Lira dos vinte anos: a voz da juventude no Romantismo brasileiro

Dados da OMS (2026) mostram que mais de 720 mil suicídios ocorrem por ano, sendo essa a terceira principal causa de morte entre jovens de 15 a 19 anos, um dos fatores é o enfrentamento dos jovens no que tange aos desafios emocionais. Embora contemporâneos, a angústia, o sofrimento e o conflito existencial já eram retratados no século XIX na obra Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo, embora ainda não fossem reconhecidos como manifestações da psique humana. Ou seja, o sofrimento que hoje compreendemos como depressão, ansiedade e risco suicida não era visto como questão de saúde, mas atribuído ao temperamento, à sensibilidade ou à própria natureza, o que impedia o reconhecimento e o acolhimento necessários.
Publicada em 1853, a obra é marco da segunda geração do Romantismo brasileiro, o Ultrarromantismo. A coletânea reúne poemas que expressam angústias e conflitos juvenis: amor idealizado, melancolia, solidão, sofrimento e morte. Tais temas refletem o Mal do Século, tendência que surgiu da frustração diante da realidade e da sensação de desalento que acometia especialmente os jovens intelectuais da época, levando-os a buscar subterfúgios da realidade. O que se chamava então de "Mal do Século" guarda profunda semelhança com o sofrimento psíquico contemporâneo: a mesma angústia, o mesmo desamparo e a mesma dificuldade de encontrar lugar no mundo, embora compreendidos de maneiras diferentes. Em Lira dos Vinte Anos, esses sentimentos se revelam em jovens marcados pela solidão, pelo sofrimento e pela desilusão.
No século XIX, essa tendência se manifestava como melancolia, fuga da realidade e idealização romântica. Em 2026, expressa-se como ansiedade generalizada, depressão, solidão digital, pressão por desempenho e incerteza diante do futuro. É a mesma angústia juvenil, a sensação de não encontrar lugar, de ver o mundo como hostil e de não vislumbrar perspectivas — o que, segundo a Organização Mundial da Saúde, atinge mais de um em cada sete jovens no mundo, sendo o suicídio a terceira causa de morte entre adolescentes e jovens adultos (OMS, 2025). A diferença fundamental é que hoje esse sofrimento pode ser nomeado, compreendido e acolhido. A literatura nos mostra que a dor é antiga, mas também nos lembra que silenciá-la ou romantizá-la pode ser perigoso. Idealizar a morte não deve ser confundido com beleza poética, mas reconhecido como sinal de sofrimento que precisa ser ouvido.
Um dos poemas mais conhecidos da obra é Se eu morresse amanhã. Nele, o eu lírico imagina a morte precoce e reflete sobre o que deixaria para trás: o afeto familiar e os sonhos ainda não realizados. O tom melancólico e sentimental é marca do Ultrarromantismo, ao realçar a fragilidade da vida e a proximidade da morte. Revela ainda a sensibilidade diante da brevidade da existência. Expressões como essa nos convidam a refletir: quando um jovem diz desejar a morte, revela um profundo sofrimento. O que antes poderia ser reconhecido como idealização ou forma de expressar dor emocional, hoje ressalta a pertinência do debate sobre saúde mental.
Conforme o psicanalista Christian Ingo Lenz Dunker, professor da USP e especialista em saúde mental, a juventude é fase de intensas emoções e frustrações, e o sofrimento juvenil revela uma estrutura comum: a sensação de desamparo e a dificuldade de encontrar lugar e sentido no mundo. É justamente essa experiência, que o poeta traduziu em versos, que continua encontrando ressonância nos jovens de hoje. Compreender essa afinidade é passo essencial: reconhecer que angústia, solidão e desamparo não são falhas individuais, mas experiências humanas que podem e devem ser acolhidas.
No poema, destacam-se figuras de linguagem que ampliam a expressividade: a hipérbole intensifica sentimentos de tristeza e saudade; a metáfora representa a morte de forma poética e simbólica; a anáfora, pela repetição intencional, reforça a emoção e o tom melancólico. Esses recursos transmitem o sofrimento e o lirismo característicos da obra.
Conclui-se que Lira dos Vinte Anos permanece relevante ao retratar conflitos, sentimentos e inquietações juvenis. Ao explorar o Mal do Século, a intensidade emocional do poema e o diálogo com os desafios contemporâneos de saúde mental, a obra mostra que angústias humanas atravessam épocas. Ela nos lembra, sobretudo, que falar da dor é o primeiro passo para transformá-la: a literatura dá voz ao sofrimento, mas cabe a nós transformar essa escuta em cuidado, em reconhecimento e em apoio. A literatura revela-se, assim, instrumento de reflexão e compreensão da realidade.
Julia Beatriz Belleze Gati e Julia Vitória Brassalli
REFERÊNCIAS
AZEVEDO, Álvares de. Lira dos vinte anos. 4. ed. São Paulo: Martin Claret, 2012.
DUNKER, Christian Ingo Lenz. Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. São Paulo: Boitempo, 2015.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Saúde mental do adolescente. Genebra: OMS, 2025. Disponível em: https://www.who.int/pt/news-room/fact-sheets/detail/adolescent-mental-health. Acesso em: 10 ago. 2026.

