Por uma emancipação estudantil

Uma das metas essenciais da educação é gerar a emancipação dos alunos. A emancipação, por sua vez, não é um processo simples e rápido, e exige preparo por parte dos professores.
Para que a emancipação seja facilitada, é preciso, em um primeiro momento, que os professores forneçam respostas e que os alunos, pelo menos em regra, as aceitem. Esse procedimento se dá em especial entre crianças e em introduções a algum tema ou disciplina; neste segundo caso, não há restrição de idade. É como se o professor apresentasse o ideal – e talvez seja mesmo o momento do “isso é assim”.
No entanto, tão logo os assuntos são apresentados, com o tempo vem a necessidade de problematizá-los. A ideia é a esta: “nós vimos o ideal, agora veremos o real”. Às vezes o ideal não é o antípoda do real, mas certamente possui características diferentes. Em um curso de Medicina, por exemplo, primeiro estuda-se o funcionamento normal do corpo, como ele deveria se portar, e depois se estuda as doenças e outras irregularidades. A questão, também, é a de se perguntar até que ponto a irregularidade é uma normalidade, mas isso já se encontra no momento da problematização.
Feitas as apresentações, agora é chegado o momento de ouvir e estudar divergências. É difícil uma ciência que não possua divergências, sendo que o erro, como afirmava Karl Popper, é condição para a existência da ciência. E já que foi trazido o exemplo médico acima, vale a pena trazer um cenário que ocorre entre estudantes de Medicina (mas não só com esses estudantes):
Ao verificar uma divergência existente na opinião de dois professores, o aluno fica desorientado, então, em vez de perceber que esta situação é comum em medicina e que ele mesmo deve aprender a pensar e decidir por si próprio, reage de maneira diferente, tornando-se hostil em relação à escola e ao corpo docente e desejando, no íntimo, estar matriculado em outra faculdade na qual os professores fossem mais bem preparados e lhe dessem uma orientação mais segura. Esta é a reação de pessoa emocionalmente dependente, que necessita de apoio e se sente insegura (PORTO, et al., 2014, p. 35)
Logo se vê que a segurança acadêmica depende necessariamente de saber que a vida é cheia de lacunas e inseguranças. Pobre do professor que se figurar enquanto guia! Pobre do aluno que não lutar por autonomia! Para que a emancipação seja promovida, tão logo os professores, em especial os de adolescentes e de adultos, apresentem determinado conteúdo, devem em seguida problematizá-lo. A mesma mão que constrói é a que desconstrói. Desconstruir é construir.
PORTO, Celmo Celeno (et al.). Relação Médico-Paciente. In: PORTO, Celmo Celeno. Semiologia médica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014.

