O preço do amar e orgulho

“Eram as notas da celeste harmonia que seu coração vibrava como um rouxinol canta na primavera e as harpas ressoam ao sopro de Deus.”
- José de Alencar
Giovana Ayumi Maruiti
Maiza Barros de Brito
Dados do IBGE (2024) mostram que, em 2022, foram registrados 970 mil casamentos e 420 mil divórcios no Brasil, correspondendo a aproximadamente um divórcio para cada 2,3 casamentos. Esses números evidenciam que muitos relacionamentos enfrentam dificuldades para lidar com os desafios que surgem após o período inicial do relacionamento. Sob a perspectiva da filosofia, o amor pode se manifestar por meio de Eros, Philia e Ágape — dimensões consolidadas no pensamento grego (Platão, 2012). Quando uma relação permanece sustentada apenas pelo desejo, torna-se mais vulnerável aos conflitos do dia a dia. Essa distinção entre o amor aparente e o verdadeiro também é tema de Diva, de José de Alencar, obra que analisa como orgulho, aparência e convenções sociais interferem na construção do amor verdadeiro.
Publicado em 1864, o romance urbano Diva integra um conjunto de obras e evidencia o interesse do autor, José de Alencar, pela análise psicológica das personagens e pelas relações entre sentimento, orgulho e posição social. A obra apresenta características próprias do movimento Romantismo, como a valorização dos sentimentos, da subjetividade e da idealização amorosa. Por outro lado, Alencar utiliza esses elementos para questionar as convenções sociais e mostrar que o amor verdadeiro exige amadurecimento e a superação do orgulho.
No romance, Emília Duarte e Augusto Amaral são personagens centrais, pois apresentam profundidade psicológica e evoluem ao longo da narrativa. Os conflitos giram em torno de orgulho, amor, aparência e posição social. Emília, rica e da alta sociedade, crê controlar seus relacionamentos e usa sua posição como poder, colocando Augusto à prova por orgulho e receio de se revelar. Augusto preserva sua dignidade e não se deixa conquistar apenas pelo prestígio dela. O conflito mostra como dinheiro, aparência e status moldam as relações; além disso, a obra problematiza papéis de gênero ao apresentar uma protagonista que desafia as expectativas impostas às mulheres do século XIX.
Sob a perspectiva das dimensões do amor, a relação inicia-se marcada por Eros — o desejo e a paixão intensa, alimentada também pela admiração externa e pelo prestígio social. À medida que superam orgulho e vaidade, o vínculo evolui para Philia: o respeito mútuo, a confiança e a amizade que se consolidam entre os dois. A relação atinge sua plenitude quando transcende o interesse e a aparência, aproximando-se de Ágape — o amor que se doa incondicionalmente, sem exigências ou condições. Emília transforma seu orgulho e sua vaidade à medida que reconhece seus sentimentos, enquanto Augusto demonstra maturidade, equilíbrio e firmeza diante dos conflitos amorosos.
Por meio dos elementos narrativos — o conflito entre amor e interesse, a caracterização de Emília e Augusto e o retrato da sociedade burguesa do século XIX —, o autor critica os valores baseados na aparência e o casamento por conveniência. A obra revela, assim, que os sentimentos verdadeiros e o amadurecimento superam orgulho, vaidade e as convenções sociais.
Em Literatura e Sociedade, Antonio Candido (2006) afirma que a literatura reflete e questiona a realidade de sua época. Em Diva, Alencar expõe a pressão sobre a mulher e a exigência de submeter-se às expectativas sociais. Tal reflexão permanece atual: ainda hoje, mulheres são julgadas por não corresponderem ao que se espera delas. Assim, Diva continua pertinente ao denunciar limites impostos à liberdade e à identidade feminina.
Por fim, Diva evidencia como José de Alencar utiliza o romance para criticar os valores da sociedade burguesa do século XIX, especialmente a influência da aparência, do orgulho e do interesse nas relações afetivas. Ao construir personagens complexas e conflitos marcados pelas convenções sociais, o autor demonstra que o amadurecimento pessoal e os sentimentos verdadeiros podem superar a vaidade e os preconceitos impostos pela sociedade. Dessa forma, a obra se mantém pertinente ao mostrar que o conflito entre orgulho e afeto permanece presente nas relações humanas, convidando o leitor a refletir sobre como os padrões sociais moldam as escolhas individuais.
REFERÊNCIAS
ALENCAR, José de. Diva. São Paulo: Ática, 1998.
BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Estatísticas do Registro Civil 2022. Rio de Janeiro: IBGE, 2024. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/17271-estatisticas-do-registro-civil.html. Acesso em: 25 jun. 2026.
CÂNDIDO, Antônio. Literatura e sociedade. 9. ed. São Paulo: Ouro sobre Azul, 2006.
PLATÃO. O Banquete. Tradução de Maria da Graça Borges. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012.

