Tédio e autonomia

Uma das coisas mais comuns de se ouvir, quando se é professor ou pai, é que o estudo é algo chato, entediante. E, de fato, é preciso concordar, ao menos em um primeiro momento, que estudar é uma atividade repleta de momentos chatos. Difícil encontrar alguém que nunca se entediou em uma aula de História ou de Química, especialmente quando o assunto não é familiar ou ainda não compreendido.
Por outro lado, conforme expressam Masschelein e Simons (2019), o tédio pode ser algo pertencente à “condition humaine et scolaire” (p. 129), isto é, o tédio tanto faz parte da condição humana quanto da labuta escolar. Como um pedreiro poderia ter as mãos lisas? Como um cozinheiro nunca se queimaria? Como um professor não ficaria com as vistas cansadas de tanto ler e com a voz ardendo?
De modo semelhante, para que algo seja aprendido, apreendido, é preciso calejar o intelecto, cansar as vistas, do contrário, dificilmente um conteúdo será incorporado à vida da pessoa. Esse caminho, logo se vê, é árduo. Uma casa não é feita do dia para a noite. Assim, torna-se sem sentido a fala: “está chato estudar”. Tudo na vida é acompanhado da chatice, e superar esse estado servirá de fortalecimento à pessoa.
Não significa, entretanto, que as aulas devem ser chatas e a vida entediante, como também alertam Masschelein e Simons. Ninguém aguenta (ainda que tenha que suportar) alguém cuja aula é só feita de quadro e saliva. Por mais que o professor seja hábil com o quadro e a saliva, é preciso diversificar. Todavia, isso não implica uma submissão do professor ao aluno, e da escola à sociedade do entretenimento. Tais submissões até poderiam superar o tédio, mas criariam um problema ainda maior: a luta contra a monotonia seria ao mesmo tempo acompanhada da luta contra a autonomia.

