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A Era da Produtividade Infinita: a exaustão como norma social


Por: Artigo de opinião
Data: 23/01/2026
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Por: Isadora Morlotti Lopes

Vivemos em uma era em que o ócio se tornou um luxo e o descanso, uma culpa a ser justificada. A incapacidade de simplesmente parar movimenta a economia tanto quanto o próprio trabalho. Não porque nos tornamos mais produtivos, mas porque fomos condicionados a acreditar que estar sempre ocupados é um requisito para o sucesso — e, mais do que isso, para a sobrevivência.

A tecnologia, aliada à insegurança econômica, dissolveu as fronteiras entre trabalho, lazer e descanso, transformando cada segundo do nosso dia em uma oportunidade potencialmente rentável. Já não basta ser bom no que se faz; é preciso parecer bom o tempo todo. Não basta trabalhar; é preciso divulgar cada esforço, capitalizar sobre cada talento e transformar até mesmo o lazer em um empreendimento. Qualquer atividade que antes era apenas um prazer, um passatempo ou uma válvula de escape pode — e deve — ser monetizada.

O resultado disso é um novo tipo de exaustão, mais profunda e sutil: não apenas física, mas também psicológica. A ideia de descanso foi corrompida pelo pensamento de que ele precisa ser “merecido”. Mas quem decide quando esse merecimento chega? Existe uma crença silenciosa e cruel de que o repouso é permitido apenas “quando se chega lá”. Mas onde exatamente é “lá”? Esse destino parece um arco-íris: quanto mais perto chegamos, mais distante ele se torna.

Essa pressão não vem apenas das empresas ou do mercado, mas também da cultura em que estamos inseridos. Se antes o trabalho era uma necessidade para garantir sustento, hoje ele se tornou um pilar central da identidade. O que tu faz passou a ser quem tu é. O problema é que, se somos definidos pelo trabalho, nunca podemos parar, sob o risco de perder relevância, valor ou, em casos extremos, dignidade.

E, se não bastasse a obsessão pela produtividade no ambiente profissional, ela invadiu também a esfera pessoal. Durante a pandemia de Covid-19, um dos momentos mais difíceis da história recente, não faltaram discursos motivacionais lembrando que Shakespeare escreveu Rei Lear durante a peste bubônica. Ou seja, não bastava atravessar uma crise sanitária global; era preciso sair dela poliglota, ceramista e pronto para abrir uma panificadora. O simples ato de existir já não era suficiente — era necessário produzir.

Essa lógica é refletida nos discursos que glorificam a disciplina extrema. O conceito do “5 a.m. club” é um exemplo disso: a ideia de que acordar antes do sol nascer, tomar um banho gelado e seguir uma rotina rígida é um passaporte para o sucesso. Mas será mesmo? Ou apenas mais um reflexo da obsessão por desempenho ininterrupto? Quem determinou que o amanhecer só vale a pena se for marcado por esforço e produtividade?

Houve um tempo em que o ócio era celebrado. O conceito italiano de dolce far niente — o doce prazer de não fazer nada — enaltecia a beleza de simplesmente existir sem a necessidade de ser útil. Na cultura brasileira, esse espírito foi imortalizado pela voz de Rita Lee, em 1981, quando ela cantou: “banho de espuma, sem culpa nenhuma”. O descanso era um direito, não uma transgressão.

Décadas depois, Elizabeth Gilbert trouxe essa mesma reflexão em Comer, Rezar, Amar, ao narrar a experiência de uma mulher norte-americana que, vinda de uma cultura obcecada pelo trabalho, descobre a alegria de não fazer nada pela primeira vez. Mas hoje, em um mundo em que até a meditação é vendida como ferramenta de produtividade e o lazer virou mais uma métrica de desempenho, resgatar essa filosofia parece mais difícil do que nunca.

O que acontece quando o tempo livre é extinto? Quando cada espaço de respiro é transformado em oportunidade de autopromoção ou autodesenvolvimento? O que acontece quando a produtividade se torna uma exigência constante, e o descanso, um pecado?

O que acontece é o esgotamento. O cansaço extremo, que não se cura com uma boa noite de sono. A ansiedade que acompanha a sensação de nunca estar fazendo o suficiente. A frustração de perseguir um sucesso que nunca chega, porque os critérios para alcançá-lo continuam mudando.

Talvez seja hora de repensar esse modelo. De reivindicar o direito ao ócio sem culpa. De entender que a vida não precisa ser medida apenas pelo que produzimos, mas também pelos momentos em que simplesmente somos.

Afinal, se parar parece um ato de rebeldia, talvez o descanso seja a forma mais radical de liberdade que podemos ter.

BIOGRAFIA

Isadora Morlotti Lopes, 23 anos, é natural de Curitiba (PR). Formada em Marketing e estudante de Publicidade, atua como diretora criativa estratégica, com foco em projetos ligados à cultura, subjetividade, comportamento contemporâneo e música.


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