A generic square placeholder image with rounded corners in a figure.


Supergirl e Toy Story 5


Por: Odailson Volpe de Abreu
Data: 02/07/2026
  • Compartilhar:

O fim do semestre sempre é um período em que há mais tarefas do que tempo livre, bem por isso, acabei ficando em débito nas últimas semanas em relação à Coluna Sétima Arte. Mas o mundo do entretenimento mantém seu ritmo independente do quanto estamos atarefados ou não, tanto, que muita coisa de peso estreou nos cinemas nestes últimos dias. Pensando nisso, a edição dessa semana traz dois filmes que, embora pertençam a universos completamente distintos, cada um à sua maneira, falam sobre personagens tentando encontrar seu lugar em um mundo que mudou ao redor deles. O primeiro é sobre uma heroína que nunca se sentiu em casa desde a destruição de seu planeta. Já o segundo, é o nostálgico retorno de um grupo de brinquedos que percebe que a infância da nova geração já não funciona exatamente como antes. Essa semana, você vai saber um pouco mais sobre Supergirl e Toy Story 5.

Vamos começar pela nova aposta da DC, Supergirl. É difícil não enxergar o potencial que existia em uma aventura solo de Kara Zor-El. Isso porque, durante anos, a personagem foi tratada quase como uma extensão do Superman. Mas a verdade é que suas experiências são radicalmente diferentes. Enquanto Clark Kent cresceu entre humanos e construiu sua identidade na Terra, Kara chegou ao planeta carregando lembranças concretas de Krypton, de sua cultura e de tudo o que perdeu. Essa diferença é o coração de Supergirl e também seu principal acerto.

O filme acompanha a heroína ao lado de Ruthye, uma jovem determinada a encontrar o mercenário responsável pela morte de seus pais. O encontro entre as duas estabelece um interessante paralelo entre luto, raiva e desejo de vingança. O problema é que o roteiro raramente se permite permanecer nesses temas por muito tempo. Em vez disso, prefere conduzir a narrativa por uma sucessão de viagens espaciais, perseguições e confrontos que, aos poucos, passam a transmitir uma sensação de repetição. Há momentos em que o filme parece prestes a se tornar uma reflexão mais íntima sobre trauma e pertencimento. Nessas ocasiões, especialmente nos breves retornos a Krypton, a produção encontra sua melhor versão. Infelizmente, logo em seguida a história volta a acelerar e se transforma em uma aventura genérica, incapaz de explorar plenamente a riqueza emocional de sua protagonista.

Ainda assim, existe um motivo bastante convincente para assistir ao filme no cinema e ele atende pelo nome de Milly Alcock. Todo e qualquer fã de Game of Thrones que esteja, atualmente, antenado na prequela intitulada Casa do Dragão sabe quem é Milly Alcoock e conhece o seu potencial. A atriz compreende perfeitamente quem é essa nova Kara Zor-El. Sua interpretação constrói uma personagem impulsiva, por vezes agressiva, mas sempre profundamente humana. Existe tristeza em seu olhar, uma sensação permanente de não pertencimento, como se ela estivesse tentando encontrar um lugar que talvez nem exista mais. É uma performance que sustenta boa parte do filme e deixa a impressão de que a DC encontrou uma intérprete ideal para a personagem.

Já Jason Momoa marca seu retorno ao suposto novo Universo Cinematográfico da DC e também merece destaque. Seu Lobo surge em cena com uma energia divertida e caótica que imediatamente chama atenção. Embora sua participação seja limitada e pareça um pouco desconectada da trama principal, o ator se diverte no papel e entrega alguns dos momentos mais leves da produção. Os demais personagens acabam prejudicados pela própria estrutura do roteiro. Ruthye possui uma motivação forte, mas recebe pouco espaço para se desenvolver além de sua função narrativa. O mesmo acontece com Krem, um antagonista que jamais se torna tão ameaçador quanto o filme gostaria.

Nem mesmo as cenas de ação conseguem compensar essas limitações. Falta criatividade visual aos combates e a direção de Craig Gillespie parece excessivamente funcional. Há explosões, perseguições e grandes confrontos, mas raramente a sensação de perigo ou encantamento que uma aventura espacial desse porte deveria proporcionar. Talvez por isso a recepção ao longa tenha sido apenas moderada. Seu desempenho nas bilheterias ficou abaixo das expectativas da Warner Bros., e a resposta do público e da crítica tem sido marcada mais pela simpatia do que pelo entusiasmo. Em um calendário que ainda reserva estreias de grande apelo comercial nas próximas semanas, o caminho de Supergirl parece desafiador.

Porém, seria injusto (e precipitado) classificá-lo como um fracasso. O filme possui uma protagonista cativante e algumas boas ideias. Seu maior problema é não confiar o suficiente nelas, mas o público, em geral, nutri um grande apreço por tudo o que gira em torno da figura do Superman e isso inclui, é claro, a prima dele.

Agora, para quem procura outra experiência nas salas de cinema, a alternativa mais atraente talvez seja justamente Toy Story 5. Vamos ser sinceros, a princípio, a simples existência de um quinto capítulo parecia desnecessária. Afinal, a franquia da Pixar já havia encontrado despedidas perfeitas mais de uma vez. Ainda assim, o novo filme descobre uma questão genuinamente contemporânea para seus personagens. Bonnie está crescendo em uma geração marcada pela tecnologia, pelas redes sociais e pela necessidade de pertencimento digital. Quando um tablet passa a ocupar um espaço central em sua vida, os brinquedos se veem diante de uma pergunta inevitável: qual é o seu papel em uma infância que se relaciona de maneira diferente com o brincar?

A grande virtude do filme está em não transformar a tecnologia em vilã. O roteiro entende que as telas podem ser ferramentas de aprendizado e socialização, mas também reconhece os riscos do isolamento e da dependência emocional que elas podem provocar. Em meio a essa discussão, Jessie ganha o arco dramático mais interessante da produção. Sua jornada, marcada pelo medo de ter se tornado obsoleta, recupera parte da melancolia que sempre definiu os melhores momentos da franquia.

É verdade que Toy Story 5 também sofre com um certo excesso de acontecimentos e, em alguns momentos, apressa emoções que mereciam mais tempo para amadurecer. Ainda assim, preserva a capacidade de emocionar e de lembrar o espectador que crescer não significa abandonar a infância, mas carregá-la de uma forma diferente.

Vale a penas assistir a algum dos dois filmes no cinema? Para ser sincero, no fim das contas, tanto Supergirl quanto Toy Story 5 são filmes imperfeitos, porém sinceros em suas intenções. Um apresenta uma heroína que ainda busca encontrar seu espaço no novo universo da DC. O outro observa, com ternura, as transformações inevitáveis do tempo. Em uma temporada de blockbusters frequentemente preocupados apenas em oferecer espetáculo, talvez seja justamente essa humanidade que faça valer a visita ao cinema. Boa sessão!

Odailson Volpe de Abreu


Anuncie com Jornal Noroeste
A caption for the above image.


Veja Também


smartphone

Acesse o melhor conteúdo jornalístico da região através do seu dispositivos, tablets, celulares e televisores.