Mistério

Eu olhava o relógio. O tempo corria bem mais rápido do que eu desejava.
- Que vergonha! Bem no primeiro dia de aula não vou chegar a tempo. Vou deixar os alunos esperando...
A moça sentada ao meu lado no ônibus respondeu alguma coisa, mas não prestei atenção. Minha mão suava em meio às palpitações.
Era meu primeiro dia dando aulas na faculdade. Professora de Bioestatística. Estava preocupada. Única matéria no curso de Farmácia em que tinha pego exame. Pensando bem, não acreditava que tivesse sido por acaso.
Naquele momento, a ansiedade mudava o foco. O medo aumentava à medida que o tempo passava.
Bioestatística seria fácil se ao menos eu conseguisse chegar no horário.
Saí da rodoviária às quatro da tarde. Mas era sexta. O ônibus - especialmente lotado - parava de minuto em minuto. Precisaria entrar em sala às sete, depois de uma viagem de mais ou menos uns noventa quilômetros.
Minha mão estava gelada. A moça do lado via. E apenas me escutava.
O ônibus parou. Hora de a moça descer. Faltavam vinte minutos para as sete e eu ainda tinha uns dez quilômetros pela frente. E mais uma dezena de paradas. Um choro veio à garganta. Nem me despedi direito da moça.
Senti uma mão puxando o meu braço:
- Vem, desce comigo.
- Eu? Como assim?
- Vamos!! Vou te ajudar. Anda que vai dar tempo.
Não entendi direito. Apenas segui a moça e desci do ônibus com ela.
Por um instante, pensei não saber o que estava fazendo. Mas fiz apenas o que pude fazer na hora. Nada seria muito pior do que me atrasar logo no primeiro dia.
Uma mulher mais velha esperava por ela na rodoviária. Conversaram alguma coisa que não entendi. Depois a moça falou direto comigo:
- Minha mãe vai te levar.
Não me restava nada, senão aceitar.
Me ofereceram o banco da frente. A moça foi atrás.
Fui falando, contando tudo e mais um pouco pra elas durante o caminho. Elas quase não falavam. E eu pouco escutava.
Faltando cinco para as sete, estava eu em frente ao meu destino. Ofereci pagamento. Não aceitaram. Perguntei o nome. Pedi o endereço. Escreveram em papel. Peguei correndo e desci.
Fui para a aula e vieram outras aulas.
Semanas depois, tive a chance de agradecer. Em uma tarde de folga, resolvi pegar um ônibus e fazer uma visita. Eu, naquela época, ainda não tinha celular. Apenas fui. Eu e meu mapa.
Encontrei a rua - mas não o número que me deram.
Bati na vizinhança. Em uma casa, depois em outra. Não conheciam a moça. Não conheciam a mãe. E ninguém parecido jamais havia passado por lá.
Um calafrio tomou conta de mim. E fui embora sem conseguir saber.
Prefiro acreditar no que soube desde quase sempre: pode ser que o impossível aconteça enquanto sequer consigo imaginar.
Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.
Instagram: @fabiana_margonato

