Obsessão


Atualmente, quem vai ao cinema tem percebido que há em cartaz um bom número de blockbusters, filmes altamente comerciais, com a missão de arrebanhar o maior número possível de espectadores, seja pela tradição, pela nostalgia ou pelo hype. Na contramão disso tudo, esta semana gostaria de abrir espaço aqui na Coluna para um filme de terror que estreou de forma discreta, sem muitos alardes, mas que se destaca em meio a tantas produções sustentadas por campanhas massivas de marketing, como Michael, Mortal Kombat 2, O Mandaloriano e Grogu ou até mesmo O Diabo Veste Prada 2 (que, para a surpresa de muitos, ainda continua em cartaz). Desta vez, vamos falar de um terror sutil, porém marcante. Obsessão é o filme da semana na Coluna Sétima Arte.
O primeiro ponto que gostaria de destacar é que há algo particularmente desconfortável em Obsessão, isso porque ele parte de um sentimento banal, quase inocente. Quem nunca fantasiou ser correspondido pela pessoa que ama? O diretor Curry Barker entende a força dessa premissa e faz dela o motor de um terror psicológico que cresce aos poucos, sem pressa, até transformar um romance frustrado em um pesadelo sufocante. E o mais curioso é perceber como o filme consegue causar inquietação justamente quando parece mais simples. A história acompanha Bear, interpretado por Michael Johnston, um jovem tímido, gentil e emocionalmente travado que alimenta uma paixão antiga pela melhor amiga Nikki, vivida por Inde Navarrette. Quando ele encontra um estranho objeto capaz de realizar um desejo, decide pedir que ela o ame acima de tudo. A partir daí, o longa abandona rapidamente qualquer aparência de comédia romântica e mergulha em um horror desconcertante sobre controle emocional, perda de identidade e relações contaminadas pela posse.
O que Barker faz de melhor é não transformar sua ideia em uma alegoria óbvia ou excessivamente explicada. Obsessão trabalha muito mais com sensação do que com respostas. O sobrenatural existe, mas nunca vira o centro da narrativa. O diretor parece muito mais interessado nas consequências emocionais daquele desejo do que em criar uma mitologia elaborada para justificá-lo. Isso torna tudo mais próximo e perturbador. A impressão constante é a de que algo está errado, mesmo quando a cena parece comum. Existe inteligência na forma como o filme manipula o espectador. Bear surge inicialmente como aquele típico “cara legal” do cinema independente americano. Johnston ajuda bastante nessa construção porque tem uma presença naturalmente melancólica. Seu olhar cansado e inseguro aproxima o público do personagem quase imediatamente. O ator acerta justamente por não exagerar a fragilidade do protagonista. Bear nunca vira uma caricatura do jovem rejeitado socialmente. Pelo contrário. Ele parece humano demais. E talvez seja isso que torne suas atitudes tão desconfortáveis conforme a história avança.
A grande sacada do roteiro está em perceber que o horror nasce menos do desejo realizado e mais da incapacidade de Bear entender o tamanho da violência que provocou. Há uma mistura de egoísmo e carência que Johnston consegue transmitir sem precisar verbalizar. Em muitos momentos, o personagem parece sinceramente acreditar que está vivendo uma fantasia romântica ideal. Enquanto isso, Nikki vai lentamente desaparecendo diante dele. É nesse ponto que Obsessão encontra sua verdadeira força. Inde Navarrette entrega uma atuação impressionante. Não apenas pelo aspecto físico ou pelas mudanças bruscas de comportamento, mas pelo controle corporal e vocal que ela demonstra durante todo o filme. Nikki se torna uma figura profundamente triste antes mesmo de virar ameaçadora. Existe algo doloroso na maneira como ela passa a agir como alguém aprisionado dentro da própria mente. A atriz consegue alternar delicadeza, estranheza e descontrole sem parecer artificial em nenhum momento.
Algumas das melhores cenas do longa dependem exclusivamente da presença dela em quadro. Barker frequentemente utiliza corredores escuros, enquadramentos fechados e ambientes silenciosos para potencializar essa sensação de desconforto. E Navarrette entende perfeitamente o efeito que sua personagem causa. Basta um olhar prolongado ou um simples “obrigada” dito no momento errado para que a tensão da cena mude completamente. O terror de Obsessão raramente surge de sustos tradicionais. Claro, existem momentos gráficos e sequências violentas, mas Barker prefere trabalhar ansiedade e antecipação. O espectador quase sempre percebe que algo horrível está prestes a acontecer. Ainda assim, o diretor prolonga o silêncio, desacelera o ritmo e cria uma atmosfera sufocante que faz cenas comuns parecerem ameaçadoras. Um jantar entre amigos ou uma conversa no quarto ganham peso emocional porque o filme nunca permite que a situação volte ao normal.
Tecnicamente, também há muito mérito no trabalho. A fotografia aposta em tons frios e iluminação baixa sem cair naquele visual artificialmente escuro que se tornou comum em parte do terror recente. Há momentos em que Nikki praticamente se mistura à penumbra do cenário, como se sua identidade estivesse sendo apagada aos poucos. O desenho de som merece destaque especial. Pequenos ruídos, pausas incômodas e silêncios prolongados ajudam a criar uma tensão constante que acompanha o filme do início ao fim.
O mais interessante é perceber que Barker demonstra confiança rara para um diretor em início de carreira. Ele não sente necessidade de explicar cada detalhe nem de transformar sua história em uma grande metáfora social verbalizada. Obsessão funciona porque entende o valor do desconforto. Porque sabe que certas situações ficam mais assustadoras justamente quando parecem emocionalmente plausíveis. Mesmo quando exagera em alguns momentos ou flerta com situações absurdas, o filme nunca perde sua capacidade de envolver. Pelo contrário. Quanto mais estranho ele se torna, mais difícil desviar os olhos da tela. Existe coragem em permitir que a narrativa abrace o caos sem tentar suavizar tudo para agradar o público. E talvez seja exatamente esse o motivo pelo qual vale a pena assistir Obsessão no cinema.
Por que ver esse filme? Porque não é apenas um filme para o expectador acompanhar passivamente, ele é uma experiência construída para provocar reação física. O silêncio da sala ajuda a potencializar a tensão, os enquadramentos ganham mais força na tela grande e o trabalho sonoro se torna quase opressivo em alguns momentos. Além disso, poucas coisas são tão divertidas quanto perceber uma plateia inteira desconfortável ao mesmo tempo diante de situações que desafiam o limite entre romance e horror.
Em um período especialmente fértil para o terror contemporâneo no mundo do entretenimento, sobretudo no cinema, “Obsessão” consegue encontrar personalidade própria. Sem depender de sustos baratos ou fórmulas recicladas, Curry Barker entrega um filme estranho, inquietante e tecnicamente muito seguro. Mas acima de tudo, entrega uma vitrine definitiva para Inde Navarrette, cuja performance já nasce com cara de atuação cultuada pelos fãs do gênero nos próximos anos. Boa sessão!

