RACISMO ESTRUTURAL E JUVENTUDE: REFLEXÃO DO LIVRO O ÓDIO QUE VOCÊ SEMEIA

Daniel Kenzo Nosima Rodrigues[1]
Gustavo Henrique Bispo Denardi[2]
José Henrique Oliveira Hypolito[3]
Matheus Passareli Da Silva[4]
Professora Esp. Lilian Cristina Vieira Da Silva[5]
Apesar de a escravidão ter ficado no passado há muito tempo, suas marcas ainda estão presentes na atualidade, principalmente em relação às desigualdades raciais. As raízes históricas se refletem em diversas áreas da vida econômica, social e política, mantendo um sistema de discriminação racial aos povos negros, o que acaba comprovando que o racismo ainda existe no dia de hoje.
O livro "O ódio que você semeia” (2017), da autora Angie Thomas, abordando essas questões. Contando a história de Starr Carter, uma jovem negra que vivenciou um acontecimento forte: a morte do seu amigo desarmado pelas mãos de um policial branco. O livro vai começar a mostrar as muitas formas de violência e injustiça que ainda hoje afetam as comunidades negras, revelando também como o racismo em todas suas estruturas impacta a vida dessas pessoas.
Refletir sobre essa narrativa é crucial para pensar como as desigualdades sociais estão interligadas, ressaltando a necessidade urgente de um combate ao racismo. Dessa forma, o artigo tem como objetivo analisar o livro que aborda sobre violência policial e o impacto do racismo, estudos pós-coloniais e análise crítica social.
A lei de abolição da escravidão foi decretada no dia 13 de Maio de 1888, mas isso não fez com que as hierarquias sociais mudassem para incluir as pessoas negras que acabaram de ter sido libertas dessa instituição desumana. Isso porque, o novo governo não fez esforço em prol de solucionar a questão. Estudos da época indicam que as concentrações de renda na mão de pessoas brancas, além da manutenção de políticas de exclusão após a queda da monarquia. Esses fatores produziram mecanismos de segregação residencial e social que penduram até os dias de hoje (HASENBALG; Pinsky, 1979 p.51).
Segundo Telles (2004, p. 19, 76), a chamada “Democracia racial” brasileira é e sempre foi sustentada por uma falsa cordialidade que oculta à violência estrutural existente, seja pela falha distribuição de renda, acesso ao mercado de trabalho e a diferente representação política entre negros e brancos. Nesse contexto, a compreensão do racismo como sistema de poder implica reconhecer as relações de “subordinação e dominação” que não permaneceram apenas nas instituições estatais, mas também na sociedade. A ineficiência do estado em erradicar isso é visível, visto que centenas de anos de escravidão não desaparecerem em uma lei. (GILROY, 2000, p. 132).
Recentemente a literatura vem se mostrando um local propício para revelar denúncias sobre a violação dos direitos humanos e da violência exercida pelos policiais contra a população negra. A autora Angie Thomas, em seu livro “O ódio que você semeia” (2017) vai contruir uma narrativa ao redor de Starr Carter, que vivenciou uma experiência traumática ao ver seu amigo desarmado ser assassinado por um policial branco. Que faz referência a diversos casos, nos quais policiais fizeram o mesmo ato citado no livro e também saíram impunes (THOMAS, 2017).
Além disso, outros autores como Lourenço vão destacar que romances urbanos são como espelhos sociais que vão ter a capacidade de revelar dinâmicas de controle racial por meio das personagens que acabam por representar comunidades marginalizadas (LOURENÇO, 2018). Desse jeito essas ficções acabam ganhando força como uma maneira de resistência e uma maneira de criar um outro ponto de vista frente a versão verídica dos fatos.
As cicatrizes da escravidão ainda hoje se manifestam na sociedade de diversas maneiras, em todos os âmbitos da sociedade. Em fatores como renda, saúde e educação, isso é perceptível, pois em inúmeras pesquisas fica clara a desigualdade de acesso a esses serviços com base em raça. Mas também, isso ocorre em fatores simbólicos como estereótipos raciais e o que é chamado de “microagressões diárias” (HOOKS, 1992.).
A narrativa de nossa personagem, Starr, no livro “O ódio que você semeia” ao juntar-se aos protestos e questionar as políticas policiais de “Ordem Pública” e também os métodos investigativos, já que ao decorrer da história, é visível que os policiais estavam procurando por pistas para tentar inocentar o policial que matou o amigo dela, Khalil. Esses fatos mostram a tensão entre o desejo de justiça imediata e os limites impostos pelo Estado, o que acaba reforçando a urgência de formas de luta que vão além do espaço jurídico e ocupem as ruas como locais de disputa política.
Neste trabalho, a análise prática foi feita com base em uma leitura crítica da obra “O ódio que você semeia”, de Angie Thomas, relacionada a conceitos que desenvolvemos em nossos estudos acadêmicos sobre racismo estrutural, que foi herdada da escravidão e violência policial. Portanto, o nosso objeto de estudo foi a própria obra literária, selecionada por temática e reconhecimento internacional, além da sua visibilidade no debate atual sobre racismo e justiça social.
A narrativa da obra foi analisada por autores como Gilroy (2000), Telles (2004), Hooks (1992), entre outros, estabelecendo uma ligação entre a ficção literária e a realidade vivida por povos negros. A escolha por essa abordagem foi motivada pela capacidade da literatura de expressar subjetividades parcialidade e denunciar injustiças, permitindo que os dados obtidos fossem interpretados, qualitativos e críticos. A análise buscou, compreender de qual maneira a literatura pode ser um meio de resistência e conscientização frente às desigualdades raciais contemporâneas.
De modo geral, Harold Bloom destaca que “a leitura de grandes obras não é apenas um ato estético, mas também uma experiência ética, capaz de ampliar nossa consciência histórica e humana” (BLOOM, 1995, p. 23). Essa ideia reforça o papel do romance de Thomas na formação crítica do leitor. Do mesmo modo, como lembra Marisa Lajolo, “ler literatura é também entender como a linguagem se organiza para criar sentidos” (LAJOLO, 1988, p. 12). Assim, é interessante como Starr constrói uma perspectiva subjetiva e crítica frente à realidade.
A obra é um convite ao pensamento crítico, afirmação que se comprova na voz de Lajolo (1993, p. 18) ao analisar o papel do leitor ante a leitura: “a literatura ensina o leitor a desconfiar das aparências, a reconhecer nos textos o jogo das vozes sociais”, associa-se ao contexto pelo silenciamento advindo da violência estrutural. Sobre a avaliação comportamental reveladas pelas falas e ações das personagens, Bloom (1995, p. 41) afirma que “a leitura de narrativas intensas nos permite viver outras vidas, compreender dores que não são as nossas e, assim, ampliar os limites do humano”, reafirmando o viés formativo da literatura.
A partir da análise que foi feita na obra “O ódio que você semeia” e nas fundamentações teóricas utilizadas, conclui-se que o racismo estrutural continua sendo muito presente na sociedade atual, podendo se manifestar de várias formas, até mesmo através da violência policial. Na narrativa de Starr Carter, ela consegue demonstrar, que as experiências individuais podem e são ultrapassadas, principalmente por estruturas históricas de exclusão, tendo raízes que constantemente retornam ao período da escravidão. A literatura, neste contexto, funcionava como uma forma de resistência.
Assim, a obra literária de Angie Thomas demonstra como as realidades de jovens negros são validadas. A análise também demonstra que o debate sobre a violência policial não pode ser dissociado das desigualdades estruturais e da necessidade de reconhecer o papel que a escravidão desempenhou na eternização da história do racismo institucional.
Referências
BLOOM, Harold. The Western Canon: The Books and School of the Ages. New York: Harcourt Brace, 1995.
HASENBALG, Carlos. Discriminação e desigualdades raciais no Brasil. 2. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG; Rio de Janeiro: IUPERJ, 2005.
TELLES, Edward Eric. Racismo à brasileira: uma nova perspectiva sociológica. 1. ed. Rio de Janeiro: Relume-Dumará; Fundação Ford, 2003.
GILROY, Paul. O Atlântico negro: modernidade e dupla consciência. 1. ed. São Paulo: Editora 34, 2001.
HOOKS, Bell. E eu não sou uma mulher?: mulheres negras e feminismo. 1. ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/j/bpsr/a/t8bf6Nb7ygjDxv7TSB4t5yk/?lang=en#:~:text=modernidade%20no%20Brasil,320%20pp. Acesso em: 8 jun. 2025.
LAJOLO, Marisa. Literatura e vida social. 2. ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 1993.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Epistemologias do Sul: para uma ecologia do saber. 2. ed. Rio de Janeiro: Cortez; São Paulo: Autêntica, 2014.
LOURENÇO, Conceição. Racismo: a verdade dói – encare. 1. ed. São Paulo: Terceiro Nome, 2006.
THOMAS, Angie. O ódio que você semeia. Trad. Mônica Bringel. 7. ed. Rio de Janeiro: Galera Record, 2017.
[1]Estudante da 2ª série do ensino médio ( Daniel.rodrigues@estudantesagrado.com.br )
[2]Estudante da 2ª série do ensino médio (Gustavo.denardi@estudantesagrado.com.br)
[3]Estudante da 2ª série do ensino médio ( Jose.hypolito@estudantesagrado.com.br )
[4]Estudante da 2ª série do ensino médio ( Matheus.silva@estudantesagrado.com.br )
[5] Professora especialista em língua portuguesa

