“Minha homenagem ao poeta Patativa do Assaré”, de Evaristo Geraldo

A literatura de cordel me foi apresentada no ensino médio e foi uma experiência incrível. Até então, eu achava que livros tinham que ser grandes. Depois dessa primeira impressão, vendo livros de oito, dez, doze páginas, fui tomado pelo fascínio e pedi para o professor Sebastião Soares de Castro me emprestar alguns de seus livros. Ele prontamente me trouxe uns vinte e eu os devorei em um só dia.
Esta resenha será diferente das demais, porque ela não visará analisar ou conversar muito com a obra do título, mas esta será apenas um ponto de gatilho para uma introdução a algo maior: a literatura de cordel e Patativa do Assaré, originalmente chamado Antônio Gonçalves da Silva, considerado um dos maiores poetas do nordeste.
Estátua de Patativa, no Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza
A literatura de cordel tem por características a oralidade e as rimas. No caso dos poemas de Patativa, saudados por Evaristo Geraldo, eles vêm de sua experiência de nordestino, homem da roça, poeta do povo, como ele próprio dizia em entrevistas. A espontaneidade dos assuntos e das rimas nada têm de eruditistas, o que não significa, de modo algum, ausência de cultura, e é preciso dizer, também, que por mais que muitos cordelistas não sejam pessoas advindas das universidades, também destas provém cordelistas. Mas, para além das universidades e da frágil divisão entre cultura popular e cultura erudita, e isso é o que há de mais importante, a cultura é algo maior do que qualquer ambiente institucional: é ela própria uma instituição.
Em 2016, minha mãe, dois alunos e eu fizemos uma grande viagem. Saímos de Paranavaí e fomos a Fortaleza de carro. O evento, sobre cidadania planetária, era para conhecermos Edgar Morin, mas o mestre francês não pôde comparecer por causa que a sua saúde não estava boa. Com essa ausência perdemos a viagem? Obviamente que não. Pudemos percorrer o Brasil quase que de uma ponta à outra e sentir a cidadania planetária, já que o meu (nosso) país é gigante, tanto em terras quanto em pessoas. Brasil, de ti saíram Patativa, Gonzaga, Ariano e companhia ilimitada.
Patativa do Assaré
Fez canção, versos e trova,
Quem conhece a sua história
Certamente isso comprova
E cada dia que passa
Sua fama se renova.
Nosso poeta maior
Cantou bem o Ceará
Foi ele quem escreveu
“Vaca estrela e boi fubá”
E o livro de poesias
“Cante lá que eu canto cá”.
(...)
A canção “Triste partida”
É um hino pro Nordeste
Nela retrata as agruras
De certo cabra da peste
Que se muda pra São Paulo
Fugindo do solo agreste. (GERALDO, 2010, p. 12-13).
Entre as minhas expectativas daquela viagem era poder conhecer um pouco do estilo da vida do nordestino do sertão e de trazer livros de cordéis para casa. Posso dizer que alcancei as duas. A viagem durou dez dias e nós paramos onde bem entendemos. Provamos comidas típicas, nos embrenhamos pelo sertão, andamos milhares de quilômetros pela Bahia, Piauí, Pernambuco, Ceará e Paraíba. Vi casas de tapera, vi nordestino em cavalo com trajes típicos e vi cactos até cansar. Por fim, trouxe cerca de cinquenta livros de cordel.
Casa de tapera
Alguém poderá dizer, com má-fé: “Para você o nordeste foi apenas uma viagem exótica.” Dói ouvir isso, como de fato já ouvi, como se eu fosse alguém alheio à humanidade. Na verdade, o mais certo é que esse tipo de gente, sim, não esteja nem aí para ninguém, naturalizando a pobreza. Patativa nunca naturalizou a miséria de seu rico nordeste, nem se contentou com a seca, com as desigualdades sociais, mas sempre quis justiça, reforma agrária e decência na política. Como pode alguém não almejar essas coisas? Os versos do grande poeta também são denúncias sociais. Cada um possui o seu lugar de fala, mas, em nome de uma cidadania planetária, é bom que o nosso espaço não seja um tosco torrão de terra, uma mera posse. Dizia Patativa, em “Cante lá que eu canto cá”:
Eu não posso lhe invejá
Nem você invejá eu,
O que Deus lhe deu por lá,
Aqui Deus também me deu.
Pois minha boa muié,
Me estima com munta fé,
Me abraça, beja e qué bem
E ninguém pode negá
Que das coisa naturá
Tem ela o que a sua tem.
Isso não é uma dicotomia, mas, antes, um apelo ao bom senso, à igualdade nas diferenças. Eu, paranaense, sou irmão de todo cabra do sertão.
À semelhança de um Araquém Alcântara ou de um Sebastião Salgado, que fotografam a natureza, Patativa registrou em versos a sua terra. Todos esses artistas, sim, receberam e recebem fama, exposições fabulosas, porém, enquanto estão atrás das lentes, enquanto estão em campo, não há espaço para o glamour. Trata-se de um duro trabalho. Câmeras pesam e a inchada caleja as mãos. A maioria dos artistas, todavia, ao contrário dos acima mencionados, não receberá qualquer tipo de fama, e, paciência, assim é a vida. As estrelas que olhamos a noite são uma ínfima parte das que de fato existem. O importante é que a fotografia não seja um mero clique e que as letras não sejam meras palavras, mas, arte, algo sagrado.
Evaristo Geraldo. Minha homenagem ao poeta Patativa do Assaré. Folheteria Padre Cícero, 2010.

