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Como se construiu o idioma dos brasileiros?


Por: Especial para JN
Data: 16/07/2026
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Issa Yumi Tasaki

 

A invenção da escrita foi um avanço técnico, representou grande transformação na forma como o ser humano constrói a linguagem, pensa e organiza o mundo. Antes de existirem registros, a palavra era apenas som, presença e expressão corporal. Como discute Walter Ong em Oralidade e escrita[1], a passagem de uma cultura oral para uma cultura letrada altera a própria consciência. A língua não surge de repente, mas se constrói ao longo do tempo, entre vozes, culturas e registros. Eis uma questão: a Língua Portuguesa foi descoberta ou inventada?

A escrita é uma das criações mais importantes da história, permitiu registrar o que antes só existia na memória e na fala. Entre as primeiras formas estão os hieróglifos, surgidos por volta de 3000 a.C. no Egito Antigo, e a escrita cuneiforme — considerada a mais antiga — desenvolvida na Mesopotâmia em 3300 a.C. Com ela, o conhecimento e as histórias deixaram de ser passageiros e passaram a durar, possibilitando o aparecimento da literatura, das leis e dos registros históricos. Conforme explica Walter J. Ong, a escrita grava a linguagem e reorganiza o pensamento, tornando-o mais estruturado e fixo, o que ajuda a preservar as línguas por gerações.

Antes, as narrativas eram orais e transmitidas de geração em geração por meio da memória e da performance. Narrar era um ato coletivo, em que cada contador podia adaptar e recontar a história. Com o surgimento da escrita, essas narrativas deixaram de ser apenas lembranças e passaram a ser registradas. Muitas se transformaram em literatura, deixando de depender só da oralidade e passando a existir como textos. Assim, a escrita preserva as histórias, mas também as redefine.

Durante a Idade Média, consolidou-se como principal meio de registro do conhecimento, especialmente na religião, na política e na cultura. O latim era a língua oficial das igrejas e dos documentos formais, mas a população já se comunicava por idiomas populares derivados do latim vulgar. Com o tempo, essas línguas ganharam espaço também na escrita. Esse foi um momento decisivo: o latim, antes predominante, foi perdendo espaço para as línguas românicas, entre elas o galego-português, que daria origem ao português que usamos hoje.

Na Península Ibérica, esse processo deu origem ao galego-português, tronco comum do português e do galego atuais. Surgido do latim vulgar, foi usado no noroeste da região, principalmente entre os séculos XII e XIV, quando começou a ser registrado também na escrita, especialmente em produções como as cantigas. Nessa fase, não havia uma separação clara entre os dois idiomas: era uma única forma de expressão. Com mudanças políticas, como a formação do Reino de Portugal, o idioma foi se diferenciando, dando origem a duas línguas distintas. Fica claro, portanto, que o português não surgiu sozinho, mas é fruto de um processo histórico compartilhado.

O galego-português foi uma das primeiras línguas românicas a apresentar uma produção literária relevante fora do latim. Seu uso nas cantigas medievais mostrou que os idiomas populares ganhavam legitimidade também na escrita, o que contribuiu para sua valorização cultural. A evolução marcou o início de uma tradição escrita que se consolidaria nos séculos seguintes.

Sua produção literária se dividia em três tipos: as cantigas de amor, que expressavam o sentimento e o sofrimento do homem apaixonado; as cantigas de amigo, em que a voz feminina revelava saudade e espera; e as cantigas de escárnio e maldizer, marcadas pela crítica e pela ironia. Entre os principais autores dessa época estão Dom Dinis — que atuou tanto na política quanto como trovador —, Paio Soares de Taveirós e João Garcia de Guilhade[2]. Suas obras mostram que, mesmo em formação, o idioma já era capaz de expressar sentimentos, ideias e visões de mundo.

Com o tempo, fatores políticos e territoriais levaram à separação definitiva. Em Portugal[3], a consolidação do reino fez com que o português se tornasse oficial, usado na administração, na literatura e durante a expansão marítima. Já na Galícia, o galego sofreu forte influência do castelhano, ficando restrito ao uso popular por muitos anos. Essa diferença mostra que a evolução das línguas depende não só de questões linguísticas, mas também de contextos históricos, políticos e culturais.

Entender essa trajetória ajuda a compreender melhor a origem do português e de sua literatura. Estudar o galego-português é revisitar o passado e é perceber que ele não desapareceu, mas se transformou, deixando marcas claras na estrutura, no vocabulário e na cultura do idioma atual. As línguas não surgem por acaso, são construídas ao longo da história, e a escrita garante que, ainda hoje, essa herança continue viva.

 



[1] ONG, Walter J. Oralidade e escrita: a tecnologia da palavra. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

 

[2] NICOLA, José de; INFANTE, Ulisses. História da Literatura Portuguesa. São Paulo: Scipione, 2010.

[3] TEYSSIER, Paul. A língua portuguesa. 12. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2012.

 


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