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Marcos Rey. “O caso do filho do encadernador”


Por: Dr. Felipe Figueira
Data: 04/05/2026
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Que grata surpresa foi ter conhecido “O caso do filho do encadernador: romance da vida de um romancista”, de Marcos Rey, pseudônimo de Edmundo Donato. E por quê? porque esse livro é mais do que uma autobiografia, gênero de difícil escrita, mas por ser também um belo caso de um escritor abrindo sua oficina criativa e falando em pormenores sobre a escrita.

         Eu, que já conhecia “Paris é uma festa”, de Ernest Hemingway, e fiquei admirado, encontrei um livro tão bom quanto, em que vejo um potente escritor brasileiro a falar sobre a sua história de vida, sem transformá-la em hagiografia. Nesse percurso, Rey nos conta seus relacionamentos familiares, suas amizades, seu amor por Palma, sua esposa, e suas diversas influências intelectuais, a exemplo de Oswald de Andrade, que se tornou íntimo do autor de “O último mamífero do Martinelli”, a ponto de ir ao enterro do modernista no Cemitério da Consolação, em 1954.

         Marcos Rey, diferentemente do que costuma ocorrer no Brasil, não foi um autor vindo dos bancos universitários. Na verdade, a sua escolarização foi baixa, pois, conforme confessou a esposa, depois da morte do escritor, ele, por causa da hanseníase, ficou escondido por muito tempo e, entre o final da adolescência e o início da vida adulta, chegou a ser internado compulsoriamente. Pois é, é chocante saber que um rapaz de 18 anos foi sequestrado da sociedade por causa da “lepra”, em pleno século XX. Sim, nas décadas de 1930 e 1940 a cura ainda não era plenamente conhecida ou disseminada, porém, choca mesmo assim saber que Marcos Rey perdeu anos de vida por causa da doença.

         A formação de Rey, antes de ser acadêmica e academicista, era prática. Junto com seu irmão, Mário Donato, autor de “Presença de Anita”, passou a escrever sobre tudo e em tudo. Rey passeou largamente pela escrita, tecendo: contos, novelas, propagandas publicitárias, anúncios para imobiliária, roteiros para filmes, programas para rádio, cartas, peça de teatro. Ele só não escreveu, ao que tudo indica, monografias, dissertações, teses, artigos científicos, relatórios... Mas escreveu obras que até hoje, 2026, permanecem vivas, como “O mistério do 5 estrelas”, “Um cadáver ouve rádio”, “Na rota do perigo” e “Doze horas de terror”, todas da célebre Coleção Vaga-Lume.

         Falando na coleção anterior, que delícia é recordar-me desse glorioso projeto da Editora Ática. Meu ensino médio foi marcado pela leitura daqueles livros de literatura infantil. Marcos Rey, com “O mistério do 5 estrelas” e as demais obras mencionadas, abriu minha imaginação. Eu admito que a minha tristeza era deixar a luz que me dava a Vaga-Lume e me debruçar sobre cálculos. Eu adorava ler, já resolver equações... isso me enfadava.

         Confissões à parte, Marcos Rey, como se lê pela obra aqui em resenha, não escreveu só para jovens, na verdade, esse ramo lhe veio ao acaso, como ele relata. Sua obra literária, simultaneamente densa e leve, era mais voltada para o público adulto, só que, curiosamente, o público jovem também o lia. É o caso da obra “O enterro da cafetina”, que possui uma história interessante.

 

O mais curioso aconteceu nos primeiros dias de venda. Cheguei em casa e vi um homem muito bem-vestido à minha espera com sua filha, uma garotinha de 15 anos. Ela trazia O enterro da cafetina. Queriam uma dedicatória.

- Ela comoveu-se muito com o livro – disse o pai. – Até chorou ontem à noite. Desculpe-me, mas ela insistiu para conhecê-lo.

Estaria eu estreando na literatura para juventude com O enterro da cafetina? (REY, 2012, p. 114-115).

 

         Segundo o escritor relata, a sua vida foi longe de ser uma utopia ou uma calmaria. Ele, tantas vezes, escreveu o que não gostava apenas porque precisava sobreviver. Viver apenas da literatura foi um luxo que só depois de muito tempo ocorreu. Ainda no início da carreira, que era também o início do casamento com Palma Donato, há uma bela história.

         O escritor, cansado da vida de trabalhador da publicidade, comenta com a esposa, sua grande amiga e entusiasta, que gostaria de viver da literatura. Ela, segundo declarações em entrevista, não pensou duas vezes: vendeu, sem mesmo comentar, o carro que havia ganhado do marido e despejou o dinheiro na casa. Dali para frente, a vida do escritor, que sempre esteve diante das letras, seria uma pessoa mais livre na esfera literária, porém, o que não significa que não seria menos complexa. A vida é difícil e perigosa, dizia Riobaldo, só que a mesma vida presenteava o escritor com belas surpresas, que lhe propiciavam continuar voltado à escrita. Foi o caso da adaptação do “Sítio do Picapau Amarelo”, de Monteiro Lobado. Lobato, não custa lembrar, foi amigo de seu pai, o “encadernador” de livros.

Centro de São Paulo visto a partir do Teatro Municipal
(Fotos: Felipe Figueira)

É realmente difícil encontrar um texto como “O caso do filho do encadernador”, pois é um “romance da vida de um romancista”. A linguagem é deliciosa, coisa que poucos atingem; as histórias são divertidas, mas sem perder a tensão; e a quantidade de relatos sobre o universo da escrita se vê em poucos lugares. Abaixo alguns exemplos:

 

Julguei dessa vez que havia encontrado o meu estilo, minha maneira própria de contar uma história. Mas, na realidade, descobrira apenas algumas de minhas tendências naturais. O humor era a mais evidente. Daí eu ter gostado tanto de Voltaire, Anatole e Swift. Um humor bastante próximo do drama, talvez apenas o outro lado da moeda. Descobri também que as histórias devem ser localizadas em algum cenário, de preferência conhecido do autor, e num tempo bem definido. A cor local e o calendário são indispensáveis. E descobri ainda que os personagens precisam ser marcados não apenas pela descrição física, mas também pelos diálogos, onde transparece melhor seu recheio psicológico. Se tiveram maneira peculiar de falar, vocabulário próprio, aí, sim, saltarão da página, colocando-se ousadamente de pé. (REY, 2012, p. 48).

 

No Rio, comecei a conhecer pessoas e a penetrar nos seus mistérios. Literatura não se tira do nada. A vida é a fonte. (REY, 2012, p. 66).

 

O que é ser um grande escritor? Talvez o máximo que um escritor possa ser é o espelho de uma região ou país em determinado momento. Mais que isso é geralmente mera pretensão. (REY, 2012, p. 82).

 

         E onde, por fim, que um escritor encontra inspiração? Na vida, vivendo, sentindo as pessoas no dia a dia. As histórias de Rey se passam quase todas em São Paulo porque foi nessa cidade, e um pouco no Rio de Janeiro, que ele viveu. Hemingway dizia que o escritor deveria falar do que lhe era forte, próximo e verdadeiro. São Paulo era a verdade de Rey, a ela se dando a tal ponto de que suas cinzas foram lançadas, por sua cidade, sobre a selva de pedra do centro, um desejo seu. Por meu lado, eu posso dizer que Paranavaí e Maringá são minhas cidades. Maringá, diga-se de passagem, Marcos Rey já veio para falar de suas obras em escolas. De quê serve um escritor superficial? De quê serve um texto superficial? A leveza de Rey revela uma profundidade que pode enganar.

Centro de São Paulo visto a partir do Farol Santander

Poucas resenhas neste livro eu fui tão entusiasta, mas é que esta obra realmente me surpreendeu, e como eu não gosto de escrever do que não gosto, a tendência é que eu mais elogie do que apresente falhas. Se isso é bom ou ruim, não sei ao certo.

Marcos Rey. O caso do filho do encadernador: romance da vida de um romancista. São Paulo: Global, 2012.

Dr. Felipe Figueira

Felipe Figueira é doutor em Educação e pós-doutor em História. Professor de História e Pedagogia no Instituto Federal do Paraná (IFPR) Campus Paranavaí.


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