. Rm 6.1-2) ou caluniar o verdadeiro sentido da graça de Deus (v. 8; cf. Jd 4). Em tudo isso, vemos a perversidade do coração humano diante da revelação da graça de Deus (Jr 17.9).

Seja a chamada Revelação Natural do caráter de Deus – na criação de maneira geral – (Sl 19.1-4; Rm 1.18-20), seja a Revelação Sobrenatural da salvação em Cristo – nas Escrituras, de modo peculiar – (Hb 1.1-2; 2Tm 3.15-17), a resposta humana natural, sem a intervenção do Espírito Santo, é incredulidade, idolatria, depravação, hipocrisia e libertinagem (Rm 1.21-32; 1Co 2.14; Ef 2.1-3).

E diante de tudo isso que Paulo vem demonstrando, do versículo 18 do capítulo 1 até o versículo 8 do capítulo 3, ele finalmente declara, no início do versículo 9: “Que se conclui?” (Rm 3.9). Ou seja, qual a conclusão a que podemos chegar depois de vermos que gentios e judeus rejeitam a revelação de Deus na natureza e na Escritura e vivem de forma contrária à sua vontade? (Rm 1.18; 2.1-3; 2.17-24). O que se pode concluir disso?

E Paulo acrescenta ainda uma segunda indagação: “Temos nós qualquer vantagem?” (Rm 3.9). O “nós”, aqui, deve ser entendido como “nós, os judeus”, o povo da aliança, aqueles que receberam de Deus os seus oráculos, a legislação, o culto e as promessas (Rm 3.1-2; 9.4-5).

Tem o judeu qualquer vantagem sobre o gentio? Tem o judeu algum destaque ou preeminência diante do resto do mundo simplesmente por ser judeu e por ser circuncidado? (Jo 8.33; Gl 5.2-3). Afinal, esse era o pensamento predominante entre os judeus daquela época.

Lembremos de que, quando confrontados por João Batista, os judeus hipócritas se escandalizavam, respondendo que eram filhos de Abraão e que não mereciam tal tratamento (Mt 3.7-9).  Pensavam ter alguma vantagem e, por isso, orgulhavam-se de si mesmos, quando, na verdade, eram miseráveis pecadores como os demais (Lc 18.9-14).

Daí a resposta de Paulo, na sequência do versículo 9, ser um não taxativo: “Não, de forma nenhuma” (Rm 3.9). Observe isso: Paulo não responde apenas “não”, mas “não, de forma nenhuma”, isto é, de modo algum. Não há a mínima chance de alguém pensar com verdade ter alguma vantagem diante de Deus, nem mesmo aqueles que receberam a extraordinária graça de serem os portadores da aliança e da promessa do Messias (Rm 2.28-29; Gl 3.28-29).

Mas por quê? Paulo continua: “pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado” (Rm 3.9). Essa é a resposta bíblica para todos que pensam ter alguma vantagem diante de Deus devido à sua religiosidade (Is 64.6).

Quando voltamos novamente aos capítulos 1, 2 e ao início do capítulo 3, vemos Paulo construindo uma descrição profunda da depravação e da indesculpabilidade tanto dos gentios quanto dos judeus (Rm 1.18-32; 2.1-29; 3.1-8).

Ele demonstra, por meio dessa descrição inspirada, que ambos os grupos – que representam a totalidade da humanidade – estão “debaixo do pecado” (Rm 3.9; Gl 3.22).

E é importante dizer que estar “debaixo do pecado”, nas Escrituras, não é simplesmente ser influenciado por ele, mas ser dominado, subjugado e maculado em todas as suas partes. Em outras palavras, estar debaixo do pecado é ser escravo dele (Jo 8.34; Rm 6.16-20). O livre-arbítrio é uma ficção teológica que não encontra respaldo na Revelação bíblica! Não há arbítrio ou vontade humana natural que não seja controlada pelo pecado.

Por isso, Paulo, nos versículos 10 a 18, mostrará em detalhes – o que veremos verso a verso nos próximos textos – a condição da humanidade sem Cristo e cativa do pecado (Rm 3.10-18; Sl 14.1-3; Is 59.7-8).

Portanto, a conclusão do raciocínio inspirado de Paulo do capítulo 1 ao 3 é a depravação total da raça humana: todos, sem exceção alguma, são escravos do pecado e, por isso, precisam desesperadamente de um Salvador que os liberte desta condição (Rm 3.23; Ef 2.4-5). Todos precisam desesperadamente de Cristo (At 4.12).

Nem o imoral, nem o moralista hipócrita pode se salvar com base em méritos próprios (Rm 2.1; 3.20). Estão debaixo do pecado, precisam de um Salvador imaculado, que é Jesus Cristo, o Senhor (Hb 4.15; 1Pe 1.18-19).

Agora, por fim querido leitor(a), permita-me apresentar duas aplicações da doutrina da depravação total. A primeira é que (1) a doutrina da depravação total destrói toda autoconfiança espiritual (Pv 16.5; Jr 9.23-24).

A doutrina da depravação total nos confronta diretamente com nossa tendência natural de confiar em privilégios religiosos (Fp 3.4-7). Assim como os judeus do primeiro século se apoiavam na circuncisão, na descendência de Abraão e na posse da Lei (Rm 2.17-20), nós hoje podemos nos apoiar em nossa membresia na igreja, em cargos, em tradição familiar cristã ou em um comportamento externamente correto (Mt 7.21-23) para a nossa justificação.

Mas Paulo nos ensina que nada disso nos concede vantagem diante de Deus (Rm 3.27-28). Estar “debaixo do pecado” significa que, por nós mesmos, não temos recursos para agradar a Deus ou reivindicar qualquer mérito (Rm 8.7-8). A única postura legítima diante do Senhor é a humildade, o arrependimento sincero e a fé exclusiva em Cristo, como aquele que, com sua graça, nos tira do jugo do pecado e nos torna filhos de Deus (Jo 1.12–13; Rm 6.22; Gl 4.4-7).

Lembre-se: você não foi a Cristo porque teve mais sabedoria do que os demais pecadores dentre a humanidade; você também se encontrava “debaixo do pecado”, mas foi pela livre graça soberana de Deus – e não por um suposto livre-arbítrio – que você foi resgatado daquela condição. Portanto, mantenha-se humilde na presença do Senhor.

A segunda aplicação é que (2) a doutrina da depravação total nos mostra a urgência do evangelho para todos (Mt 28.18-20). Lembremos que o objetivo de Paulo ao escrever essa epístola era convencer a igreja de Roma a apoiar financeiramente e espiritualmente o seu desejo de ir para a Espanha para pregar o evangelho (Rm 15.24, 28).

Para isso, Paulo precisava mostrar aos romanos a real condição da humanidade sem Cristo (Ef 2.12). E, como ele demonstrou que tanto judeus quanto gentios estão igualmente debaixo do pecado, então toda a humanidade compartilha da mesma necessidade urgente de salvação! (Rm 10.12-13).

Logo, o mundo inteiro precisa de Cristo – inclusive aqueles que se consideram “bons”, “religiosos” ou “crentes desde sempre” (Mc 2.17). Logo, precisamos pregar o evangelho a toda criatura (Mc 16.15). O zelo pela proclamação integral do evangelho é a melhor resposta diante da doutrina da depravação total (2Co 5.14-20). É somente quando somos tomados pela verdade de que todos pecaram e carecem da glória de Deus que somos estimulados – por amor às almas perdidas – a proclamar o caminho da salvação em Jesus Cristo (Rm 3.23–24; Rm 1.16).

Ore comigo agora:

“Senhor Deus santo e justo, reconhecemos que estávamos debaixo do pecado e nada tínhamos em nós mesmos que pudesse nos justificar diante de Ti. Por isso, o Senhor enviou seu Filho amado, Jesus Cristo, para viver e morrer para a nossa justificação. Com o evangelho, Senhor, quebra toda autoconfiança espiritual, humilha o nosso coração e conduz-nos ao arrependimento sincero e diário. Leva-nos a confiar unicamente na graça de Cristo, nosso único Salvador, e desperta em nós zelo para anunciar o evangelho a todos os que ainda precisam da tua salvação.

Em nome de Jesus. Amém.”

 


[1]Diácono ordenado da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Paranavaí, Congregação de Nova Esperança, e seminarista do Seminário Presbiteriano do Sul – Extensão de Curitiba. Professor de Ciências Humanas, Filosofia e Ciência da Religião. Marido de Renata Minelli e pai de Edith e Teófilo.

Fernando Razente

Diácono ordenado da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Paranavaí, Congregação de Nova Esperança, e seminarista do Seminário Presbiteriano do Sul – Extensão de Curitiba. Professor de Ciências Humanas, Filosofia e Ciência da Religião. Marido de Renata Minel


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