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Heroínas negras: uma análise das mulheres negras no Brasil


Por: Especial para JN
Data: 28/05/2026
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Ana Julia da Silva

Boreggio Gabriela

Fernandes Bonini Enares

Desde o período escravocrata, as mulheres negras enfrentam uma história marcada por exploração, violência e desigualdades raciais e de gênero. Desumanizadas por torturas e submetidas a casamentos forçados que serviam aos interesses de senhores brancos, elas viveram séculos de opressão dentro e fora do lar. Mesmo após a abolição, sua realidade pouco mudou: sem acesso à educação, moradia ou políticas de inclusão, a maioria permaneceu no serviço doméstico — atividade herdada da escravidão, que permanece mal remunerada, precária e socialmente desvalorizada até hoje.

Essa marginalização foi aprofundada por políticas públicas que sempre desfavoreceram a população negra. O mercado de trabalho reflete essa estrutura: dados mostram que uma em cada cinco mulheres brasileiras é empregada doméstica, enquanto cargos de chefia são majoritariamente ocupados por homens brancos, seguidos por mulheres brancas, homens negros e, por último, mulheres negras. Como defende Sueli Carneiro, a mulher negra vive na interseção entre racismo e sexismo, sendo o grupo mais vulnerável da sociedade.

A história do Brasil é cheia de mulheres negras que fizeram a diferença — mas que, por muito tempo, foram apagadas ou ignoradas. O livro Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis, de Jarrid Arraes, revela como o preconceito e a exclusão se perpetuaram por gerações e explica: mesmo com leis que garantem igualdade, ainda existem obstáculos fortes para que essas personagens recebam o destaque que merecem.

A associação histórica entre mulheres negras e o trabalho doméstico não é natural, mas resultado de um processo de racialização do trabalho. Antes, a divisão de papéis definia o homem como provedor e a mulher como cuidadora do lar; hoje, quando aplicada à mulher negra, essa lógica representa uma herança de subordinação que precisa ser desconstruída. Essa reflexão leva à pergunta central: por que elas ainda ocupam os espaços mais desvalorizados da sociedade?

Durante séculos, a história brasileira foi contada sob uma perspectiva hegemônica, que silenciou a atuação e a identidade das mulheres negras. Jarrid Arraes rompe com essa lógica ao usar a literatura de cordel — gênero popular nordestino, também marginalizado

— para resgatar trajetórias de mulheres que lutaram contra o racismo, o colonialismo e o machismo. A autora combate o que Carneiro chama de epistemicídio: o apagamento do conhecimento e da história do povo negro. Ao dar visibilidade a personagens como Dandara dos Palmares, Luísa Mahin e Tereza de Benguela, ela reescreve a história do Brasil sob o olhar feminino e negro, desconstruindo estereótipos e fortalecendo o pertencimento cultural.

A literatura negra funciona, assim, como forma de resistência. Como explica Eduardo de Assis Duarte, ela se define por cinco pilares: centralidade no negro, autoria negra, visão de mundo própria, linguagem enraizada na cultura afro-brasileira e foco na realidade vivida. Um exemplo fundamental é Maria Firmina dos Reis, primeira romancista negra do Brasil, nascida em 1822 no Maranhão. Autodidata, tornou-se a primeira professora pública concursada de seu estado e publicou, em 1859, Úrsula — primeiro romance abolicionista brasileiro, no qual retratou a escravidão como um sistema desumano, rompendo com a visão romântica da época. Além de escritora, fundou uma escola gratuita e mista para crianças pobres em 1880, um ato revolucionário para o século XIX. Sua trajetória, lembrada por Arraes, é um marco de luta e transgressão contra o racismo e o machismo.

Infelizmente, as desigualdades permanecem. Mulheres negras representam 28% da população brasileira, mas recebem, em média, apenas 42% do salário de homens brancos em funções equivalentes. Em 2022, sua taxa de desocupação chegou a 13,9% — quase o dobro da de homens brancos (6,1%) — e 46,8% trabalham na informalidade, contra 34,5% das mulheres brancas. A insegurança alimentar também é grave: afeta 41,7% das famílias chefiadas por mulheres negras, ante 16,3% daquelas lideradas por homens brancos. Na política, são apenas um terço dos deputados federais e têm presença ainda menor nas prefeituras. O Dia Nacional de Tereza de Benguela, celebrado em 25 de julho, lembra essa luta e a necessidade de reconhecimento.

Por meio deste estudo, que alia análise histórica e a obra de Arraes, foi possível comparar a realidade de ontem e de hoje. A trajetória de Maria Firmina dos Reis mostra que a resistência é parte da história da mulher negra, e sua memória ajuda a compreender os desafios atuais. Embora haja avanços, ainda é preciso desconstruir estruturas seculares de racismo e machismo, para que a igualdade deixe de ser apenas um direito previsto em lei e se torne realidade para todas as mulheres.

Referências

AGÊNCIA BRASIL. Insegurança alimentar é maior para mulheres negras, aponta rela tório. 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-huma nos/noticia/2024-08/inseguranca-alimentar-e-maior-para-mulheres-negras aponta-relatorio. Acesso em: 31 jul. 2025.

ARRAES, Jarid. Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis. 3. ed. São Paulo: Pólen, 2017.

CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. In: Racismos contemporâneos. Rio de Janeiro: Takano, 2003. p. 49-58. Disponível em: https://repositorio.ufpe.br/ handle/123456789/54022. Acesso em: 04 mai. 2025.

DUARTE, Eduardo de Assis. Literatura afro-brasileira: uma introdução. Belo Hori zonte: Autêntica, 2011. FELISBERTO, Fernanda. A subversão do cânone por Maria Firmina dos Reis. In: Re vista Estudos Feministas, v. 22, n. 1, p. 75-89, 2014. Disponível em: http://www.sci elo.br/scielo.php?script=sci_arttextCpid=S0104-026X2014000100075. Acesso em: 6 jun. 2025.

FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Maria Firmina dos Reis. Disponível em: https://www.gov.br/palmares/pt-br/assuntos/noticias/maria-firmina-dos-reis. Acesso em: 31 jul. 2025. KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Rio de Ja neiro: Cobogó, 2019.

SANTOS, Ana Carolina. Mulheres negras e o cânone literário: por uma reescrita da história. In: Cadernos de Literatura em Tradução, v. 26, p. 109-120, 2021. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/clt. Acesso em: 6 jun. 2025.


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