João Guimarães Rosa. “Grande sertão: veredas”

Desde o ensino médio eu ouvia falar de “Grande sertão: veredas”, mas, somente em 2022 eu o li. Essa longa espera se deve a alguns fatores, dentro os quais destaco dois: 1º outras prioridades de leitura e 2º os dizeres de que essa obra era altamente difícil. Veja, eu, que sou um leitor experiente, me deixei intimidar pelo segundo aspecto, quanto mais se deixará alguém sem hábito de leitura. Superado esse infame obstáculo, comecei a ler a obra de Guimarães Rosa e não parei até concluí-la, em um tempo de quase três semanas.
De fato, “Grande sertão” possui uma linguagem peculiar, repleta de neologismos, mas só se perde na leitura quem quiser se perder, tamanha a qualidade da escrita e a qualidade do enredo. Eu não pesquisei palavra por palavra que eu não conhecia, pois isso tornaria a leitura enfadonha. Só pesquisei palavras recorrentes e isso me bastou para saborear as histórias de Riobaldo, o protagonista da obra de Guimarães Rosa.
Em carta a Clarice Lispector, Fernando Sabino chama Guimarães Rosa de um “monstro”. Eu posso dizer o mesmo. Rosa é um monstro. Em matéria de literatura brasileira, o que de mais próximo eu li que se assemelhasse á “Ilíada” e à “Odisseia” foi “Grande sertão”. Por outro lado, Sabino, na mesma carta, menosprezou Graciliano Ramos, o que considero um exagero. “Vidas secas”, de Graciliano, é igualmente obra de “monstro”, é uma obra clássica, é uma obra que sempre poderá ser lida com o mesmo frescor. Nas palavras de Sabino: “Adeus, literatura nordestina de cangaço, zélins, gracilianos e bagaceiras: o homem é um monstro para escrever sobre jagunços do interior de Minas e com uma linguagem que nem Gil Vicente, nem ninguém.” (SABINO, 2020, p. 439).
À parte as impressões de Sabino, o que me importa é dizer que Riobaldo, um jagunço do norte de Minas Gerais, com a sua linguagem própria, nos deixa em choque com as suas reflexões. “Grande sertão: veredas” pode ser lido como um romance de formação, como uma epopeia, como um livro existencialista e de milhares de outras formas. Como romance de formação porque a obra narra a história de Riobaldo, da meninice à chefia de um bando; como uma epopeia, pois vemos a grandiosidade dos feitos de Riobaldo, sendo ele semelhante a Ulisses; e como um livro existencialista porque os seus temas reverberam no mais profundo dos nossos pensamentos, sendo que as suas diversas caracterizações sobre o que é o sertão facilmente substituíveis por outros ambientes da existência.
Sertão é o sozinho. (...) Sertão: é dentro da gente. (ROSA, 2020, p. 224).
O sertão aceita todos os nomes: aqui é o Gerais, lá é o Chapadão, lá acolá é a caatinga. (ROSA, 2020, p. 352).
O sertão não tem janelas nem portas. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa... (ROSA, 2020 p. 355).
Enquanto professor, sempre vi citarem uma frase de Guimarães Rosa, mas sem nenhum contexto, até que a encontrei: “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.” E o contexto é esse: essa frase encontra-se na metade de “Grande sertão”, no ponto de virada em que Riobaldo passará a assumir mais responsabilidades sobre o seu bando de jagunços, até o ponto de se tornar chefe. Nesse momento da obra – metade -, Riobaldo, que também era chamado de “Professor” por Zé Bebelo, faz um balanço de sua vida. É como se ele, um sábio, sintetizasse a vida para o ouvinte. Vejamos a frase em seu sentido original:
Saí, vim, destes meus Gerais: voltei com Diadorim. Não voltei? Travessias... Diadorim, os rios verdes. A lua, o luar: vejo esses vaqueiros que viajam a boiada, mediante o madrugar, com lua no céu, dia depois de dia. Pergunto coisas ao burití; e o que ele responde é: a coragem minha. Burití quer todo azul, e não se aparta de sua água – carece de espelho. Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende. Por que é que todos não se reúnem, para sofrer e vencer juntos, de uma vez? Eu queria formar uma cidade da religião. (ROSA, 2020, p. 224).
O anúncio do livro de Guimarães Rosa no Correio da Manhã (RJ), de 17 de julho de 1956 dizia: “Quando V. ler êsse livro, não passe adiante o seu enrêdo. Deixe aos outros o prazer de descobrir o ‘GRANDE SERTÃO: VEREDAS’”. Segui à risca essa recomendação, apenas dizendo que este livro, sim, vale a pena ser lido, marcará o leitor, que conhecerá as histórias de Riobaldo e de Diadorim, e que a linguagem peculiar da obra em nada impede a fluência da leitura, muito pelo contrário. Contrarie quem diz que há obras difíceis de serem lidas; seja o seu próprio juiz!
Mas, na ocasião, me lembrei dum conselho que Zé Bebelo, na Nhanva, um dia me tinha dado. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é. Zé Bebelo falava sempre com a máquina de acerto – inteligência só. (ROSA, 2020, p. 173).
João Guimarães Rosa. Grande sertão: veredas. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
Fernando Sabino. Cartas. In: João Guimarães Rosa. Grande sertão: veredas. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

