Sobrenatural: Agora Entre Nós

Chegar ao sexto filme de uma franquia de terror não é pouca coisa. Sobrenatural conseguiu atravessar mais de uma década, mudou de personagens, voltou ao passado, retomou histórias e, de algum modo, continua encontrando motivos para retornar ao “além”. Depois de encerrar a trajetória da família Lambert em Sobrenatural: A Porta Vermelha, a série agora decide abrir espaço para uma nova família. Sobrenatural: Agora Entre Nós tenta fazer isso sem abandonar completamente aquilo que já conhecemos, e talvez esteja justamente aí seu maior acerto e também seu principal problema. Nesta semana, a Coluna Sétima Arte revela tudo o que você precisa saber antes de assistir a esse filme.
A história acompanha Gemma, interpretada por Amelia Eve, uma mãe que vive com a filha Maya na mesma casa onde passou a infância. O imóvel guarda lembranças dolorosas relacionadas à mãe, Ingrid, e não demora para que o passado volte a incomodar. Primeiro nos sonhos, depois de maneira cada vez mais concreta. Gemma descobre que possui uma habilidade bastante incomum dentro da mitologia da franquia. Ela consegue atravessar o “além”, mas também pode trazer de lá aquilo que deveria permanecer do outro lado.
É uma mudança simples, mas bastante interessante. Nos filmes anteriores, o medo quase sempre estava relacionado à possibilidade de alguém entrar no “além” e não conseguir retornar. Agora, o perigo está justamente na possibilidade de que alguma coisa faça o caminho inverso. Bem por isso, o filme encontra uma maneira inteligente de mexer em uma das regras mais conhecidas da própria franquia.
O problema é que uma boa ideia nem sempre encontra um bom filme para acompanhá-la. Sobrenatural: Agora Entre Nós demora bastante para entender o que pretende fazer com essa nova possibilidade. Gemma atravessa o “além” algumas vezes, encontra figuras assustadoras, retorna para casa e tenta compreender o que está acontecendo. A repetição começa a pesar justamente porque a história deveria ganhar velocidade à medida que o mistério se esclarece. Em vez disso, há um trecho considerável em que temos a impressão de que o filme está andando sem sair do lugar. E isso é particularmente prejudicial para um filme de terror. Se a narrativa não avança, o medo também começa a perder força. Os sustos continuam aparecendo, alguns deles bastante eficientes, mas a tensão que marcou os melhores momentos da franquia está longe de ser constante. Há cenas em que o espectador consegue perceber exatamente quando alguma coisa vai surgir, e outras em que determinadas criaturas acabam provocando mais estranheza do que medo.
Ainda assim, Jacob Chase, responsável pela direção e pelo roteiro, demonstra saber onde está pisando. A casa de Gemma é aproveitada de maneira competente, assim como os corredores, as janelas, a chuva e os ambientes escuros. A fotografia ajuda a construir aquela sensação de que existe sempre alguma coisa escondida no fundo do quadro. O trabalho de câmera também encontra soluções interessantes em alguns momentos, especialmente nas cenas do sofá e do consultório odontológico, que estão entre as melhores do longa. São justamente essas sequências que mostram o filme que Sobrenatural: Agora Entre Nós poderia ter sido. Quando se arrisca um pouco mais, a produção deixa de depender apenas do velho susto acompanhado por um aumento repentino da trilha sonora e consegue criar situações genuinamente desconfortáveis.
Quem segura a história nos momentos mais frágeis, entretanto, é Amelia Eve. A atriz constrói uma Gemma convincente, principalmente porque não transforma a personagem em mais uma vítima assustada diante de acontecimentos sobrenaturais. Existe um desgaste emocional crescente, uma mulher tentando compreender aquilo que está acontecendo enquanto percebe que sua própria existência parece estar ligada ao problema. É uma atuação que dá ao filme uma dimensão que o roteiro nem sempre consegue alcançar. Island Austin também funciona bem como Maya, principalmente na relação com a mãe. E a volta de Lin Shaye como Elise Rainier é, naturalmente, um presente para quem acompanha a franquia desde o começo. Elise aparece menos do que em outros capítulos, mas continua sendo uma personagem importante para estabelecer a ligação entre o que Sobrenatural foi e aquilo que pretende ser daqui para frente.
Essa transição, aliás, é uma das coisas que mais me interessaram no filme. A família Lambert ficou para trás, mas não foi simplesmente apagada. A nova história acontece depois de A Porta Vermelha e reconhece os acontecimentos anteriores. É uma escolha acertada, porque permite apresentar novos personagens sem fingir que os cinco filmes anteriores nunca existiram. Sendo assim, a expansão da mitologia talvez seja o aspecto mais promissor deste sexto capítulo. Elise ganha novas possibilidades dentro do “além” e Gemma passa a representar uma espécie de porta entre os dois mundos. A ideia abre caminhos interessantes para futuros filmes, embora aqui ela seja melhor aproveitada no terceiro ato do que durante boa parte da narrativa.

E talvez esse seja o maior problema de Sobrenatural: Agora Entre Nós. Quando finalmente encontra seu ritmo, o filme já gastou tempo demais preparando uma história que poderia ter chegado ao seu ponto principal muito antes. O vilão, ligado a um culto e à ideia de retornar da morte, tem potencial, mas aparece tarde demais para receber o desenvolvimento que merecia. Não é, portanto, o filme mais assustador da franquia. Quem espera a atmosfera sufocante do primeiro Sobrenatural provavelmente sairá da sessão um pouco decepcionado. Mas também não considero um capítulo descartável. Há uma boa protagonista, algumas sequências muito bem realizadas e, principalmente, uma tentativa sincera de fazer a franquia avançar.
Vale a pena vê-lo no cinema? Para quem acompanha Sobrenatural há um tempo, sem dúvida. A experiência da sala escura ajuda nos sustos, no som e na construção dos ambientes. Para quem chega agora, talvez seja uma experiência menos interessante, embora o filme consiga explicar sua nova história sem exigir conhecimento absoluto dos capítulos anteriores. Sobrenatural: Agora Entre Nós não devolve à franquia o impacto de seus melhores momentos, mas também não deixa a sensação de que estamos diante de mais uma sequência feita apenas para prolongar uma marca. Existe uma ideia nova tentando encontrar seu espaço e, portanto, mesmo com seus problemas, talvez ainda haja alguma vida do outro lado. Boa sessão!

