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Casamento como mecanismo de poder social em Senhora


Por: Especial para JN
Data: 24/09/2026
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Uma mulher rica e inteligente que, no século XIX, escolheu não se encaixar nos padrões sociais da época. Mesmo fazendo parte da burguesia, ela não demonstra interesse na vida ostentação.

Bianca Cristina dos Santos

Laura Barella Ortiz 

Em um contexto social cada vez mais marcado pela atribuição de status e pela influência do poder econômico nas relações pessoais, discussões acerca da mercantilização dos sentimentos permanecem extremamente atuais. Relações afetivas mediadas por interesses financeiros e pela busca de ascensão social demonstram que o afeto pode ser condicionado por fatores externos. A literatura brasileira do séc. XIX já apresentava crítica dessa dinâmica, em Senhora, romance em que José de Alencar problematiza o casamento como instrumento de poder social expondo problemas como a objetificação da pessoa, a perda da autonomia individual e a transformação do casamento em uma negociação econômica.

Publicado em 1875, o romance urbano mais representativos do Romantismo brasileiro, passa a retratar de forma mais crítica a organização da sociedade burguesa da época. A narrativa mostra Aurélia Camargo, uma jovem que, ao receber uma grande herança, passa a utilizar seu dinheiro para reorganizar relações de interesse. O enredo retrata temas como o casamento por conveniência, marcado pela predominância dos interesses econômicos sobre os afetivos, e a autonomia feminina, evidenciada pelo questionamento dos papéis de gênero e da posição social da mulher. Ao abordar essas questões, a obra promove uma crítica às desigualdades sociais e às normas patriarcais que limitavam a liberdade individual e transformavam o casamento em um instrumento de ascensão social.

Aurélia rompe com o papel feminino tradicional ao usar sua riqueza para assumir o controle da relação, enquanto Fernando Seixas representa a submissão às aparências e ao dinheiro — revelada ao romper seu compromisso com ela em busca de casamento vantajoso, em que prioriza a ascensão social sobre o afeto. Nesse contexto, em que mulheres tinham pouca autonomia e viviam submetidas às expectativas sociais, a protagonista, rica e independente, adquire Fernando para reparar o orgulho ferido pela recusa sofrida, como se o dinheiro pudesse apagar a humilhação vivida. Dessa forma, José de Alencar dirige crítica aos valores de sua época.

O tempo cronológico acompanha a evolução dos conflitos entre os protagonistas, ao passo que o romance retrata o cotidiano da elite carioca do século XIX, funcionando como uma crônica social. Nesse sentido, o casamento deixa de ser uma história de amor e passa a refletir interesses. Ao construir a narrativa em torno de orgulho, vingança e relações de poder, a obra expõe os dilemas morais e os condicionamentos vividos pelas personagens, transformando-se de um relato individual em crítica às convenções da sociedade burguesa do período (ALENCAR, 2007). Como destaca Alfredo Bosi (2017), muitos escritores românticos utilizaram a literatura para refletir as transformações sociais de sua época; já as questões relacionadas à autonomia feminina e à influência dos interesses materiais nas relações permanecem atuais.

Embora escrito em um contexto histórico distinto, Senhora permanece relevante por discutir questões que continuam presentes nas dinâmicas sociais contemporâneas. De acordo com o sociólogo Zygmunt Bauman (2004), em Amor Líquido, as relações humanas na modernidade tornam-se mais frágeis e frequentemente condicionadas por interesses individuais. Embora escrita no século XIX, a obra Senhora, de José de Alencar, antecipa esse conceito ao retratar um relacionamento profundamente influenciado pelo dinheiro, pelo status social e pela conveniência. Ao transformar o casamento em uma negociação financeira e evidenciar a interferência do capital nos sentimentos, o autor demonstra que os vínculos afetivos podem ser fragilizados quando subordinados a interesses materiais, tornando a discussão atual e relevante.

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 ALENCAR, José de. Senhora. São Paulo: Principis, 2020.

 

_____________. Senhora: perfil de mulher. São Paulo: Ática, 2007.

 

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 52. ed. São Paulo: Cultrix, 2017.

 

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.


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