Despertar
Fabiana Margonato é mestra em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.
Instagram: @fabiana_margonato
Durante muito tempo, imaginei como seria minha vida quando chegasse aos quarenta. Sempre fiquei curiosa sobre como as pessoas comemoravam a chegada na primeira casa dos “enta”. Ouvia pessoas dizendo que, depois dos quarenta, sempre tinha uma dorzinha, um remedinho e, de vez em quando, uma visita ao médico. Mas uma coisa ninguém me contou: a maior mudança é uma que acontece bem dentro.
Esses tempos atrás, encontrei uma série coreana na Netflix: “Trinta e nove”. Logo que vi, achei interessante, e parei pra assistir. Não vou dar spoiler, mas vale a pena passar umas horas assistindo. O que ficou para mim da minissérie foi a percepção de que a idade não nos muda. E que o passar dos anos pode ajudar a perceber que a vida não espera a vez para acontecer. Particularmente quando se completa quarenta anos, as velinhas do bolo parecem mostrar que mais ou menos metade da vida já passou — se tudo correr bem e chegarmos aos 80! E, junto com isso, vem um alerta: a segunda metade também vai passar. Talvez ainda mais rápido do que a primeira.
Já fui a várias festas de quarenta anos. E olha que até uma nova palavra foi inventada para essa fase: “quarentar”. Eu, quando quarentei, optei por comemorar em uma viagem curta com a família. Na época, sentia-me exausta pelas múltiplas funções típicas de uma mulher nessa fase da vida. O que mais queria era, bem lá no fundo, me refugiar por alguns momentos da minha própria rotina.
Talvez o momento em que quarentamos seja uma grande oportunidade de olhar para o que passou e perceber se os sonhos mais antigos foram concretizados. Mas também de assumir a liberdade de repensar o que não deu certo e avaliar se aquilo que queríamos tanto ainda é essencial. Hoje, vejo os quarenta anos como uma possibilidade para um despertar em meio a toda essa jornada.
E, na métrica do tempo, existe algo que raramente consideramos: envelhecer é também um privilégio. É carregar no corpo as marcas de tudo aquilo que um dia fomos e, ainda assim, continuar sendo. Talvez aceitar o envelhecimento não seja simplesmente conformar-se com o tempo, mas reconhecer que cada marca conta uma parte da história que nos trouxe até aqui.
Talvez seja essa a grande mudança que ninguém me contou sobre os quarenta. Não é que a vida fique menor. É que passamos a enxergar o tempo de outra maneira. Percebemos que algumas coisas ainda podem acontecer, enquanto outras precisam ser deixadas para trás. Que alguns sonhos continuam fazendo sentido e outros precisam ser reinventados. Talvez amadurecer seja aprender a escolher, entre tantas possibilidades, aquilo que ainda queremos viver. E talvez seja esse o verdadeiro despertar: perceber que o tempo não está apenas passando por nós. Ele está nos ensinando a olhar para a vida enquanto ainda estamos nela.

