Não há justo, nem um sequer

Por Seminarista Fernando Razente[1]
Romanos 3.10 (ARA): “(...) como está escrito: Não há justo, nem um sequer,”
No texto da semana passada, vimos Paulo concluir, no versículo 9, que todos – judeus e gentios – estão debaixo do pecado. Mas agora, o apóstolo Paulo dá um passo decisivo em sua argumentação. Ele ancora a doutrina da depravação total na autoridade final das Escrituras.
O versículo 10, que iremos meditar hoje, marca o início de uma longa citação do Antigo Testamento (cf. Rm 3.10-18), cujo objetivo é demonstrar a condição moral e espiritual da humanidade caída sem Cristo.
Paulo começa com a expressão “como está escrito”. Isso nos comunica que Paulo não está oferecendo uma opinião pessoal, nem uma mera análise cultural da condição humana. Paulo está apelando para a revelação especial e inspirada de Deus feita escrita, especialmente aos Salmos e aos Profetas (Sl 14.1-3; Sl 53.1-3; Ec 7.20).
A doutrina da depravação total não nasce de especulações filosóficas pessimistas ou de uma teologia calvinista, mas da leitura fiel das Escrituras. Está escrito, sendo parte da revelação especial de Deus ao seu povo.
E, o conteúdo da afirmação é: “Não há justo, nem um sequer.” Observe que Paulo não diz que há poucos justos, nem que a justiça humana é insuficiente, mas que não existe nenhum justo diante de Deus. Ora, se no v.9 ele disse que todos estão debaixo do pecado, é mais do que coerente uma declaração como essa.
O termo “justo” aqui não se refere a uma justiça meramente civil ou comparativa – isto é, ser “melhor” do que outros homens porque sigo certas regras humanas e escrúpulos sociais –, mas à justiça conforme o padrão santo da lei de Deus (cf. Rm 7.12).
À luz desse padrão perfeito, ninguém é justo, ninguém é reto, ninguém é capaz de viver em perfeita harmonia com a Palavra de Deus em todo tempo e em todas as suas facetas. A inclusão da expressão “nem um sequer” reforça isso, e elimina qualquer exceção imaginária (como muitos pensam hoje, especialmente os católicos marianos).
Paulo fecha completamente a porta para toda tentativa de autopreservação espiritual. Não existe uma elite moral, não existe um grupo naturalmente mais inclinado ao bem, não existe um ser humano que, por natureza, possa se apresentar justo diante do tribunal divino. Todos estão maculados pelo pecado, e carecem de justiça, de retidão para serem aceitos por Deus.
Esse versículo destrói frontalmente duas ilusões profundamente arraigadas no coração humano. A primeira é a ilusão da bondade natural. Desde a queda, o homem insiste em acreditar que é essencialmente bom, e que seus erros são apenas desvios ocasionais (Gn 8.21). Paulo, porém, afirma o contrário: o problema do homem está em sua condição. Ele não é justo.
A segunda ilusão é a da justiça religiosa. Muitos, assim como os judeus do primeiro século, confiam em práticas externas, em tradição religiosa, em cargos eclesiásticos ou em um histórico moralmente aceitável (Lc 18.11-12) para serem aceitos por Deus, para conquistarem uma justiça baseada em obras.
Mas ao declarar que “não há justo” – seja religioso ou não – Paulo começa a preparar cuidadosamente o terreno para o que virá na sequência, isto é, a revelação gloriosa da justiça que vem fora do homem e a favor do homem, a justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo (cf. Rm 3.21-22).
Paulo nos dá aqui um modelo de evangelização: antes que o evangelho seja entendido como boa notícia, ele precisa ser recebido contra o pano de fundo da condenação universal! Primeiro, devemos pregar a falência moral da humanidade diante de Deus, e só depois apresentar o amor e a graça de Jesus e sua justiça que nos justifica.
É somente quando o homem reconhece que não possui justiça própria, que ele está pronto para receber a justiça imputada de Cristo (cf. 2Co 5.21).
Permita-me, por fim, apresentar duas breves aplicações desse versículo.
A primeira é que (1) Romanos 3.10 nos ensina a cessar toda tentativa de autodefesa espiritual. Diante de Deus, não há argumentos, não há comparações favoráveis, não há currículo moral que se sustente. A postura correta é o silêncio humilde e a confissão de completa incapacidade de se justificar.
A segunda aplicação é que esse versículo nos conduz diretamente à centralidade de Cristo. Se não há justo algum, então precisamos desesperadamente daquele que é o Justo por nós (cf. At 3.14). Jesus Cristo não apenas viveu sem pecado, mas ofereceu sua justiça perfeita em favor de pecadores injustos, como eu e você, e é apenas pela fé na justiça imputada de Cristo que somos aceitos por Deus. Fora dele, não há esperança para ninguém, pois não há nenhum justo sequer.
Ore agora comigo, querido(a) leitor(a):
“Senhor Deus santo e justo, confessamos que, por natureza, não há justiça em nós. Somos pecadores, injustos e precisamos de Ti. Ensina-nos a abandonar toda confiança em nós mesmos e a nos lançar unicamente sobre a justiça perfeita de Jesus Cristo. Que a verdade de Romanos 3.10 humilhe nosso coração e exalte o teu Filho, nosso único e suficiente Salvador.
Em nome de Jesus. Amém.”
[1]Diácono ordenado da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Paranavaí, Congregação de Nova Esperança, e seminarista do Seminário Presbiteriano do Sul – Extensão de Curitiba. Professor de Ciências Humanas, Filosofia e Ciência da Religião. Marido de Renata Minelli e pai de Edith e Teófilo.
Fernando Razente
Diácono ordenado da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Paranavaí, Congregação de Nova Esperança, e seminarista do Seminário Presbiteriano do Sul – Extensão de Curitiba. Professor de Ciências Humanas, Filosofia e Ciência da Religião. Marido de Renata Minel
