Como carne de pá, nem bem nem má

Sempre que converso com minha Mãe, ouço algo interessante. Converso com ela há cinquenta anos e, mesmo assim, ela me surpreende. Dia 11 de agosto passado, foi aniversário de minha irmã Célia, liguei para parabenizá-la e, ao final troquei duas palavrinhas com Mainha.
Na nossa rápida prosa, perguntei como ela estava se sentindo, e a resposta foi a frase perolada que deu título a essa crônica:
- Estou, meu pai já dizia, como carne de pá, nem bem nem má.
Caímos no riso. Deve ter sido gratificante para ela lembrar das falas do pai. Também me senti grata com sua resposta em tom de brincadeira, por isso, para não perder o humor do momento, não esperei para escrever esse bem-humorado texto. Quero que vocês sintam o mesmo que nós.
A partir daí, lembrei de quando eu cursava a universidade, na segunda metade dos anos 90. A viagem de Cruz das Almas, minha cidade natal, até Feira de Santana, minha cidade intelectual, durava aproximadamente 1 hora. Às vezes, o ônibus ia “por dentro”, e passava pela cidade de Conceição da Feira.
Nessa cidadezinha havia um muro com desenhos e frases, uma delas nunca me saiu da cabeça, e se transformou em meu ditado particular. Toda vez que pegava o ônibus que passava por lá, me preocupava com a possibilidade de não me encontrar com aquela misteriosa frase.
Se eu não a lesse, poderia ser porque entrei no ônibus errado e pararia num lugar completamente desconhecido, sem dinheiro pra voltar – a grana era muito mais curta naquela época. Poderia ser também que alguém a tivesse apagado – aí tudo ficaria cinza. Ainda existia a chance d’eu dormir e, novamente, parar em “terras-de-não-sei-quem”. Enfim, eram muitos pensamentos que só desapareciam quando, no apagar das luzes, o ônibus, sacodindo por conta dos lisos paralelepípedos, liam aquelas doces palavras.
Não estava entre aspas nem tinha nome do autor, apenas dizia algo que todos, em um momento o outro da vida, sentiram. Quando Mainha me disse que estava como carne de pá, nem bem nem má, eu lembrei logo de que A saudade não tem braços, mas aperta.
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De Cruz das Almas à Feira de Santana
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