Pânico 7


Tem filmes que marcaram época, fizeram parte da nossa história e, por respeito, deveriam ficar no passado, para serem revisitados de tempos em tempos quando bate a saudade. Mas os estúdios não pensam assim e, com a moda das franquias, qualquer sucesso que ostente uma legião de fãs acaba sendo explorado à exaustão. É o que realmente aconteceu com a estreia desta semana, a icônica franquia de slasher dos anos 1990 voltou ao cinema, agora com seu sétimo episódio. Sobre Pânico 7, e se ele é tão bom quanto seu original, você fica sabendo agora na Coluna Sétima Arte.
Se você é fã de Pânico, deve ter percebido, o telefone tocou outra vez. E, por mais que a gente finja maturidade cinéfila, sempre existe um impulso quase infantil de atender. Não importa se já sabemos a pergunta do outro lado da linha, se reconhecemos a respiração irregular ou se antecipamos o brilho metálico da lâmina. Desde Pânico, de 1996, a engrenagem criada por Wes Craven nos ensinou as regras do jogo e, ao mesmo tempo, a desconfiar delas. Em Pânico 7, o jogo continua. Talvez menos marcante e revolucionário, mas ainda consciente do peso de sua franquia.
Há um dado curioso que antecede qualquer análise mais apaixonada: o sétimo capítulo estreou ostentando a pior avaliação da franquia no Rotten Tomatoes. Números pessimistas, percentuais que despencam, rankings que colocam o filme abaixo até de Pânico 3. Tudo isso aponta um panorama não muito bom para Pânico 7. Mas cinema, felizmente, não se resolve em planilhas. Resolve-se na experiência e naquilo que ela desperta.
O retorno de Neve Campbell como Sidney Prescott (agora Evans) é o coração pulsante da narrativa. Não se trata apenas de nostalgia, essa palavra tão gasta quanto necessária. Sidney é uma sobrevivente que envelheceu diante dos nossos olhos. Se antes corria pelos corredores de Woodsboro, hoje tenta proteger a filha numa cidade pacata de Indiana. O horror, como sempre, encontra um atalho até ela. E dessa vez a ameaça é íntima, isso porque o novo Ghostface não quer apenas sangue, quer legado.
Sob a direção de Kevin Williamson, roteirista do original e profundo conhecedor das entranhas da saga, o filme faz um movimento interessante. Diminui um pouco o tom da piada metalinguística (ainda presente, claro) e aposta numa atmosfera mais densa, quase amarga. O trauma de Sidney ganha peso real. Não é só sobre sobreviver ao próximo ataque, mas sobre impedir que a dor se torne herança.
A sacada mais afinada do roteiro está no uso da tecnologia como arma psicológica. Deepfakes, clonagem de voz, manipulação digital. O fantasma de Stu Macher paira sobre a trama, seja em carne, cicatriz e osso, seja como projeção fabricada por inteligência artificial. A dúvida é cultivada com habilidade suficiente para provocar inquietação. Em tempos em que qualquer imagem pode ser forjada e qualquer voz pode ser simulada, o terror deixa de ser apenas físico. Ele se infiltra pela tela do celular.
Essa escolha dialoga com a própria obsessão da cultura de fãs. Fóruns, podcasts de true crime, teorias intermináveis sobre quem realmente morreu ou sobre quem poderia voltar. Matthew Lillard ressurge como possibilidade narrativa e também como comentário ácido sobre a indústria que adora ressuscitar personagens. A franquia, que sempre ironizou Hollywood, agora ironiza a era da manipulação digital. E faz isso com uma dose saudável de cinismo.
Como slasher, o filme funciona. As mortes são brutais, algumas criativas a ponto de arrancar suspiros nervosos da plateia. A casa da família Evans se transforma em campo de guerra, especialmente numa sequência no porão em reforma que explora a arquitetura inacabada como labirinto de tensão. Há ritmo, há perseguições eficazes, há aquele momento em que você prende a respiração sem perceber.
Courteney Cox retorna como Gale Weathers, ainda que com menos protagonismo do que muitos gostariam. Sua presença é breve, mas estratégica. Ela carrega consigo a memória da franquia, funcionando como ponte entre passado e presente. Os gêmeos Mindy e Chad cumprem bem o papel de comentaristas internos do horror, ainda que sem o brilho absoluto de outras gerações.
Nem tudo, contudo, sustenta o mesmo vigor. A revelação das identidades por trás da máscara carece de maior elaboração. A motivação soa menos sofisticada do que em capítulos anteriores. Parte do mistério pode ser intuída cedo demais, o que reduz o impacto do terceiro ato. Falta aquele soco narrativo que redefine a conversa na saída do cinema.
Vivemos um tempo em que motivações banais ganham força destrutiva assustadora (veja os jornais!). Basta um comentário atravessado nas redes para desencadear ondas de ódio desproporcionais. Diante disso, a ideia de um “culto” em torno de Ghostface, em que indivíduos que transformam obsessão em violência, deixa de parecer tão absurda. Bem por isso, talvez, o filme não desenvolva essa premissa com a profundidade ideal, mas ela ecoa algo reconhecível na realidade contemporânea.
É claro que comparações são inevitáveis. Pânico 2 ainda é o ápice para muitos. Pânico 6 trouxe fôlego urbano interessante. O sétimo episódio não reinventa a roda. Também não a desmonta. Opta por caminhar na trilha conhecida, confiando na força de sua protagonista e na familiaridade da fórmula. E talvez aí resida sua maior virtude e seu maior limite. É confortável. É consciente. É, em muitos momentos, eficiente. Não há revolução, mas há respeito. E, depois de quase trinta anos, manter alguma consistência já é um feito.
Se vale a pena ir vê-lo no cinema? Eu diria que vale a pena enquanto experiência de entretenimento que ainda provoca reflexão sobre trauma, legado e o fascínio mórbido que nutrimos por narrativas de violência. Se esta é a despedida de Sidney, há dignidade no adeus. Se não for, o telefone tocará novamente. E nós, mesmo conhecendo as regras, talvez atendamos outra vez. Porque, no fundo, parte de nós ainda quer saber quem está por trás da máscara e por que insistimos tanto em olhar. Boa sessão!

