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Antártida


Por: Odailson Volpe de Abreu
Data: 24/09/2026
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O Brasil tem ampliado sua expertise na arte de fazer cinema e entretenimento, porém, é preciso reconhecer que não é todo dia que um filme brasileiro leva o espectador para uma estação de pesquisa na Antártida. Só por isso, a estreia dessa semana já desperta alguma curiosidade. Mas o que chama atenção mesmo é perceber que a produção consegue transformar um estúdio no Rio de Janeiro em uma base de pesquisa perdida no continente gelado sem que isso pareça um truque. A tecnologia funciona e, melhor ainda, está a serviço da história. Essa semana, a Coluna Sétima Arte traz um pouco mais sobre o longa Antártida.

Produzido nos estúdios Globo e dirigido por Bruno Safadi, o filme acompanha a rotina de uma estação da Marinha brasileira que muda completamente depois que Inês, interpretada por Marina Ruy Barbosa, sofre uma violência sexual logo após sua chegada. A partir daí, Elisabeth, vivida por Andréa Beltrão, passa a conduzir uma investigação enquanto os homens da base se tornam suspeitos. O isolamento faz o restante. Não há para onde ir, não há como simplesmente deixar o local e, naquele ambiente, qualquer comportamento passa a ser observado com desconfiança.

A ideia é boa e Antártida encontra alguns momentos realmente interessantes para desenvolver esse suspense. O problema é que o filme parece querer fazer muitas coisas ao mesmo tempo e, como a gente já sabe, a ideia da Globo era fazer uma minissérie, que acabou condensada e virou um longa-metragem. Assunto demais, para tempo de menos e pouca conclusão para muita coisa.  É investigação, thriller, discussão sobre machismo, relações de poder, violência contra a mulher, hierarquia militar e ainda existe uma preocupação em apresentar aquele ambiente como personagem da própria história. Nem sempre tudo isso cabe com a mesma força em um longa-metragem.

Porém, é justamente na parte técnica que o filme consegue surpreender mais. A fotografia de Mauro Pinheiro Jr. aproveita muito bem os espaços da estação e o contraste entre os ambientes internos e a imensidão branca do lado de fora. A sensação de frio funciona, assim como o isolamento. Quando o aquecimento da base apresenta problemas, por exemplo, o espectador entende rapidamente que aquele lugar pode deixar de ser apenas cenário e se transformar em ameaça.

Bruno Safadi também faz boas escolhas com a câmera. Há movimentos bastante fluidos durante a apresentação dos personagens e algumas cenas são construídas de maneira visualmente inteligente, sem depender apenas dos diálogos. A montagem ganha força principalmente nos interrogatórios, quando diferentes versões dos acontecimentos começam a aparecer. Nesse momento, Antártida lembra que um suspense não precisa entregar todas as respostas imediatamente. O problema é que o roteiro nem sempre confia nessa capacidade do espectador de entender as coisas sozinho. O didatismo aqui se tornar um problema, porque algumas situações são explicadas mais de uma vez e determinados diálogos parecem dizer exatamente aquilo que a cena já havia mostrado. É uma pena, porque o filme tem bons atores e um ambiente muito particular. Poderia deixar que eles trabalhassem um pouco mais com os silêncios, os olhares e as contradições.

E o elenco merece atenção. Andréa Beltrão encontra em Elisabeth uma personagem que precisa assumir uma posição de comando em meio a uma situação cada vez mais complicada. A atriz consegue transmitir autoridade sem transformar a personagem em uma caricatura da mulher durona. Leandra Leal também está muito bem como Marina, principalmente nas cenas em que a personagem precisa lidar com a presença do ex-marido, vivido por Lázaro Ramos. Antonio Calloni tem uma participação que chama atenção justamente pela contenção. Não precisa fazer muito para dar peso ao personagem. Marina Ruy Barbosa, por outro lado, recebe uma personagem bastante difícil. Inês é o centro do acontecimento que movimenta a história, mas passa boa parte do filme sendo vista a partir do olhar dos outros. É aí que aparece uma das fragilidades de Antártida.

O filme quer discutir a violência contra a mulher, mas a própria personagem que sofre essa violência nem sempre recebe espaço suficiente para existir além dela. Depois do crime, Inês passa a ser principalmente a vítima, a pessoa que precisa ser investigada e o elemento que coloca todos os outros personagens em movimento. O suspense funciona a partir do que aconteceu com ela, mas o filme poderia ter ido mais longe naquilo que acontece com ela depois. Essa escolha é importante porque diferencia um filme que simplesmente utiliza um crime para construir uma investigação de outro que realmente quer discutir as consequências daquela violência. Antártida chega perto dessa segunda possibilidade algumas vezes, especialmente na relação entre as mulheres da estação, mas acaba voltando para o mistério de descobrir quem foi o responsável. Ainda assim, há uma identidade brasileira interessante nessa história. Não estamos diante de uma simples tentativa de reproduzir um suspense estrangeiro em outro cenário. A base é brasileira, os personagens são brasileiros e até a trilha da festa ajuda a lembrar isso. O filme pode ter neve, gelo e uma estação científica distante, mas não tenta esconder de onde veio. E isso é positivo.

É impossível também não lembrar do clássico O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter, filme de 1982, pela ideia de um grupo isolado em uma estação cercada pelo gelo, onde ninguém sabe exatamente em quem confiar. A comparação ajuda a perceber o caminho escolhido por Safadi. Enquanto Carpenter trabalha principalmente com a paranoia diante de uma ameaça desconhecida, Antártida desloca essa tensão para relações humanas muito mais próximas da nossa realidade. Bem por isso o filme funciona melhor quando abandona um pouco a necessidade de explicar sua própria mensagem. Há situações em que basta acompanhar os personagens para perceber a estrutura de poder daquele ambiente. Quando o roteiro deixa isso acontecer, a história ganha força. Quando os personagens precisam explicar o que o filme quer dizer, ela perde um pouco.

Por que ver esse filme? Antártida é uma produção brasileira de grande porte apostando em um gênero e em um cenário que não são comuns por aqui. E consegue fazer isso com competência técnica, só por isso, já vale a ida ao cinema. Em um momento em que o cinema nacional vem mostrando cada vez mais que pode ocupar diferentes espaços, é bom ver uma produção como essa se arriscando em uma história que, à primeira vista, poderia facilmente estar em uma produção estrangeira. No fim, Antártida é mais interessante quando olhamos para o que ele representa do que quando tentamos exigir dele uma resposta definitiva para todas as questões que apresenta. O gelo é convincente, a produção chama atenção e o elenco segura bem a história. Faltou ao roteiro confiar um pouco mais na própria capacidade de contar essa história sem explicar tanto. Mesmo assim, vale a sessão. Até porque, bem por isso, é sempre interessante quando o cinema brasileiro decide sair do lugar conhecido e descobrir o que consegue fazer em território novo. Boa sessão!

Odailson Volpe de Abreu


Anuncie com Jornal Noroeste
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