Hemingway e meu pai

Em "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway, há uma reflexão do protagonista, Robert Jordan, que me marcou: o desejo que ele tinha de conversar com o seu avô, falecido há anos. Robert Jordan acreditava que, sendo adulto, e estando em campo de batalha na Guerra Civil Espanhola, teria mais condições de conversar livremente e de aprender com o avô, que havia lutado na Guerra Civil Americana.
No meu caso, também sou adulto, com 37 anos, e também acredito que hoje eu teria mais condições de conversar livremente com o meu pai, que faleceu em 2013, e de aprender com ele. A título de exemplo, eu adoraria conversar sobre paternidade com o meu pai, mas nunca poderei.
É com o transcorrer da idade, e das lutas que ela traz, que eu consigo refletir melhor sobre a condição humana e entender mais (espero que mais) algumas angústias e alegrias do meu genitor. Dentre as angústias estavam a rotina e a labuta pelo pão de cada dia. Lembro-me perfeitamente a forma com que ele almejava vender um caminhão para, assim, realizar alguns desejos e algumas necessidades, e também me recordo com precisão a tristeza que ele sentia quando a venda não se realizava. Nós, sua família, perdíamos o dia, a semana, o mês, e o humor do meu pai oscilava - sempre para baixo.
Por outro lado, a luta pelo pão de cada dia também possui alegrias, e quando meu pai conseguia fazer uma, duas, três vendas em um mês, nós sabíamos que aquele seria um mês mais tranquilo em casa e que o humor do Senhor Luiz Carlos Gomes Figueira seria melhor. Como queríamos que ele ficasse com um bom humor...
Quando eu vou ao comércio e um vendedor me atende, a transferência é imediata: vejo naquela pessoa o rosto do meu pai. Eu procuro pedir meu justo desconto, mas, ao mesmo tempo, eu me lembro do meu pai e da sua boa-fé e boa vontade em atender da melhor forma o cliente.
O protagonista de Hemingway queria conversar com o seu avô, mas não era possível. Quanto ao meu avô paterno, que faleceu quando eu tinha 32 anos, eu conversei muito, pena que não sobre paternidade. Mas, quanto ao meu pai, muitas conversas se tornaram impossíveis, pois ele morreu aos 50 anos de idade. A literatura nos dá muito além de erudição, ela permite um rico diálogo com a nossa alma.

