A raíz da depravação total: a ausência do temor a Deus (Rm 3.18)
Romanos 3.18 (ARA): “ Não há temor de Deus diante de seus olhos.”

Nos últimos textos, estivemos analisando a corrupção geral do comportamento do homem sem Cristo a partir dos versos de 9 a 17 de Romanos 3. Na primeira parte, no v. 9, Paulo defende que todos – judeus e gentios – estão debaixo do poder e da influência do pecado. Ou seja, não há livre arbítrio. Todo arbítrio (vontade) humana sem Cristo não é livre, mas está escravizado pelo pecado e sujeito a este.
Essa sujeição da vontade humana ao pecado se demonstra, conforme os v. de 10 a 17, em (v. 11) falta de entendimento espiritual, ausência do desejo de buscar a Deus, (v. 12) perdição moral, inutilidade e ausência de bondade generalizada, (v. 13-14) linguagem profana e corrompida, (v. 15-17) violência, maldade e inimizade social. Essa é a grave descrição que Paulo faz do homem natural sem Cristo debaixo do pecado.
Mas qual a raíz de tudo isso? Para Paulo, é a falta de temor a Deus. É isso que o apóstolo apresenta na conclusão da perícope, no v. 18: “Não há temor de Deus diante de seus olhos.” Segundo João Calvino, “[...] toda maldade flui de um desrespeito a Deus: pois como a parte principal da sabedoria é o temor de Deus, quando nos afastamos disso, não resta em nós nada certo ou puro.” Ou seja, toda a depravação moral da humanidade sem Cristo se dá por uma simples e única razão: eles não temem a Deus.
Mas o que é o temor a Deus? A palavra grega para temor “φ?βος” significa literalmente “medo”. Mas esse medo não é algo negativo que reprime, mas positivo que atrai. Ele pode ser melhor compreendido pela palavra “respeito” ou “reverência”. Um outro termo importante para explicar é “consideração”. Em outras palavras, na Bíblia, o temor é o sentimento de elevado e profundo respeito que um indivíduo nutre em seu coração em face do que Deus é e faz.
Sabendo que Deus não é como nós, sujeito a paixões, marcado por vaidades e corrupções; sabendo que Ele é santo, odeia o mal, ameaça o pecado com juízo e exige de suas criaturas fé em sua Palavra e obediência à sua lei, temer a Deus é a resposta piedosa ao considerar como verdadeiro e fora de dúvida o que Ele diz, e configurar todo o viver de acordo com isso.
Como costuma a dizer o Rev. Arão (IP de Paranavaí), temer “é levar Deus a sério”, o que traduz muito bem a atitude que o temor piedoso inspira. Ele leva o crente a considerar cuidadosamente a vontade de Deus, seu Ser e obras, suas declarações, e crer que são verdadeiras, de modo que isso influencie toda a sua vida!
No entanto, é por não possuírem esse temor, que a humanidade sem Cristo se encontra em profunda depravação. É por não levar Deus e sua Palavra a sério, por não considerar com gravidade as ameaças de Deus, por não respeitar e reverenciar a majestade, soberania e justiça de Deus que os tais se encontram mergulhados em inutilidades, confusão e maldade. A ausência do temor é como a ausência de um freio para todas as maldades e corrupções. Sem temor a Deus, a humanidade marcha rumo à loucura sem nenhum pudor ou comedimento.
Por outro lado, aqueles que temem e servem a Deus são sábios e vivem sabiamente: “O temor do Senhor é o princípio do saber, mas os loucos desprezam a sabedoria e o ensino.” (Pv 1.7). Aqueles que regulam suas vidas pelo temor a Deus tem vida: “O temor do Senhor é fonte de vida para evitar os laços da morte.” (Pv 14.27). Vida e sabedoria são doces frutos do temor piedoso a Deus.
Mas agora, por fim, como alcançar esse temor? Como deixar a falta de temor? A resposta é que não alcançamos o temor por nossas forças: é ele que nos alcança. A promessa de Deus em Jeremias 32:40 é que, na Nova Administração do Pacto da Graça, Ele mesmo colocaria em nosso coração (em nosso íntimo) o seu temor. Portanto, temer a Deus é um dom da graça divina que recebemos pela fé!
E esse temor, diz o texto, levará os fiéis a nunca se apartarem de Deus, perseverando em levar a Deus e sua Palavra a sério todos os dias: “Farei com eles aliança eterna, segundo a qual não deixarei de lhes fazer o bem; e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim.” (Jr 32.40).
Em Cristo, tal promessa se cumpre! Por meio da realização e proclamação do evangelho da graça de Jesus, os eleitos são eficazmente chamados por Deus, têm o coração regenerado, recebem um novo princípio de vida onde o temor predomina e dirige e, desta forma, caminham em santidade progressiva, considerando com seriedade as ordens e graças de Deus, jamais se apartando total ou finalmente do Senhor, que com eles estabeleceu uma aliança eterna.
Amém.
Fernando Razente
Diácono ordenado da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Paranavaí, Congregação de Nova Esperança, e seminarista do Seminário Presbiteriano do Sul – Extensão de Curitiba. Professor de Ciências Humanas, Filosofia e Ciência da Religião. Marido de Renata Minel
