SÉRIE EXPOSITIVA EM ROMANOS

Ninguém é justificado pelo cumprimento da lei (Rm 3.19-20)
Por Sem. Fernando Razente
Romanos 3:19-20 ARA: [19] Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus, [20] visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado.
Queridos leitores, o principal interesse do apóstolo Paulo nestes versos e nos anteriores é mostrar, conforme Murray (2003, p. 133) que os judeus, mesmo tendo recebido a lei de Deus “[...] não eram melhores do que os gentios, no que diz respeito aos juízos envolvidos.” Paulo quer nos mostrar que, com base na própria lei, todos – judeus e gentios, isto é a humanidade – estão debaixo de condenação. Primeiro, Paulo argumenta, no v. 19, que: “[...] tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz” essa declaração parece ser bem específica, voltada especialmente para os judeus, aqueles que, como já aprendemos, se gloriavam na lei (Cf. Rm 2.23).
A ideia de “viver na lei” aqui é estar submetido, pelo menos externamente, ao conjunto de preceitos e julgamentos presentes no Antigo Testamento. Em outras palavras, Paulo está dizendo que tudo o que esses preceitos e julgamentos comunicavam, comunicavam especialmente àqueles que diziam viver submetidos à lei, que se gloriavam na lei. Por exemplo: se a lei diz que aqueles que transgredirem-na serão condenados, condenados serão exatamente aqueles que julgam ser capazes de viver submetidos a ela e por meio dela serem aceitos por Deus. Portanto, a lei, em seu conjunto de preceitos e julgamentos, é voltada especialmente para aqueles que acham que são capazes de obedecê-la ou cumpri-la com perfeição. É isso que Paulo está dizendo no início do v. 19.
Mas porque a lei tem essa finalidade? A resposta de Paulo, ainda no verso 19, é: “[...] para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus,”. Note que Paulo transita sutilmente do participar (de sua tratativa do judeu), para o geral. Ao dizer que a lei condena aqueles que dizem ser capazes de viver debaixo dela, ele está concluindo que sua função é que “todo o mundo seja culpável”. Ou seja, se a lei condena os que estão debaixo dela, não só os gentios que distorcem a revelação geral serão condenados, mas os judeus também, que não vivem à altura da lei. Logo, todo o mundo está numa posição de indesculpabilidade perante Deus. Toda boca que pretende se justificar diante do juízo divino se cala.
Aqui percebemos que Paulo retorna ao seu argumento anterior: de que todos – judeus e gentios – são indesculpáveis perante Deus e estão debaixo da escravidão e condenação do pecado. Mas certamente, para os judeus que se vangloriavam na lei, perceber que ela na verdade atuava contra eles como um juiz, foi certamente um grande choque. Afinal, os judeus da época de Jesus e Paulo pensavam que poderiam ser aceitos e declarados justos por Deus com base no cumprimento da lei. É isso que o apóstolo chama de “obras da lei”. Essa era a grande expectativa deles: salvos pelos seus méritos.
Ainda hoje muitas pessoas seguem esse mesmo caminho, e pensam que podem receber o favor, o amor, o perdão e a salvação de Deus com base em como elas vivem, tentando obedecer aos mandamentos, sendo pessoas “boas”, fazendo obras de caridades e outras práticas religiosas com o fim de serem justificados diante de Deus. Mas isso é simplesmente impossível. E é isso que Paulo diz no verso 20, que “[...] ninguém será justificado diante dele por obras da lei,”. Dele quem? Ora, de Deus. Paulo está dizendo que perante a face de Deus – e não dos homens – só se encontram culpados e ninguém pode ser declarado inocente, reto e justo (que é o que justificado significa) por Deus com base em “obras da lei”, ou seja, em suas próprias tentativas de cumprir com perfeição a lei.
Afinal, esse não é o caminho da salvação. A salvação não é alcançada pelo pecador por meio de suas tentativas de cumprir a lei realizando boas obras. E por que não? Paulo responde, no final do v. 20: “[...] em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado.”
A razão do porque a salvação não é fruto de méritos resultantes do cumprimento da lei, é porque, ao tentarmos cumprir a lei, não é mérito que adquirimos, mas sim o conhecimento de nossa própria insuficiência e culpabilidade em não cumprir a lei. Quando o pecador se dispõe a tentar cumprir toda a lei e ser salvo por meio dela, ele descobre que é pecador, incapaz e insuficiente para isso. Ele recebe pleno conhecimento do pecado.
É como um certo ouvinte me disse depois que eu fiz a exposição dos 10 Mandamentos numa Escola Bíblica Dominical: “Fernando, a cada aula eu percebo o quanto estou pecando, e quanto estou distante daquilo que Deus requer de mim.” Bom, é exatamente isso que Paulo está dizendo: que quando somos expostos às exigências da lei de Deus, temos pleno conhecimento de nossa pecaminosidade, descobrimos nossa insuficiência e somos levados a perguntar: como, então, eu posso ser salvo? E a resposta de Paulo está na continuação dos versos, resumidamente no verso 22 de Romanos 3: “[...] mediante a fé em Jesus Cristo”. Os pecadores podem alcançar a salvação não por obras da lei, não com base em seus desempenhos morais, mas pela fé em Cristo Jesus.
Mas o que é crer em Cristo? É confiar que a justiça que nos é necessária para sermos considerados justos e inculpáveis perante Deus é única e exclusivamente resultado da vida perfeita de Cristo e sua morte sacrificial, penal e substitutiva na cruz que expiou os nossos pecados e nos concede a justificação. Crer em Jesus Cristo é receber, pela fé, a graça da salvação proposta por Deus na pessoa e obras do Seu Filho. Ou seja, somos justificados pela fé em Cristo, e não pelo cumprimento da lei!
Portanto, meu chamado a você, querido leitor, é que, à luz disso, você possa desistir de uma vez por todas de ser amado, perdoado e justificado por Deus com base em seu desempenho religioso ao tentar cumprir a lei. Desista disso e olhe agora para Cristo, pela fé, e descanse N’Ele como seu único e suficiente Mediador, que cumpriu a lei perfeitamente em seu lugar, morreu na cruz para pagar a penalidade dos seus pecados e ressuscitou para sua justificação. Receba, pela fé, o que o evangelho da graça te oferece: a certeza de perdão, reconciliação com Deus e vida eterna mediante Jesus Cristo.
Amém.
Fernando Razente
Diácono ordenado da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Paranavaí, Congregação de Nova Esperança, e seminarista do Seminário Presbiteriano do Sul – Extensão de Curitiba. Professor de Ciências Humanas, Filosofia e Ciência da Religião. Marido de Renata Minel
