Amar é deixar ir
Instagram: fabiana_margonato
Um tempo atrás aconteceu uma coincidência comigo. Não acredito em coincidências, mas essa palavra para facilitar a conversa. Li uma vez que Joana D’arc ouvia vozes. Quando perguntada sobre isso pelo rei francês Carlos VII, sobre o suposto dom, alegou que os direcionamentos divinos que recebia estariam ao alcance de todos, e que, para ouvi-los, bastava apenas silenciar por um instante e prestar atenção às batidas do próprio coração. Foi mais ou menos o que aconteceu comigo.
Me lembro bem desse dia, uma segunda-feira de manhã. Um dos meus filhos, com os impulsos da adolescência aflorando, combinou de almoçar e sair com os amigos logo depois da escola. Porém, como um bom rebelde sem causa, “esqueceu” o celular em casa bem no dia em que sairia feliz e contente dar umas voltas por aí.
Meu sangue ferveu: eu não conseguiria monitorá-lo pelo aplicativo que instalamos no celular, que mostra sua localização tempo real. A perda de controle trouxe um certo desespero. Quem me conhece sabe a mãe super protetora que sou. Meu coração ficou acelerado. Eu não sabia onde e com quem ele estaria por algumas horas. Mas liberdade era o que ele estava precisava em seu processo de crescimento. Mesmo sabendo disso, pensei em ir à escola e chamá-lo para impedir o passeio. Mas eu já estava atrasada para o trabalho, e ainda bem que não consegui fazer isso.
Chegando na escola em que trabalho, entrei apressada em uma das minhas turmas do ensino médio. Quando parei um pouco, percebi que minhas mãos estavam trêmulas por ter perdido o controle da situação. E eu entendi o que era. Meu filho estava crescendo e eu estava com medo. Enquanto tentava me recompor, um aluno, daqueles mais quietos, chegou perto de mim com o caderno, dizendo que tinha escrito um texto e queria que apenas eu lesse.
Comecei a ler. Era um relato de experiência, no qual ele contava que gostava muito de uma menina, com quem havia conversado pela internet por vários meses. Um certo dia, quando pensava ser correspondido, viu uma foto da amada, sem nenhuma explicação, com outro garoto na rede social. E ficou com o coração partido. No frigir dos ovos, depois de sofrer por um tempo, ele elaborou sua dor, fechando-a também no texto, com a seguinte frase: “entendi que amar é deixar ir”.
Vi claramente o que aquilo significava para mim: amar alguém, em alguns momentos, consiste em soltar, desejando para o outro o melhor, mesmo que você não esteja incluído nisso. Por mais que doa. Meu filho precisava de liberdade para dar os seus primeiros passos em um mundo no qual nem sempre estarei ao lado para apoiar. E a adolescência é a fase em que tudo começa. Fechei o caderno e senti que meu coração satisfeito por ter recebido uma resposta – o texto do meu aluno - me dando a certeza de que crescer é necessário e de que, como mãe, às vezes preciso soltar.
Depois desse dia, a frase “amar é deixar ir” assumiu para mim sentido de direcionamento em momentos decisivos. Não só em relação aos filhos, mas em relação a tudo. Isso porque é comum querermos nos vestir com roupas que não nos cabem. Às vezes muito grandes, ou muito pequenas, mas que de fato não foram feitas para nós. E frequentemente perdemos a saúde, o sono e energia por conta disso. Nessas situações, o melhor que nos resta a fazer é escolhermos a nós mesmos.
Esses dias, enquanto corria no parque, ouvia na voz da Adele, minha cantora favorita: “You had my heart inside of your hand, and you played it to the beat”, que em português significa: “Você teve meu coração e brincou com ele em cada batida”. Na hora pensei comigo, e conversei mentalmente com ela: “querida, nada e ninguém merece causar todo esse estrago na vida de alguém. Se causou, é porque foi uma roupa do tamanho errado. Não vale a pena lutar por isso”. Se eu pudesse, diria ainda a ela, que talvez esteja na hora de deixar ir o que a faz sofrer. Essa é a maior forma de autoamor que podemos exercer.

