Frio
Ela acordou cedo.
Antes mesmo do despertador.
Afazeres matinais. Café da manhã. Lanche escolar. Uniforme. Mochila.
Às sete, ainda a neblina.
Às oito, a neblina passou.
E ela, ainda cheia de frio.
Na rua, gente de camiseta. Também tinha gente de bermuda.
Chegou ao trabalho. Protegida pelas blusas.
- Ué, não tá com calor?
- Ainda não. Acordei hoje cheia de frio.
Alguém no trabalho segurou sua mão. Estava quente. Mais quente do que qualquer outra mão que já havia tocado.
O dia passou.
Por um instante, forçou-se a tirar a blusa. Colocou de volta. Ainda sentia frio.
Final de tarde, depois do trabalho, um raio de sol entrou pela janela.
Um respingo de calor.
E saiu para caminhar.
Já no caminho, a sensação de delícia abraçou seu corpo inteiro.
Cada raio de sol a atravessava delicadamente.
E sentiu devagar cada batida do seu coração.
Foi tirando o monte de blusas.
Uma a uma.
Sentiu-se bem.
E, sem perceber, seu rosto voltou a sorrir.
No outro dia, notou apenas quando estava no trabalho.
Esqueceu a blusa.
E começou a sempre esquecer.
E, em todo novo dia, o frio se tornava cada vez mais quente.

