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“Minha homenagem ao poeta Patativa do Assaré”, de Evaristo Geraldo


Por: Dr. Felipe Figueira
Data: 01/04/2026
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          A literatura de cordel me foi apresentada no ensino médio e foi uma experiência incrível. Até então, eu achava que livros tinham que ser grandes. Depois dessa primeira impressão, vendo livros de oito, dez, doze páginas, fui tomado pelo fascínio e pedi para o professor Sebastião Soares de Castro me emprestar alguns de seus livros. Ele prontamente me trouxe uns vinte e eu os devorei em um só dia.

          Esta resenha será diferente das demais, porque ela não visará analisar ou conversar muito com a obra do título, mas esta será apenas um ponto de gatilho para uma introdução a algo maior: a literatura de cordel e Patativa do Assaré, originalmente chamado Antônio Gonçalves da Silva, considerado um dos maiores poetas do nordeste.

 

Estátua de Patativa, no Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza

 

          A literatura de cordel tem por características a oralidade e as rimas. No caso dos poemas de Patativa, saudados por Evaristo Geraldo, eles vêm de sua experiência de nordestino, homem da roça, poeta do povo, como ele próprio dizia em entrevistas. A espontaneidade dos assuntos e das rimas nada têm de eruditistas, o que não significa, de modo algum, ausência de cultura, e é preciso dizer, também, que por mais que muitos cordelistas não sejam pessoas advindas das universidades, também destas provém cordelistas. Mas, para além das universidades e da frágil divisão entre cultura popular e cultura erudita, e isso é o que há de mais importante, a cultura é algo maior do que qualquer ambiente institucional: é ela própria uma instituição.

          Em 2016, minha mãe, dois alunos e eu fizemos uma grande viagem. Saímos de Paranavaí e fomos a Fortaleza de carro. O evento, sobre cidadania planetária, era para conhecermos Edgar Morin, mas o mestre francês não pôde comparecer por causa que a sua saúde não estava boa. Com essa ausência perdemos a viagem? Obviamente que não. Pudemos percorrer o Brasil quase que de uma ponta à outra e sentir a cidadania planetária, já que o meu (nosso) país é gigante, tanto em terras quanto em pessoas. Brasil, de ti saíram Patativa, Gonzaga, Ariano e companhia ilimitada.

 

Patativa do Assaré

Fez canção, versos e trova,

Quem conhece a sua história

Certamente isso comprova

E cada dia que passa

Sua fama se renova.

 

Nosso poeta maior

Cantou bem o Ceará

Foi ele quem escreveu

“Vaca estrela e boi fubá”

E o livro de poesias

“Cante lá que eu canto cá”.

 

(...)

 

A canção “Triste partida”

É um hino pro Nordeste

Nela retrata as agruras

De certo cabra da peste

Que se muda pra São Paulo

Fugindo do solo agreste. (GERALDO, 2010, p. 12-13).

 

          Entre as minhas expectativas daquela viagem era poder conhecer um pouco do estilo da vida do nordestino do sertão e de trazer livros de cordéis para casa. Posso dizer que alcancei as duas. A viagem durou dez dias e nós paramos onde bem entendemos. Provamos comidas típicas, nos embrenhamos pelo sertão, andamos milhares de quilômetros pela Bahia, Piauí, Pernambuco, Ceará e Paraíba. Vi casas de tapera, vi nordestino em cavalo com trajes típicos e vi cactos até cansar. Por fim, trouxe cerca de cinquenta livros de cordel.

  

Casa de tapera

 

          Alguém poderá dizer, com má-fé: “Para você o nordeste foi apenas uma viagem exótica.” Dói ouvir isso, como de fato já ouvi, como se eu fosse alguém alheio à humanidade. Na verdade, o mais certo é que esse tipo de gente, sim, não esteja nem aí para ninguém, naturalizando a pobreza. Patativa nunca naturalizou a miséria de seu rico nordeste, nem se contentou com a seca, com as desigualdades sociais, mas sempre quis justiça, reforma agrária e decência na política. Como pode alguém não almejar essas coisas? Os versos do grande poeta também são denúncias sociais. Cada um possui o seu lugar de fala, mas, em nome de uma cidadania planetária, é bom que o nosso espaço não seja um tosco torrão de terra, uma mera posse. Dizia Patativa, em “Cante lá que eu canto cá”:

 

Eu não posso lhe invejá

Nem você invejá eu,

O que Deus lhe deu por lá,

Aqui Deus também me deu.

Pois minha boa muié,

Me estima com munta fé,

Me abraça, beja e qué bem

E ninguém pode negá

Que das coisa naturá

Tem ela o que a sua tem.

 

          Isso não é uma dicotomia, mas, antes, um apelo ao bom senso, à igualdade nas diferenças. Eu, paranaense, sou irmão de todo cabra do sertão.

          À semelhança de um Araquém Alcântara ou de um Sebastião Salgado, que fotografam a natureza, Patativa registrou em versos a sua terra. Todos esses artistas, sim, receberam e recebem fama, exposições fabulosas, porém, enquanto estão atrás das lentes, enquanto estão em campo, não há espaço para o glamour. Trata-se de um duro trabalho. Câmeras pesam e a inchada caleja as mãos. A maioria dos artistas, todavia, ao contrário dos acima mencionados, não receberá qualquer tipo de fama, e, paciência, assim é a vida. As estrelas que olhamos a noite são uma ínfima parte das que de fato existem. O importante é que a fotografia não seja um mero clique e que as letras não sejam meras palavras, mas, arte, algo sagrado.

 

Evaristo Geraldo. Minha homenagem ao poeta Patativa do Assaré. Folheteria Padre Cícero, 2010.

Dr. Felipe Figueira

Felipe Figueira é doutor em Educação e pós-doutor em História. Professor de História e Pedagogia no Instituto Federal do Paraná (IFPR) Campus Paranavaí.


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